<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493</id><updated>2012-01-25T21:26:41.714-01:00</updated><category term='Livros'/><title type='text'>António Sousa Homem</title><subtitle type='html'>Em certos aspectos</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>309</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8148776567630732601</id><published>2012-01-22T00:10:00.002-01:00</published><updated>2012-01-22T00:10:00.496-01:00</updated><title type='text'>O ódio, o rame-rame e a necessidade do vento</title><content type='html'>Há certos períodos da história, por motivos certamente inexplicáveis, em que o ódio anda à solta. Existem, sobre isso, duas perspectivas: uma, muito moral e cheia de bondade, que supõe um queixume geral sobre como os tempos estão amargos e sobre a necessidade de “conciliação”. Assisti, ao longo da minha vida, a vários períodos de “conciliação”; o mais longo, quase perpétuo, foi imposto pelo dr. Salazar, que tinha a vantagem de contar com o exército e as finanças do seu lado – com essas duas legiões, a “conciliação” era um objectivo garantido. Hoje, o exército não conta e as finanças (salvo se se falar, como o faz a minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família, “na finança”, um conjunto de cavalheiros hediondos que manuseia os destinos do país no conforto dos seus gabinetes) estão pobres. &lt;div&gt;&lt;br /&gt;A Tia Benedita temia que se cancelassem em Ponte de Lima os festejos em honra de Nossa Senhora das Dores. Ela acreditava que as romarias, a procissão, os cortejos, os foguetes e o despique entre as filarmónicas contribuíam para a “conciliação”. Depois disso, a vida voltava ao normal. Queria ela dizer, na sua sabedoria de Antigo Regime (anterior, portanto, a Manuel Fernandes Tomás), que se voltava “ao rame-rame” – que devia ser interrompido de tempos a tempos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Hoje, estamos “no rame-rame”. Suponho não haver nenhum estudo sociológico sobre a matéria, mas acredito que os portugueses não só não apreciam grandemente “o rame-rame” como acreditam que, ao contrário de outros povos, não foram feitos para “o rame-rame”. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Sem ser doutorada em ciência política, também Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, sustenta que é preciso mais do que a realidade para alimentar os seus concidadãos. Ontem, ao pequeno-almoço, enquanto me servia do meu café de cevada, fonte de humildade e de hipertensão saudável, Dona Elaine sugeriu que estava um nadinha cansada de “más notícias sobre as finanças”. Lembrei-lhe que noutros países se ouviam as mesmas más notícias e que a prosperidade tanto se perdia num ano como se recuperava em décadas. Ela confirmou, e lembrou os anos de penúria e de verdadeira “austeridade”, quando se dividiam as sardinhas e não havia talhos nem televisão por cabo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;“O senhor doutor sabe de finanças, mas eu percebo do Minho. Fazer contas está muito bem, mas também é preciso um bocadinho de espavento”, lembrou a filha de emigrantes de Reboreda.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Eu concordei. Na minha cabeça, a palavra que ficou foi “vento” em vez de “espavento”, mas atribuo isso ao meu conservadorismo congénito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;span &gt;&lt;i&gt;in Domingo&lt;/i&gt; - Correio da Manhã - 23 Janeiro 2012&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8148776567630732601?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8148776567630732601'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8148776567630732601'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2012/01/o-odio-o-rame-rame-e-necessidade-do.html' title='O ódio, o rame-rame e a necessidade do vento'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4450585264858860597</id><published>2012-01-15T00:10:00.000-01:00</published><updated>2012-01-15T00:10:00.614-01:00</updated><title type='text'>O meu casamento com Jenny Whitestone</title><content type='html'>Talvez eu tivesse, em sonhos, casado com Miss Jenny Whitestone. A impressão é antiga e nebulosa, cheia de recordações literárias. Hoje, quase ninguém sabe quem é Miss Whitestone e, portanto, o meu suposto casamento seria relegado – como convém – àquela clandestinidade que é, na literatura como na vida, a antecâmara da felicidade verdadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa, citando certa autora, e ajudada pela sua “deliciosa idade” (aquele período que, nas senhoras, ronda os quarenta anos), acha que a felicidade é “uma espécie de subproduto”. Tanta sensatez parece-me obra de desgosto e até a mim me espanta. Na verdade, Miss Whitestone nunca me desiludiu até hoje; o principal motivo é o de a sua figura ser pura criação literária, evidentemente, e só viver nas páginas de ‘Uma Família Inglesa’, de Júlio Dinis, romance que hoje todos esqueceram. A mim comoveu-me sempre o seu génio britânico e certa bondade portuense; mas falta-lhe, digamos, a tempestade que desperta paixões irresistíveis e descompõe destinos timoratos. Sobre ela, eu tive uma larguíssima vantagem: a de o velho Doutor Homem, meu pai, ser um personagem verdadeiro e admirável, ao contrário da figura de Richard Whitestone, o pai de Jenny e de Carlos. Defeito de Júlio Dinis, que não desenhou – porque não podia – uma figura como a de Craft, o personagem inglês de Eça (em ‘Os Maias’, onde é apresentado com a sua genealogia portuense), que se bateu como voluntário em Marrocos e na Abissínia e é um modelo de virtudes cépticas. Craft nunca poderia ter casado (a sua descrença no género humano traçou-lhe o destino); Carlos Whitestone, o irmão de Jenny, teria forçosamente de casar (com Cecília, se lerem o romance); e Jenny teria de aguardar por mim. Infelizmente, vivemos em tempos diferentes, mesmo se as minhas irmãs me acusam de pertencer ao século XIX, o que é um gesto de bondade arqueológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa, quando lhe contei este projecto antigo (o de, algures, poder ter casado com Jenny Whitestone) franziu o sobrolho e lembrou que os bons casamentos são feitos de pessoas reais. Nada mais verdadeiro. Ela própria, pessoa real, uma mulher que atravessou – com sucesso notável, uma vez que continua a visitar a minha biblioteca – duas ou mais décadas de feminismo, fracturas morais e desafios à espécie, já acumulou dois divórcios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jenny Whitestone apreciava begónias. Eu cultivo hibiscos, lembro alguma fidalguia das giestas amarelas do Minho, prolongo a vida das japoneiras do jardim do eremitério de Moledo. É uma aliança natural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;in Domingo&lt;/i&gt; - Correio da Manhã - 15 Janeiro 2012&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4450585264858860597?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4450585264858860597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4450585264858860597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2012/01/o-meu-casamento-com-jenny-whitestone.html' title='O meu casamento com Jenny Whitestone'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8277336619323736813</id><published>2012-01-08T00:10:00.002-01:00</published><updated>2012-01-08T00:10:01.238-01:00</updated><title type='text'>Os portugueses, a inveja e a antipatia</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, insistiu várias vezes no facto de a última palavra de ‘Os Lusíadas’ ser ‘inveja’. Contra a doutrina das ‘puras coincidências’ o causídico achava que havia nesse acaso todo um propósito nacional. O seu amor por Camões era questionável e flutuante, horrorizado por tantas declarações de encomiástico fervor pelo vate dos sonetos e pelo autor da epopeia que erguia a pátria ao Olimpo – mas alguma coisa dali se retiraria. ‘Os Lusíadas’ era um poema bom para valorizar uma raça de bandidos dos mares, de marinheiros nada timoratos, de valentões capazes de fazer rir como de fazer corar de vergonha as quinas da bandeira; malandros, heróis, aventureiros, comerciantes, almocreves, cépticos e maus cidadãos – este era o retrato que o velho Doutor Homem, meu pai, conservava dos versos em honra de Vasco da Gama e dos seus heróis e comparsas. Esse era o retrato dos portugueses “de boa têmpera”, como se dizia antigamente – honrados mas malandrotes e espertos, matreiros mas generosos. &lt;div&gt;&lt;br /&gt;O gosto da pátria por ‘Os Lusíadas’ era, também, conforme ao país: exaltante, se calhava estarmos em temporada; deprimido, ou façanhudo, se os tempos iam de descrédito e de mágoa. No século XVIII, Luís António Verney achava ‘Os Lusíadas’ uma obra de segunda linha e um dos malandros mais apreciados nas estantes da velha biblioteca de Ponte de Lima, o Padre Agostinho de Macedo, tentou provar a sua menoridade. Em vão. &lt;div&gt;&lt;br /&gt;Ficou a palavra ‘inveja’ como testamento de Camões sobre uma pátria que, a períodos incertos, demonstrava o seu desapego à honra. A inveja seria um dos nossos pecados capitais, se os portugueses os enumerassem; sobre a inveja, a capacidade de mofar sobre tudo e de toda a gente, sobretudo dos bons sentimento; e sobre tudo isto, de novo a inveja como mãe de todos os nossos vícios, mais do que a preguiça, a pobreza endémica, a injustiça e, como me ensina a minha sobrinha, as desigualdades sociais. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Não desanimemos. Passei o ano longe do leitor e entretido a ler os prognósticos sobre o futuro da pátria. Todos eles são tão duvidosos como a natureza dos avisos que nos lançam – a catástrofe é eminente e aproxima-se a passos largos. Para a maior parte dos adivinhos, 2012 será um ano fatal para o nosso ânimo. Noto alguma diferença, é certo. Há menos euforia despropositada e mais algum decoro na forma como se gasta o dinheiro. Habituados, durante anos, a viver no período da embaixada de El-Rei D. Manuel ao Papa, os portugueses regressam tristonhos do arraial de fogachos. O resultado é ficarem manhosos e entretidos a cultivar antipatias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;span &gt;&lt;i&gt;in Domingo&lt;/i&gt; - Correio da Manhã - 8 Janeiro 2012&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8277336619323736813?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8277336619323736813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8277336619323736813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2012/01/os-portugueses-inveja-e-antipatia.html' title='Os portugueses, a inveja e a antipatia'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-761000930249726929</id><published>2011-12-11T16:02:00.001-01:00</published><updated>2011-12-11T16:03:50.886-01:00</updated><title type='text'>O estado natural das coisas em Moledo</title><content type='html'>Sabe já o leitor benevolente que o destino não quis que eu seguisse e cumprisse “a ordem natural das cousas”, limitando-me, em vez de criar uma família, a pertencer à que me coube em sorte. O facto, em si mesmo, diz alguma coisa sobre o meu carácter e os meus defeitos mas acredito que contribui para morigerar a vaidade que tenho em algumas das minhas qualidades. A vaidade, aliás, é uma das características dos Homem, o que não esconde certa misantropia, desenvolvida sobretudo depois de parte dos nossos antepassados se terem recusado a passar a barreira do Antigo Regime, onde ficaram, entretidos com as suas coisas e mandando restaurar periodicamente os retratos mais antigos. Seja como for, esta mediocridade obrigou-me a poupar largas somas de energia que tenho aplicado nas tarefas de mártir da botânica e de leitor de curiosidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Ester, minha mãe, que por várias vezes me salvou dos abismos da infelicidade, nunca insistiu em que eu perseguisse o ideal de um casamento feliz, uma família estável, uma descendência que prolongasse a genealogia. Os meus irmãos (somos cinco) encarregaram-se disso, providenciando uma geração de sobrinhos-netos de que me orgulho com frequência e à qual atribuo virtudes curativas para os meus males de solidão, falando-me de assuntos que continuo a ignorar distraidamente, como a literatura dos últimos anos (tirando Dona Agustina, que pertence a uma certa forma de eternidade), o rock (que continuo a confundir com o ‘twist’ e o ‘ié-ié’), a internet, a puericultura e o dr. Alberto João Jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconhecendo os males da adolescência, período de que, a ter existido no meu caso, não guardo grandes saudades, não compreendo as suas “crises”. Os filhos de Maria Luísa apenas se aproximam perigosamente desse limbo, preparando vinganças; os de Ricardo atravessam-no com sobressaltos; Pedro, o arquitecto, não tem filhos, limitando-se a namorar com uma jovem bióloga holandesa que considera os portugueses objecto de estudo da paleontologia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida adulta não corre melhor. Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, considera que não é apenas o país que está perdido, mas também os meus irmãos, que falam continuamente de economia e finanças como se não tivessem passado anos a falhar todas as previsões. Também aqui a “a ordem natural das cousas” teve os seus sobressaltos: as minhas irmãs lamentam-se, folheando revistas de frivolidades, porque parece que foram forçadas a aprender contabilidade. Eu apenas comento que a discrição é um bem a conservar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 11 Dezembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-761000930249726929?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/761000930249726929'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/761000930249726929'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/12/o-estado-natural-das-coisas-em-moledo.html' title='O estado natural das coisas em Moledo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4318112947923305725</id><published>2011-12-04T15:33:00.001-01:00</published><updated>2011-12-04T15:35:29.808-01:00</updated><title type='text'>A agonia do capital financeiro em Moledo</title><content type='html'>A ideia de que “o capital é mortífero e cruel” não vem de Karl Marx mas dos conservadores de antanho, herdeiros do conciliábulo entre o trono e o altar. Hoje, desaparecidos o trono e o altar, resta a herança conservadora, incompreendida e destinada às traseiras do “pensamento político” como uma velharia que se conserva para os arquivos mas sobre a qual toda a gente tem dúvidas em apresentar às visitas ou em reservar-lhe um lugar de honra nas bibliotecas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos meus irmãos ouviu há tempos uma conferência no Porto (ou em Serralves ou na Casa da Música) e, passados uns meses, declarou que o autor de ‘O Capital’ não estava morto. A afirmação não requeria a certidão respectiva, e é semelhante aos anacronismos da Tia Benedita que, até ao fim dos seus dias, temia pelo regresso de Afonso Costa e das milícias republicanas, que viriam roubar as igrejas do Minho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Convém lembrar que o dr. Salazar também comungava do horror ao capital financeiro, o que não fazia dele um discípulo de Marx; era, antes, o horror do bom filho beirão ao mundo dos ricos e do capitalismo, berço da imoralidade e da irreligião. O velho Doutor Homem, meu pai, detestava no antigo lente de Coimbra o que chamava “a vista estreita”, embora não conseguisse dissimular o seu desgosto pela “Saville Row de Santa Comba”, aquela amostra de alfaiataria simples e lúgubre, tão avessa ao seu temperamento de dândi. Mas o “horror ao capital” lá estava, tão determinado como desconfiado, produto do catolicismo e do mundo rural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que essa desconfiança é antiga e histórica, assenta mais no pessimismo dos filósofos do que no optimismo dos economistas e financeiros, quase sempre injustificado e maioritário à esquerda, pelo menos desde que o século XIX escolheu a palavra ‘progresso’ como dogma. ‘Progresso’ e ‘capital financeiro’ andaram de mãos dadas até chegarem as depressões que destruíram fortunas e transformaram a vida das burguesias em parcelas dos balancetes contabilísticos. Mais uma vez, estavam certos os cépticos que, em vez de se arrastarem no foguetório da economia, reafirmavam que o dinheiro não chegava para todas as esperanças da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo isto enquanto os pinhais de Moledo, habituados à intempérie, vêem chegar o novo Inverno. A minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família, acredita que a revolução está para breve. Por isso, agasalha-se com as leituras da minha biblioteca e murmura que “devíamos ser mais espirituais”. Ela não desconfia, mas está à beira do conservadorismo de outros tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 4 Dezembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4318112947923305725?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4318112947923305725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4318112947923305725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/12/agonia-do-capital-financeiro-em-moledo.html' title='A agonia do capital financeiro em Moledo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8213322061923499294</id><published>2011-11-27T11:46:00.001-01:00</published><updated>2011-11-27T11:48:34.798-01:00</updated><title type='text'>O Outono não pertence a nenhum lugar</title><content type='html'>Periodicamente, como um pêndulo irregular (porque o temperamento dos humanos não tem a precisão da vulgaridade), Dona Elaine preocupa-se. O problema, diz a governanta do eremitério de Moledo, é o Outono, com a sua indecisão meteorológica, os caprichos do clima, as primeiras tempestades que fustigam a Ínsua e escondem Santa Tecla, as cordas de água que fazem da foz do Minho um retrato sombrio de Turner. Dona Elaine não conhece Turner e sobre a “indecisão meteorológica” limita-se a condensar a sabedoria de uma minhota dos arredores de Cerveira. Mas é o suficiente para se iniciar na carreira de psicóloga, observando que – diz ela – começo “a cismar”. A relação entre a crueza do tempo e os baixos níveis de entusiasmo parece-lhe um dogma assente em decénios de experiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem atribua ao Outono uma gran&amp;shy;de percentagem de razões para “começar a cismar”, como se nos desfolhássemos com os plátanos e as videiras das colinas. Pessoalmente, limito-me a agasalhar-me, atitude que me tem pro&amp;shy;tegido bastante dos resfriados e da ameaça do reumatismo sazo&amp;shy;nal. Esta indiferença há-de parecer relativamente arrogante. A minha sobrinha Maria Luísa perguntou-me se eu penso na morte. "Não cos&amp;shy;tumo cismar", respondi na altura. Penso apenas em gente como eu, na curva dos noventa, caminhando pelo paredão diante do mar, dobrando as articulações e usando chapéu e gabardina para se proteger do ar de Novembro; e penso que a idade de cismar passou numa das várias adolescências a que nos entregámos de alma e coração, no meio de uma paixão ou na falta dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os poetas de antanho supunham essa relação entre o Outono e a melancolia, ignorando que um bom agasalho seria suficiente para morigerar ou a baixa de tensão arterial ou a vontade de ficar em casa. Por mim, a melancolia é um artifício dos finais de tarde de Verão, com a sua ameaça de felicidade interrompida, que lembra o maravilhamento de outros tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sábados de Moledo são muito dados ao temperamento peripatético; há uma certa frieza dos pinhais que o Outono agra&amp;shy;va e amplia. As discussões sobre o temperamento não ultrapassam esse limite para não ferir a paisagem ou enegrecer o crepúsculo – à excepção de Dona Elaine. Ela insiste e teima em que a meteorologia nos condiciona em definitivo e faz comparações com a ameaça de felicidade que despontará daí a alguns meses, com a floração dos hibiscos ou os primeiros botões de roseiras de Santa Teresinha. Os hibiscos são de Moledo; as roseiras, em trepadeira, pertencem à minha memória de Ponte de Lima. Dona Elaine julga que já não pertenço a nenhum dos lugares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 27 Novembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8213322061923499294?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8213322061923499294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8213322061923499294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/11/o-outono-nao-pertence-nenhum-lugar.html' title='O Outono não pertence a nenhum lugar'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-55318240337922208</id><published>2011-11-20T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-11-20T00:10:00.480-01:00</updated><title type='text'>Álbuns de retratos, o paraíso de um conservador</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa surpreende-se frequentemente com os álbuns de família, uma velharia que só visito por dedicação ou como um guia de museu. Desta vez, comentou a roupa da família, a compostura das poses com que os grupos se deixavam fotografar, os retratos formais, certa rigidez com que a posteridade os fixou. Os retratos da Tia Benedita foram sempre requisitados para falar da família; havia no olhar da matriarca dos Homem uma bravura indefinida, qualquer coisa que confundiu sempre os que a recordam como a “ultramontana de Ponte de Lima” e que lhe exigiam uma dureza que nunca exibiu. A bravura do olhar não escondia uma certa docilidade, e a docilidade nunca escondeu a determinação da indiferença com que acolhia as novidades do mundo, uma coisa que dispensava e a arreliava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idade é um assunto banal. A partir de determinada altura deixamos de compreender o mundo e o facto devia tranquilizar-nos. Compreendemo-lo até certa altura; depois, ou nos comove ou nos deixa zangados; passa a ser indiferente mais tarde, quando o corpo exige mais cuidados e se compreende que as coisas do mundo decorrem perfeitamente sem a nossa intervenção ou sem o nosso horror. O velho Doutor Homem, meu pai, pedia que deixassem a Tia Benedita em paz; o seu mundo terminara há muito, os seus receios eram infundados, a sua vida não incomodava o curso das coisas nem a forma como “as novas gerações” escolhiam a maneira de vestir, de escolher uma profissão ou de destruir um amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sinto nenhuma amargura ao ver como o tempo passou sobre esses álbuns de família. Comovem-me os anos que passaram em vão, quase tanto como os momentos de felicidade vividos há quarenta, cinquenta, sessenta anos, e que são apenas uma ténue corrente de ar que percorre a casa e a deixa – também ela – indiferente. Essas fotografias deixam-me reconfortado. Numa delas, Dona Ester, minha mãe, está sentada sobre um muro diante de uma praia (os meus pais conheceram-se em Biarritz) – a mesma onde, nos anos vinte, o velho Doutor Homem, meu pai, a pediu em casamento. Penso que nessa época a vida era mais fácil. Mais medíocre, sim; mas mais fácil. O tempo da penicilina ainda não chegara e o ‘glamour’ do mundo tinha perecido com o Titanic, com a guerra e com o ódio que atravessara a I República.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explico a Maria Luísa que se é conservador por motivos banais. Às vezes, apenas por sermos delicados e respeitosos para com a passagem do tempo. Por sentirmos uma grande nostalgia das ruínas perfeitas, dos bosques de outrora e de uma ordem que já não vive entre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 20 Novembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-55318240337922208?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/55318240337922208'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/55318240337922208'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/11/albuns-de-retratos-o-paraiso-de-um.html' title='Álbuns de retratos, o paraíso de um conservador'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-131079579642450071</id><published>2011-11-13T10:13:00.001-01:00</published><updated>2011-11-13T10:15:31.811-01:00</updated><title type='text'>O que perdemos com o campo de outrora</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, ameaçava frequentemente desertar da cidade e vir viver para o Minho – aquele Minho de outrora, bucólico e incompleto, onde nunca se deu verdadeiramente bem, precisamente por lhe faltar a cidade. A cidade desses tempos (anos cinquenta, sessenta) também não era a cidade que hoje ameaça invadir todos os recantos com o seu ruído, a sua civilização e as suas vantagens; era uma soma de bairros a que o tempo emprestou elegância e a melancolia concede uma aura de bondade. O campo, confesso, era triste e pobre – verdejante, cheio de pastos, de estradas estreitas e onde os carros de então circulavam por vaidade e coragem. O meu Tio Alberto rompeu com esse mundo de camponeses pobres do tempo do dr. Salazar – e julgou, por algum tempo, viver numa espécie de condado britânico com ‘landlords’ civilizados e presbíteros cultos, desejosos de discutir a última guerra peninsular enquanto esperavam a chegada de um carteiro educado e destemido o suficiente para resistir às meteorologias locais. Esse campo nunca existiu. Tivemos oportunidades, sim, mas nunca existiu. O país nunca compreendeu o seu verdadeiro ressentimento contra um mundo pobre e desajustado onde tudo chegava com dificuldade – desde a assistência médica ao sinal de televisão – e de onde se fugia para ‘melhores condições de vida’, que raramente se verificavam nos bairros pobres das cidades. Hoje é tarde: desabituámo-nos da simplicidade e os gostos das novas gerações pouco coincidem com os limites das montanhas e da agricultura que desapareceu em grande parte das províncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ideal de campo do velho Doutor Homem, meu pai, era demasiado britânico, e em Portugal só aparecia nos romances de Mrs. Trollope, em bibliotecas arruinadas pela idade e nunca traduzidos – porque seriam incompreensíveis. A minha sobrinha Maria Luísa gosta do campo – a uma distância relativa que lhe permita manter-se imune. Por mais difícil que seja a vida nas cidades, não lhe passa regressar (como os antepassados de outro regime, cordatos e terratenentes) para cultivar as hortas ou dedicar-se – como agora é comum – ‘à agricultura biológica’. Compreendo-a, mas não vejo óbice à altura. A cidade deixou de ser uma garantia do paraíso terrestre, munida de todos os acessos ao bem-estar; Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, ainda acha que para lá de Viana existe um mundo como aparece nas telenovelas a que assiste com determinação, aborrecido e soturno. Mal se aproxima o Inverno, sonha com as mimosas na estrada de Caminha. Parece uma citadina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 13 Novembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-131079579642450071?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/131079579642450071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/131079579642450071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/11/o-que-perdemos-com-o-campo-de-outrora.html' title='O que perdemos com o campo de outrora'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8681650493221398873</id><published>2011-11-06T17:58:00.001-01:00</published><updated>2011-11-06T17:59:35.710-01:00</updated><title type='text'>A revisão da história e um pouco de misantropia</title><content type='html'>O mundo não está mais estranho do que há oitenta anos, quando eu aprendia a declinar, de acordo com os livros a época, os momentos essenciais da História Pátria. Os vencedores da História eram, com poucas excepções, os mesmos de hoje. Uma parte da família sentia-se indignada com o deslize de considerar a convenção de Évora Monte o momento essencial do século XIX, a par da inauguração dos caminhos de ferro – mas a maior parte seguia em frente e não se dava ao trabalho de tentar fazer o que, para o Tio Henrique, seria “repor alguma verdade” sobre os factos, embora a generalidade dos Homem insista em designar por Concessão de Évora Monte aquilo que passou à posteridade como Convenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que o Tio Henrique, além de herói militar praticamente desconhecido de algumas campanhas de África – onde se notabilizou na arma de engenharia –, era sobretudo o autor de todos os ditirambos conhecidos na minha infância e adolescência. Falava por advérbios e adjectivos a propósito das coisas mais simples e a sua retórica aproximava-se bastante da dos vates do constitucionalismo, com cuja gramática fora criado. A família prezava-o muito mas passava adiante, receando uma recaída no único musicólogo da casa, recordando como já fora difícil convencê-lo da inutilidade de compor uma obra sinfónica sobre a epopeia africana dos portugueses do século a que pertencia, o XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oitenta anos depois, a questão de pertencer ao lado certo ou ao lado errado da História ainda se coloca com alguma veemência. Com o tempo, habituei-me a pertencer ao lado minoritário, aquele que foi condenado à derrota desde a partida do Senhor Dom Miguel para Génova. A minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família, acha que já é tempo de fazer as pazes com o país. Eu tento responder que a conciliação entre a Pátria e este grupo de minhotos que apreciam genealogia e botânica já foi preparada e executada há bastante tempo. Pessoalmente, dou o assunto como encerrado. Os portugueses de hoje ignoram a História, acreditam na existência de um paraíso particular cheio de auto-estradas e telemóveis, e desconfiam de toda e qualquer espécie de pessimismo. Com isto não conquistaram a felicidade, mas endividaram-se com aplicação e método e, em geral, passam com dificuldade pelas crises que não compreendem. O velho Doutor Homem, meu pai, assegurava que os portugueses são capazes de passar uma vida inteira a viver a vida que lhes não pertence, só pelo receio de encararem a sua imagem ao espelho. Pode ser; há um pouco de misantropia na sua pregação, mas o essencial é isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 6 Novembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8681650493221398873?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8681650493221398873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8681650493221398873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/11/revisao-da-historia-e-um-pouco-de.html' title='A revisão da história e um pouco de misantropia'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-906957513777342990</id><published>2011-10-30T11:18:00.001-01:00</published><updated>2011-10-30T11:19:25.105-01:00</updated><title type='text'>Da memória de uma biblioteca antiga</title><content type='html'>O meu contacto com a filosofia foi breve. Dos mestres do Direito passei rapidamente para a banca do praticante, seguindo o trilho do velho Doutor Homem, meu pai, em cujo escritório gastei a minha idade adulta e onde aprendi quase tudo o que pareceu útil para a profissão e para liquidar as minhas contas pessoais. O escritório era austero e simples, silencioso, repleto de livros – na maior parte inúteis para a advocacia e bons para as minhas memórias pessoais. Não havia poesia (o velho Doutor Homem, meu pai, reservava o género para a sua estante predilecta, onde acumulava clássicos ingleses, ou para o limbo de Ponte de Lima, onde reuniu boa parte dos seus autores preferidos para todas as estações, mas sobretudo para o Verão). Mas havia História e ensaio em lombadas discretas, usadas, manuseadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus gostos de juventude foram os meus gostos de toda a vida – história, curiosidades regionais (julguei-me, em tempos, um geógrafo amador sem saber que não passava de um coleccionador arrogante), botânica, romances que perpetuavam a minha incapacidade de lidar com os sentimentos mais profundos. A filosofia limitou-se a uma passagem breve por autores morais e desinteressantes; havia pouca relação entre a sua complexidade e o gosto pelas coisas imediatas, como a contemplação da praia de Moledo, o trato dos hibiscos e das camélias (que tanto agradavam a Dona Ester, minha mãe), a conservação da memória da família, uma velharia do Antigo Regime que sobreviveu com saúde graças ao clima do Minho e à sua capacidade de manter um certo egoísmo sem arrependimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descubro hoje essa parte da biblioteca dos anos dourados da juventude. A minha sobrinha supõe – e com razão – que não existe, propriamente, biblioteca de juventude, mas apenas recordações discretas de livros que, com o tempo, julgamos ter lido. Com os anos, julgamos que esses livros contribuíram para aquilo que chamamos “a nossa formação”. Mas não é verdade; o espírito da “formação” só aparece mais tarde, discreto como uma neblina que paira sobre os cumes da idade – na juventude, as leituras têm finalidades diversas, e a menor delas é contribuir seja para o que for. Os livros substituíram aventuras espantosas da minha adolescência (uma coisa que a família garante, ainda hoje, que eu não tive, o que agradeço), mas não lhe acrescentaram senão a predisposição para uma idade adulta e sóbria. Enfim, cumpriram a sua função: ajudaram a envelhecer com discrição e tranquilidade. Não há bem maior, acho eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 30 Outubro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-906957513777342990?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/906957513777342990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/906957513777342990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/10/da-memoria-de-uma-biblioteca-antiga.html' title='Da memória de uma biblioteca antiga'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4431491322969543386</id><published>2011-10-23T16:13:00.001-01:00</published><updated>2011-10-23T16:14:13.910-01:00</updated><title type='text'>As doenças, um luxo da meia idade</title><content type='html'>A vida tem coisas simpáticas e uma delas não foi a descoberta de que, aos quarenta anos, eu era diabético. Nessa altura, os motoristas de táxi usavam farda com boné e, a maioria deles, gravata – foi um deles que me trouxe do consultório médico onde a família, periodicamente, se queixava amargamente dos males do corpo. O consultório era na Baixa do Porto e o táxi era igualmente familiar; o sr. Gomes passava por ser uma instituição que prestava o serviço de táxi para toda a casa, e por marcação inapelável em qualquer estação do ano. No Natal, o velho Doutor Homem, meu pai, gratificava simbolicamente essa dedicação que valia a qualquer membro da família ou funcionário do escritório ser transportado no velho Plymouth (geralmente até S. Bento para tomar o comboio, ou para o serviço regular entre casa e o escritório, que o velho causídico apreciava como um luxo de lorde, enquanto lia o jornal): o sr. Gomes fazia parte da história desta família portuense e não lhe faltava o Vinho do Porto no fim de ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir dos quarenta anos, o desfile de doenças e restantes males da idade era uma coisa vulgar e a que se não dava grande importância. A eternidade nunca preocupou os Homem, que encontraram o mundo já organizado e com um lugar reservado entre a velha burguesia da cidade. Esse privilégio teve o seu preço: uma vida moderadamente anónima, a indiferença diante dos atropelos da política (parte da família continuava a chamar Rua do Repouso à vintista Rua do Heroísmo, por muito respeito que lhes merecesse o senhor Conde de Campo Bello), leituras amenas e pouco populares, o gosto pela província mais do que pelo pobre cosmopolitismo da época e um certo desmazelo na forma como aceitava o destino, permitindo-se, aqui e ali, viver em grande. Crê-se que esse “estilo” (era também assim que a Tia Benedita, protegida pelos granitos e arvoredos de Ponte de Lima, designava os escândalos da família) nos permitiu sobreviver em paz, venerando os retratos dos antepassados e sendo ignorados pelos contemporâneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De entre as manias dos Homem nunca constou a hipocondria. As doenças faziam parte desse “estilo”. À excepção da Tia Benedita e de Dona Ester, minha mãe (para quem a farmácia mais adequada se compunha de iodo, areia das praias do Minho, água fria e bronzeado pelo Verão fora), tínhamos um certo afecto pelas doenças triviais: problemas nos rins, um pouco de hipertensão, gota ou fígado. Era o luxo da meia idade. Mas não atrapalhavam – longe disso – o destino a cumprir nem a finalidade de uma vida inteira. Até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 23 Outubro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4431491322969543386?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4431491322969543386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4431491322969543386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/10/as-doencas-um-luxo-da-meia-idade.html' title='As doenças, um luxo da meia idade'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7796614367318097123</id><published>2011-10-16T16:11:00.000-01:00</published><updated>2011-10-23T16:12:57.284-01:00</updated><title type='text'>Acerca da música e da verdadeira melodia</title><content type='html'>Havia, na família, uma aversão mitigada por Chopin. Tirando o Tio Henrique, melómano de Arcos de Valdevez (passou parte da sua vida a congeminar uma obra sinfónica sobre os sertões africanos com um exagero de acordes melódicos de oboé), o velho Doutor Homem, meu pai – que a tudo sacrificava os seus discos de Anna Moffo (que ele jurou ter visto em França na pele da Zerlina de ‘Don Giovanni’) com a sua melancolia outonal de ‘Lucia di Lammermoor’ ou de ‘O Elixir do Amor’ – e o Tio Alberto que disfarçava o seu desinteresse por ópera com duas ou três descrições dos grandes teatros da Europa, a família achava a música, em geral, um passatempo interessante ou, pelo menos, um ruído de fundo agradável e mais aprazível do que um vago chilreio nas hortas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chopin passava por ser, em geral, um tanto romântico demais, um nome que se poderia citar sempre que havia necessidade de dizer qualquer coisa sobre música, mesmo que não viesse a propósito. Era uma grande injustiça. Chopin já sofrera o bastante pela sua ligação com George Sand, e não precisava desta desfeita familiar. As suas polcas e mazurcas eram abafadas pela veia melodiosa dos nocturnos e dos prelúdios, coisa que não cabia no feitio de uma família impaciente e dada a ironias. Fui criado nesse ambiente de desprezo pela música que ambientava grandes paisagens melancólicas, soturnas, crepusculares, tristes ou apenas ‘melosas’, uma palavra que Dona Ester, minha mãe, usava para comentar certas companhias femininas dos meus irmãos. Por oposição, prendi-me a Liszt, que não era romântico nem soturno – apenas profundo, grave e metafísico – e ao barroco. A ligação ao barroco só pôde completar-se depois de o Dr. Barreto Nunes, o meu bibliotecário de Braga, ter reconstruído parte do que seria o gosto pelo contraponto em poesia e na vida real. Na verdade, a geometria do barroco, instável e falsa como o ouro de Minas Gerais, interessava-me como uma espécie de contradança, com as suas evoluções redondas, o seu ondear, e os seus mitos fundadores: a fragilidade das coisas, a necessidade de mascarar a tristeza, a exigência de uma alegria cheia de contenções. Liszt era o contraponto possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus sobrinhos, que desconhecem esta discussão, também não andam longe disto. Pedro, o arquitecto, ouve no carro uma coisa vaga e barulhenta a que dá o nome de rock. A sua namorada holandesa persegue-lhe o gosto, mas ele avisa que os melhores músicos de rock, os mais barulhentos, são os mais aptos para construírem as melhores melodias e as melhores baladas. Desconheço o assunto, mas acho-lhe uma certa lógica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 16 Outubro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7796614367318097123?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7796614367318097123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7796614367318097123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/10/acerca-da-musica-e-da-verdadeira.html' title='Acerca da música e da verdadeira melodia'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6031375027007792813</id><published>2011-10-09T00:10:00.002-01:00</published><updated>2011-10-09T00:10:00.559-01:00</updated><title type='text'>As recordações de um velho panamá</title><content type='html'>Conforme ensinavam os antigos, a meteorologia é uma ciência mais incerta do que o tempo que faz ao fim de semana. A minha sobrinha Maria Luísa pensa – e diz – que os Homem têm um ditado para tudo, o que não é rigorosamente verdade; há coisas que nos escapam. A meia-estação, conforme já referi ao leitor paciente e abnegado, é uma delas: trata-se daquele período que constitui, só por si, uma afronta ao guarda-roupa dos Homem de todas as gerações. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava-se a si mesmo, nos dias em que aquela serenidade das montanhas descia até ao pátio do casarão de Ponte de Lima, um dândi. Isso devia-se ao seu gosto, não tão exagerado como às vezes pareço fazer crer, pelos velhos alfaiates do Porto, seres pacientes que, na geometria de um corte de fazenda, incluíam exigências quase infames que o velho causídico imaginava próprias de Saville Row.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única coisa que me resta desse tempo é um velho panamá brasileiro, creme, tingido pelo tempo e preservado ao longo dos anos como uma recordação que os anos não escoaram totalmente. No último domingo, parte da família incluiu-me na sua peregrinação periódica ao Ancoradouro, um restaurante vizinho onde levamos visitas prezadas e amigos que não queremos desiludir quando Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, ou está de férias ou se sente ultrapassada pelos acontecimentos. Levei, portanto, o meu panamá – uma homenagem ao sol que devia ser de Outono e era, afinal, um prolongamento do Verão minhoto, discreto, suave e melancólico. Maria Luísa teceu várias considerações sobre o panamá (insisto que não se trata de um chapéu) e sugeriu perversidades tropicais; não houve tal. O meu panamá brasileiro é apenas uma recordação de velho – conservo-o há mais de cinquenta anos entre os bens que achei que valia a pena preservar. Depois do almoço, como sempre generoso, encaminhámo-nos para as mesas da esplanada – a fim de continuar a conversa, suculenta, sobre isto e aquilo. A Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, que mora umas ruas acima, apareceu para o café e pediu a sua lista de recordações do panamá, acicatada por Maria Luísa. Nessa noite, íamos à ópera, ao Porto, ver ‘Sansão e Dalila’ (no meu caso, apenas o segundo acto), e por isso uma estranha loquacidade tomou conta do lugar. Falei de tudo: da loja onde o comprei, há mais de cinquenta anos, do honesto chapeleiro que mo recomendou com a garantia (na altura inútil) de longevidade, e até de um passeio até Santa Tecla. O essencial, claro, guardo para a próxima semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 9 Outubro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6031375027007792813?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6031375027007792813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6031375027007792813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/10/as-recordacoes-de-um-velho-panam.html' title='As recordações de um velho panamá'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5592225050030062742</id><published>2011-10-02T15:34:00.001-01:00</published><updated>2011-10-08T15:35:26.629-01:00</updated><title type='text'>Do pobre futebol às graças do tempo</title><content type='html'>O meu sobrinho Pedro anda preocupado porque – diz ele – o seu clube de futebol “está com fraco rendimento”. O assunto não me comove extraordinariamente mas mantenho-me atento e finjo uma preocupação quase, quase solidária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, considerava o futebol um desporto muito digno desde que fosse disputado entre clubes ingleses, que ele julgava (na sua ingenuidade tocante) um alfobre de fidalgos do relvado, ou, em alternativa, entre equipas espanholas. Em vão, alguns de nós tentaram demonstrar que a natureza do futebol se confundiria com a das multidões, em geral, e que as excepções não faziam mais do que confirmar algumas das regras universalmente aceites por este grupo de quase misantropos reunidos sob o mesmo nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preocupação do meu sobrinho pareceu-me, no entanto, honesta e, pior, sincera, conquanto fosse recebida com aquela indiferença natural entre os bárbaros que se dedicam a ser indiferentes, com a excepção, salvo erro, daquela vaga emoção de 1966 em que Portugal se classificou num lugar provavelmente superior ao normal e que agora não recordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa, sensata (uma qualidade que evito lembrar-lhe com medo de ofendê-la), recomendou-lhe que tivesse calma, que isso passaria, tal como quase todas as paixões acabam por passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante os anos da minha juventude – um período vago e pouco sentimental que foi da puberdade até ao epílogo da frequência da cadeira de Direito Corporativo – as paixões foram uma espécie de obrigação contratual, de qualquer modo muito mais simples do que a leitura dos ‘Estudos sobre a História dos Regimes Matrimoniais’, do severíssimo professor Paulo Merêa, de que recordávamos o interesse pelas coisas visigóticas, pouco populares mesmo naqueles tempos. Havia, entre mim e as jovens que ainda recordo dessa época, sobretudo a obrigação de não as pisar descuidadamente nos salões de baile e de evitarmos discutir futebol. Era tudo. O resto, eram regras de civilidade relativamente banais (por exemplo, usar gravata, ter algum sentido de humor e não mencionar o interesse nem pela Comissão de Reforma do Imposto de Capitais nem pelos trinados da guitarra do dr. António Carvalhal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa, que tem uma vocação madura para historiadora, pretende que o interesse desmedido pelo futebol é uma espécie de inclinação pelas coisas que combinam com a vacuidade dos tempos. Eu não concordo e uma das razões é que nunca consegui entender verdadeiramente as razões que levam muitas pessoas a considerar o futebol uma arte, semelhante aos rabiscos da pintura moderna. Aliás, eu nem sei qual é o clube do meu sobrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 2 Outubro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5592225050030062742?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5592225050030062742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5592225050030062742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/10/do-pobre-futebol-as-gracas-do-tempo.html' title='Do pobre futebol às graças do tempo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5672940584088948705</id><published>2011-09-25T15:14:00.001-01:00</published><updated>2011-09-25T15:15:30.351-01:00</updated><title type='text'>Um Domingo de Sol e água de Melgaço</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa tem, com o meu médico de Viana, uma relação conflituosa: por um lado, acha que a minha longevidade lhe deve bastante – dobrar os noventa é uma meta até agora só ao alcance de alguns, embora a minha família tenha demonstrado, ao longo dos séculos, uma tendência permanente para desanimar os seus desafectos, prolongando a existência até ao inadmissível. Um tio que dividiu a sua existência entre os Arcos, Valença e Lisboa é mesmo uma lenda desconfortável, finando-se aos 105 anos na sua quinta ligeiramente decadente, ouvindo o chilrear dos pássaros e o ruído dos freixos junto a um ribeiro que corria intramuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, acha-o um libertino e ligeiramente gordo. A libertinagem manifesta-se sobretudo pelo estômago e pelo gosto despropositado por nobiliários arcaicos que fixam os desaires e os pecadilhos das avós minhotas a norte de Leça da Apúlia e até ao derradeiro grão de poeira que nos separa de Tuy. Afastado este pormenor, almoçámos todos em Caminha no domingo passado, saboreando no restaurante Primavera um cabrito que Maria Luísa classificou como uma ameaça ao meu regime alimentar e que duplicou, largamente, a felicidade dos comensais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do almoço, o repouso merecido: reunidos em grupo palrador na esplanada do Café Central, a tarde providenciou-nos a sua saborosa Água de Melgaço. Tenho com a Água de Melgaço uma relação enamorada e fiel desde há décadas – amarga e luminosa, ela lembra o tempo em que o Minho era uma nacionalidade e uma referência. A Água de Melgaço fazia parte dessa identidade, à semelhança de uma cédula pessoal ou de uma declaração de contribuinte para a repartição de Finanças. Vinda em caixas madeira para a casa de Ponte de Lima ou, mais tarde, para este eremitério de Moledo, é hoje uma espécie de recurso da memória que vamos periodicamente buscar ao Café Central e à sombra dos seus guarda-sóis. Esta semana comentávamos uns grafitos que foram misteriosamente deixados na fachada do edifício da Câmara. Entre um gole de Água de Melgaço e o pedido de um novo café, Maria Luísa, a esquerdista da família, concedeu que se tratava de um acto de barbárie cometido por estranhos (murmurava-se que duas estrangeiras e ainda por cima holandesas). Depois, uma nuvem passou arrastando a sua beleza disforme sobre a foz do Minho e as colinas de Santa Tecla. O meu médico de Viana quis ainda mostrar-nos a estrada florestal de Venade. Maria Luísa levou algumas garrafas de Água de Melgaço que bebemos entre os freixos e um abeto deslocado da paisagem. Eis um domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 24 Setembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5672940584088948705?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5672940584088948705'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5672940584088948705'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/09/um-domingo-de-sol-e-agua-de-melgaco.html' title='Um Domingo de Sol e água de Melgaço'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8448932760237793777</id><published>2011-09-18T15:22:00.001-01:00</published><updated>2011-09-25T15:24:06.888-01:00</updated><title type='text'>Outono: meditação sobre o que há-de vir</title><content type='html'>Todos os grandes autores, chegado o Outono, se ocuparam com meditações sobre a morte. Falo do Outono das suas vidas – e da contemplação do que há-de vir. Os Homem, um caso singular de arrogância peninsular, pouco se ocuparam do assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigados a sobreviver num anonimato que procuraram pelos seus próprios meios, como uma espécie de salvaguarda contra a democracia e a idade das multidões, os seus tempos de meditação eram ocupados com coisas sobretudo práticas; a espiritualidade literária ou filosófica dos meus antepassados era quase nenhuma, se exceptuarmos alguns arroubos literários do meu avô paterno (administrador de quintas do Douro, onde se entretinha a dialogar com ingleses razoavelmente iletrados ou, em alternativa, com o poeta Guerra Junqueiro retirado na sua Quinta da Batoca, em Barca d’Alva – convenhamos que a escolha não era muito requintada), vícios de bibliófilo do velho Doutor Homem, meu pai, e a dedicação romântica a tudo o que era inútil, por parte do meu Tio Alberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tia Benedita, matriarca da família, achava o assunto próprio de quem não tinha emprego ou de quem, tendo profissão, não se lhe dedicava com concentração. No seu casarão de Ponte de Lima bastavam-lhe as jornadas marianas de Maio e as festividades de Verão, além da visita anual a Braga – para apreciar os festejos, muito episcopais, da Semana Santa – para preencher a sua necessidade de religião; o resto era dedicado a sobreviver, aproveitando a lição de uma família de velhos miguelistas obrigados à rendição e à modéstia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambas as coisas ajudaram muito a que o clã vivesse numa sensatez várias vezes confundida com egoísmo. Afastados da política porque o Príncipe fora proscrito, arredados da História porque ela se reescrevera com as cores da glória dos vencedores, os Homem dedicaram-se a viver com parcimónia e discrição. Foi, é bom notar, a sua salvação: há exemplos de antepassados e contemporâneos que teriam sido ou filósofos impenitentes (o Tio Henrique, que tinha a paixão da música), ou aventureiros das classes possidentes, conduzindo Alfa Romeos e seduzindo mordomas da Senhora da Agonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o Tio Alberto reuniu as qualidades de ambos; apaixonou-se por uma discreta e bela princesa do Cáspio, a quem sobreviveu alguns anos, e a quem dedicou o seu coração celibatário. Mas, chegado o Outono – o da sua vida – limitou-se a continuar a viver como se não houvesse eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto, não havia, nem há. A eternidade é o que leva os homens a perderem-se com mais frequência. Há só o que há-de vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manha - 18 Setembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8448932760237793777?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8448932760237793777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8448932760237793777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/09/outono-meditacao-sobre-o-que-ha-de-vir.html' title='Outono: meditação sobre o que há-de vir'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3087259114373598192</id><published>2011-09-11T02:53:00.001-01:00</published><updated>2011-09-11T02:54:36.968-01:00</updated><title type='text'>Coisas vagas sobre o botânico impopular</title><content type='html'>O meu Tio Alberto achava – sem adiantar qualquer razão – que a ocupação de botânico era uma das mais nobres no leque das chamadas “profissões relativamente inúteis”. Ele passava grande parte do ano rodeado de árvores na sua casa de São Pedro de Arcos, transformada em cozinha (era um gastrónomo conservador e um cozinheiro inventivo), biblioteca, escritório de reclusão para o jurisconsulto, historiador amável e solitário imune à tentação do matrimónio. A sua paixão por árvores era prática: gostava de florestas (que acordavam nele teorias sobre a magia da terra), apreciava-lhes a sombra no Verão, aproveitava-as como cenário para passeios matinais ou crepusculares numa época em que as pessoas normais não vestiam roupas de ginástica para respirarem a ritmo acelerado – mas o seu conhecimento das espécies era diminuto; era acusado de confundir carvalhos (que nessa altura povoavam as colinas que levavam aos cumes das serras) com glicínias e, pior, de achar uma beleza superior nas araucárias de Viana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por ele que me tornei um ignorante em matéria botânica, coisa que me levou, nos meus períodos de maior ócio, a tentar escrever, precisamente, um resumo de botânica minhota. Um resto de sensatez, colhida de hábitos antigos e hoje raros na minha família, fez com que o projecto ficasse a meio ou a três quartos. Só uma classe de incompreensíveis fanáticos se dedica a apreciar árvores. Poucas pessoas se dedicaram a construir, planear, cuidar ou, apenas, a gozar a beleza de um jardim. O Tio Alberto, para escapar a observações sobre a sua incúria como hortelão, argumentava que o seu “jardim” era um repositório de causalidades que foram nascendo em redor da casa, contaminando os caminhos e ladeando o velhíssimo lago que ornamentava o seu pátio, amplamente dominado por uma mesa de refeições estivais de que ele gostava de relembrar que serviu para servir uma refeição a D. Ramón Otero Pedrayo (recordo que sardinhas fritas e ovos com chouriço foram o prato principal, juntamente com migas de acelga).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que o Verão palmilha a estrada de regresso pela província fora, despedindo-se aqui e ali, volteando entre manhãs mais nebulosas e noites de mais ventania, a vida do botânico renasce com ironia. Ele anseia por terra preparada para o frio e para a germinação; quer limpar os resíduos de uma beleza rara que se perdeu e foi estiolando. Enquanto a generalidade das multidões chora o calor de Agosto, o botânico – malvado – sorri à ideia de um Outono moderado mas com vapores humedecendo a terra agradecida. É uma ocupação impopular. Nobre e, por isso, impopular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 11 Setembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3087259114373598192?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3087259114373598192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3087259114373598192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/09/coisas-vagas-sobre-o-botanico-impopular.html' title='Coisas vagas sobre o botânico impopular'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-235328652852625664</id><published>2011-09-04T15:39:00.001-01:00</published><updated>2011-09-04T15:40:45.441-01:00</updated><title type='text'>Os difíceis anos que chegam</title><content type='html'>Os ventos da história não vão e voltam – como os das altas pressões que a família se habituou a estudar nas cartas que o Dr. Anthímio de Azevedo mostrava, orgulhoso, na televisão. Os ventos da história circulam, as pessoas amadurecem – como certos frutos de alguma utilidade – e morrem, as casas envelhecem, as árvores reproduzem-se se tiverem sorte. Existe, no universo, uma certa ordem amarga e banal que se repete para descontentamento dos optimistas de todas as condições; infelizmente para eles, os momentos de glória não são perpétuos e há contas a ajustar com a realidade. Os meus sobrinhos não gostam que se lhes lembre, no pico do Verão, a existência do Outono; até lá, limitam-se a vaguear pela praia como adolescentes perpétuos. Vivem como recolectores, saboreando a leveza das coisas, e eu compreendo a atracção pelo efémero, pela simplicidade da areia de Moledo, pelo mar do Minho, pela ideia das férias que representam o que de melhor tem o Verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante anos e anos, este velho minhoto, contemporâneo do Titanic e quase da primeira utilização da penicilina (tal como o óleo de fígado de bacalhau ou o mercurocromo, as novas gerações desconhecem a sua existência) lembrou à família – reunida em conciliábulos de fim de semana, observando como um domingo se sucedia a outros – que os anos difíceis chegariam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa pensou, durante algum tempo, que se tratava de uma tentação reaccionária de um tio que o Minho conservou para lá de todas as probabilidades; o meu sermão da montanha seria uma espécie de anátema contra a democratização da sociedade, a distribuição da riqueza e a ascensão das classes trabalhadoras. Eu já estava velho para isso. O velho Doutor Homem, meu pai, notara a hipocrisia do lente de Coimbra, o dr. Salazar, que tivera o desplante de declarar não poder permitir-se que o operariado se transformasse numa classe privilegiada. Eu já estava velho para isso. Limitava-me, em arengas quase murmuradas diante de dos meus irmãos, ocupados com leis e finanças, a lembrar que os ventos da história circulam e que os anos difíceis chegariam porque o capital é mortífero e cruel. No fundo, lembraria a Tia Benedita, que gostava de coleccionar lugares-comuns, foram os validos do irmão do Senhor Dom Miguel que andaram pelas tabernas de Londres arrebanhando mercenários e custeando a empresa com os empréstimos dos agiotas. Custou a pagar essa dívida. Os mercenários do nosso tempo são auto-estradas caras, obras inúteis e promessas de progresso. Os difíceis anos que chegam são a paga pela crendice dos meus compatriotas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 4 Setembro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-235328652852625664?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/235328652852625664'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/235328652852625664'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/09/os-dificeis-anos-que-chegam.html' title='Os difíceis anos que chegam'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2798684994616087905</id><published>2011-08-28T11:40:00.002-01:00</published><updated>2011-08-28T11:43:27.126-01:00</updated><title type='text'>Notas de toponímia no litoral minhoto</title><content type='html'>Havia uma dúvida na família sempre que a Tia Benedita se referia a dois elementos toponímicos de Vila Praia de Âncora, onde amiúde se deslocava para visitar a Tia Henriqueta – a melhor das cozinheiras da família. Eram eles a Praça da República e a Rua 5 de Outubro (sem falar das ruas dedicadas a Cândido dos Reis e a Miguel Bombarda, outros símbolos republicanos). Da casa da Tia Henriqueta ela gostava de apreciar a cúpula e os granitos da capela da Senhora da Bonança que o tempo transformou mas que, para a matriarca dos Homem, nunca deixou de estar centrada no Largo das Necessidades (ou da Lagarteira, ou da Bonança).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi esse o motivo por que a família, que não gostava de polémicas toponímicas, preferiu a partir dos anos trinta veranear em Moledo e em Caminha, entre moinhos e sargaço. A preferência trouxe-me, cinquenta anos depois, aos pinhais de Moledo, a praia onde Dona Ester, minha mãe, decidiu que os seus filhos (os mais novos) deviam aprender a nadar sob a supervisão e a generosidade do Senhor Azevedo, um dos mais dignos representantes da classe dos velhos banheiros do Minho, para quem nunca se colocou o problema do frio das ondas. Os meus sobrinhos-netos, filhos da minha sobrinha Maria Luísa, apenas se queixam das neblinas e não dão conta da temperatura da água, que eles consideram normais; a mãe, deitada ao sol, na areia, onde creio que lê o romance de um autor americano cujo nome não consigo fixar, ignora este confronto entre a história toponímica e a história balnear do litoral que a família frequenta desde há um século. Desconheço se alguma vez, sentada a uma das mesas do bar da praia, o Pra Lá Caminha, se preocupou com essa genealogia brava e melancólica, mas creio que não. O sol é uma dádiva do Verão tal como a chuva miúda e permanente nos reconforta durante o resto do ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lendo o jornal, aos sábados de esplanada, ou esperando que a manhã de domingo se prolongue em Outonos letais e poéticos, Maria Luísa preocupa-se com a herança da família. Ela gostaria que tivéssemos sido diferentes ou, talvez, que tivéssemos pertencido a uma tradição “mais democrática”, partilhado a alegria das revoluções que os arquivos dão como vencedores. Coube-lhe receber-nos assim: fotografias de avós bem vestidos, uma cópia perfeita do retrato do Senhor Dom Miguel no casarão de Ponte de Lima, uma biblioteca que se amiúde se confunde com um depósito de papéis irrisórios, Dona Elaine que insiste em reforçar os assados de domingo, esperando sobrinhos devoradores ou as minhas irmãs que agitam a bandeira da dieta e do emagrecimento compulsivo. O mundo não é perfeito, mas quase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 28 Agosto 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2798684994616087905?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2798684994616087905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2798684994616087905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/08/notas-de-toponimia-no-litoral-minhoto.html' title='Notas de toponímia no litoral minhoto'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6410795865596024274</id><published>2011-08-21T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-08-21T00:10:00.341-01:00</updated><title type='text'>A civilização dos tempos livres</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, julgava – na sua estultícia – que as férias eram um período de descanso. Os anos e os costumes desmentiram-no sucessivamente sempre que tiveram oportunidade. Primeiro, com a asserção burguesa de que não havia tempo inútil na nossa vida e que, portanto, não só era preciso transformar em proventos tudo o que nos passasse pela mão – como, além disso, o tempo se encarregou de encontrar, para a expressão “tempo livre”, um prefixo abominável que passou a dominar a “ciência das férias”: “ocupação”. Ora, a “ocupação dos tempos livres” passou a ser, essa sim, uma ciência incontornável e omnipresente, cujos técnicos estão colocados em todos os níveis da sociedade e em todas as escalas da vida humana, partindo – todos – do princípio de que, se há tempo livre, ele deve ser ocupado com determinação. Além da “ocupação dos tempos livres” passou a existir, para os domínios da puberdade e da puericultura, a expressão, igualmente deplorável, de “aproveitamento dos tempos livres”. Desses propósitos resultou um mundo comandado pela indústria do lazer com o único propósito explícito de terminar quer com os tempos livres, quer com a solidão criadora que está na base do lazer, propriamente dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tia Benedita – há quem atribua o facto “aos genes” – sobreviveu até aos noventa anos, aproximadamente. Nunca fez desporto nem praticou qualquer tipo de regime alimentar persecutório, tirando, nos seus períodos de maior devoção e ultramontanismo, aquele saudável jejum das sextas-feiras. Mesmo assim, a substituição da galinha de espeto pelo peixe do mar do Minho nunca foi uma imposição – ela seguia o preceito como uma consequência natural da sua vida dedicada à tradição e à defesa do século XIX. E, valha a verdade, nunca “aproveitou os tempos livres”. Igual propósito tiveram os meus antepassados que desconheciam a ciência do tempo livre, precisamente porque tinham sido educados na presunção de que a preguiça, praticada com parcimónia e delicadeza, era um dispositivo da civilização – uma civilização que nos redimia, em ocasiões propícias e merecidas, pela arte de contemplar, de apreciar o silêncio e de gozar os bons momentos. Nenhum de nós foi atleta, trapezista ou astrólogo. Houve tocadores de oboé (como o Tio Henrique, uma preciosidade dos Arcos) que dedicaram a sua vida a imaginar que compunham uma sinfonia sobre as savanas de África. Mas nenhum deles ocupou os seus tempos livres. Pelo contrário, delapidaram essa parte da sua vida conforme entenderam. E creio bem que foram felizes e razoavelmente civilizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 21 Agosto 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6410795865596024274?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6410795865596024274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6410795865596024274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/08/civilizacao-dos-tempos-livres.html' title='A civilização dos tempos livres'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4391903515180364499</id><published>2011-08-14T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-08-14T00:10:00.134-01:00</updated><title type='text'>Os portugueses gostam pouco de Portugal</title><content type='html'>Os portugueses, murmurava o velho Doutor Homem, meu pai, “não gostam de Portugal”. O causídico era um renitente apóstolo que bramava contra os seus concidadãos, por achar que entre eles e a velha Pátria havia uma enervante soma de mal-entendidos. E, no entanto, era raro encontrar, nesses longínquos anos cinquenta, uma alma que se dispusesse a dizer do país aquilo que Eça de Queirós coleccionara setenta anos antes, ao longo dos seus romances e em páginas que ainda hoje são como aguilhões para o orgulho do constitucionalismo; na época, com o dr. Salazar a passar férias na Urgeiriça, entre engenheiros da minas e clérigos de primeira linha, Portugal era um lugar recatado e ligeiramente sonâmbulo de onde apenas se distinguia a figura áspera ou rezinga da Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, que se recolhia ao casarão de Ponte de Lima para proteger-se do calor, do ruído das romarias e do excesso de nudez que vislumbrava onde não havia senão mangas arregaçadas. A Tia Benedita era, por si só, uma figura de romance; contrastava com a mediania complacente – era, verdadeiramente, a grande reaccionária da família, avessa à beatitude mediana da época e à pacífica mortificação daqueles tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, os portugueses gostavam do seu país; simplesmente, como descortinava o velho Doutor Homem, meu pai, “o seu país” não era bem “o seu país”, mas uma aldeia beirã e iliberal, vestida em Santa Comba e protegida da luz do sol por um chapéu de feltro negro. Os Homem, pela cartilha de Dona Ester, minha mãe, achavam que o sol, a praia, o iodo e as viagens para lá de Espanha, eram um antídoto contra a pequenez e os costumes – e achavam que as grandes paisagens, as grandes personagens (do senhor Dom Miguel ao Remexido, de Dona Carlota Joaquina a João Franco, para não mencionar uma galeria de autores rebeldes e afastados das Selectas) e os grandes desígnios, não faziam parte dos gostos dos portugueses. O Tio Alberto rasgava as sombras verdejantes de São Pedro de Arcos ao volante de um Super Sport Villa d’Este 2500, o Alfa Romeo da época, que ele julgava o ideal para transportar Gina Lollobrigida ou Rita Hayworth (conservou-o durante dez anos, até um dia aparecer nas ruas de Caminha com um Alfa Spider descapotável vermelho). Ele foi o português heróico da minha juventude, a excepção naquele mundo de receios e cautelas excessivas. A família, sim, gostava de Portugal, apreciava a ventania das praias, o halo de loucura que tomava conta dos melhores de nós, a paisagem profunda e sombria das nossas serrras. Os nossos heróis eram pouco bem comportados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 14 Agosto 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4391903515180364499?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4391903515180364499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4391903515180364499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/08/os-portugueses-gostam-pouco-de-portugal.html' title='Os portugueses gostam pouco de Portugal'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8974164998778193138</id><published>2011-08-07T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-08-07T00:10:01.184-01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O Verão interrompe esse ciclo de tranquilidade que só se vive hoje nos romances quase bucólicos de Mrs. Trollope ou, por cúmulo, nas recordações de um velho que se supõe letrado. Moledo transforma-se numa academia cujos pares, de livro na mão, visitam a praia em busca do iodo de outras eras. O iodo é o meu mito pessoal e recomendo-o como forma de abreviar conversas sobre o que fazer durante “as férias de Verão”; a menção ao iodo transporta consigo um enigma que poucos sabem decifrar, mas que a mim serve como argumento. Quando parte da família começou, no Verão, a rumar ao Algarve ou a outras paragens meridionais, abaixo do Equador ou na sua proximidade, eu insistia nas qualidades das praias do Minho. “E que qualidades são essas?” O iodo. Tudo se resumia ao iodo. A menção do iodo calava todas as dúvidas. Repousante, vivificante para os pulmões e doenças respiratórias, o reumatismo, os problemas de pele e os males de amor, o iodo era, para o Verão, o que as sulfamidas e o mercurocromo deviam ser para ferimentos em geral. Eu não mencionava (e continuo a abster-me de o fazer) a frescura das manhãs (a que os meus sobrinhos chamam, exageradamente, “o frio”) nem a neblina sobre Santa Tecla.&lt;br /&gt;O meu argumento foi válido por uma ou duas décadas, durante as quais atormentei o desejo de parte da família se libertar da obrigação de inaugurar e concluir a época balnear nos areais de Moledo. Com o tempo, o argumento perdeu força. Apenas a minha sobrinha Maria Luísa, contra todas as expectativas, continuou a marcar presença estival naquilo que, durante o resto do ano, é conhecido como o eremitério de Moledo. Intimamente, ela sabe que Moledo é o que resta de uma civilização que procurava alimentar com mitos a recusa dos tempos modernos. Os velhos, como eu, e os novos, entendem-se nessa recusa que, às vezes, se parece bastante com indiferença. Os meus sobrinhos, passada a idade em que apenas utilizavam o pequeno pinhal em cerimónias rituais para fumar haxixe, descobriram também as virtudes de Moledo. Moledo permanece, sitiada diante do mar, e enquanto não arderem as encostas de pinhais e de velhos carvalhos, lá nas alturas. Os sobrinhos vêm para apreciar uma raridade de museu – um tio que, para além de se fingir tolerante, os senta à mesa e não os entende totalmente. Só eles não acham estranha a minha palestra sobre as virtudes do iodo. É uma excentricidade que desculpam e aceitam. Quando perdemos uma excentricidade, perdemos aquilo que nos faz continuar vivos no meio das pessoas como nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 7 de Agosto 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8974164998778193138?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8974164998778193138'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8974164998778193138'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/08/o-verao-interrompe-esse-ciclo-de.html' title=''/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8652611320258743117</id><published>2011-07-31T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-07-31T00:10:00.887-01:00</updated><title type='text'>Da água de Melgaço à melancolia de Verão</title><content type='html'>A melancolia de Verão é uma coisa para velhos. O corpo é já uma espécie de desinência dispensável e pouco disponível, cansada da repetição ou do regresso das estações do ano; o Estio, esse sinónimo para eruditos desajustados à realidade, traz consigo o calor, a família em férias e um bando de adolescentes que povoa Moledo transformando o recato do povoado num acampamento de seres bronzeados que lêem os jornais, romances e as nuvens da meteorologia. O casario, outrora tranquilo e coberto pelo manto de nevoeiro matinal que protege a vegetação e o carácter discreto dos seus moradores, está agora cercado de visitantes. Uma vez por outra, a minha sobrinha Maria Luísa leva-me a Caminha, Cerveira ou a Vila Praia de Âncora para que o meu território não esteja tão limitado. Na semana passada descobrimos uma esplanada, em Caminha, onde se podia beber Água de Melgaço. O pormenor pode não ter importância, mas a mim comove-me; a Água de Melgaço é uma evocação do passado, com as suas garrafas fora de moda, o seu nome esquecido, a evocação de dietas de Verão para contrabalançar os desvarios de refeições que desmiolam o equilíbrio alimentar das famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia mencionar, ano a ano, a memória de todos os prazeres minúsculos que atentaram contra a sensatez da minha vida: os passeios de barco no rio Minho, imitando as garotices de Tom Sawyer e Huckleberry Fin – ou as escaladas à casa do Tio Alberto, o bibliófilo de São Pedro de Arcos, escondido do mundo como um astrónomo que recusa contar os seus segredos celestes. Ou um romance de Verão, perdido nos álbuns de fotografias que nunca foram reunidas com medo de compromissos ou apenas do futuro. Ou um passeio pela Galiza a fim de reconhecer as rotas de piratas refugiados em Finisterra, o rigor matemático da geografia de El Ferrol, as amêijoas de Villagarcia de Arousa, as ostras de Ribadeo (uma das glórias literárias do Tio Alberto), as livrarias de Santiago de Compostela com as suas fachadas de granito e os seus esconderijos de há um século. O Verão do meu Minho litoral tinha ainda as suas às romarias que despontavam no calendário como uma obrigação secular, passada de geração em geração como um testemunho de devoção fora de moda. Só o velho Doutor Homem, meu pai, permanecia como uma excepção: ele lia os jornais do costume, na sua varanda de Ponte de Lima. Nada o demovia da ideia de que o mundo corria para lá do Minho, o que era uma ilusão que ninguém compreendia. Quando o Verão anunciava o seu fim, com as primeiras vindimas, ele limitava-se a olhar as montanhas sem uma ponta de melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 31 Julho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8652611320258743117?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8652611320258743117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8652611320258743117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/07/da-agua-de-melgaco-melancolia-de-verao.html' title='Da água de Melgaço à melancolia de Verão'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-254110614535292424</id><published>2011-07-24T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-07-24T00:10:00.112-01:00</updated><title type='text'>Uma neblina acidental sob Santa Tecla</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, tinha uma relação ambivalente com a Sinfonia n.º 6 de Mahler e eu compreendo, a esta distância, que há circunstâncias para tudo e que devemos ser compreensivos. Essa ambivalência tinha a ver com a meteorologia; o causídico argumentava que os dias de neblina no litoral minhoto, retendo-o em casa até ao final da manhã, impedindo-o – a ele – de cumprir a caminhada diária entre os muros do arvoredo de Ponte de Lima e – a nós – de avançar sobre os areais de Moledo, eram uma boa desculpa para se sentar na varanda interior, diante do pátio, e pôr as leituras em dia. Queria ele referir-se aos jornais das últimas semanas, acumulados numa pilha que ameaçava desmoronar-se e mostrar que se podia sobreviver sem saber como o ia o mundo. Aproveitando esse deslize da meteorologia, escolhia a sua versão de Mahler que tinha a vantagem acrescida de, com toda a certeza, afugentar o resto da família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Verão de Ponte de Lima decorria neste equilíbrio meteorológico: ou os dias de canícula de Ponte de Lima, uma espécie de cenário italiano com os seus córregos de poeira levantada pelo vento, entre fileiras de choupos, ou o prolongamento das” neblinas matinais a norte do Cabo Carvoeiro”, uma expressão fixada em todos os léxicos desde que o Dr. Anthímio de Azevedo ganhou, com merecimento, estatuto de glória nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia, essa neblina é injustificadamente maltratada. Ela tinha uma função (para lá do gosto musical, discutível e travesso, do velho Dr. Homem, meu pai) muito precisa durante o Verão: servir de interlúdio. Os grupos de frequentadores dos areais de Moledo ou da foz do Minho não se abstinham de se fixar na praia; profissionais da “época balnear”, nada os detinha – compareciam no seu posto munidos de agasalhos apropriados, aguardando que as derradeiras manchas de nuvens se evaporassem dos cabeços de Santa Tecla para dar lugar a um sol ameno, retemperador e conciliado com o iodo do mais belo litoral português. Guardo ainda, entre os álbuns de velhas fotografias, retratos de banhistas de outros tempos, envergando camisolas ou ligeiros agasalhos, sentados sobre o areal das praias. A minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família, sugeriu uma vez que se tratava de pudor excessivo. Esclareci-a: não – tratava-se, antes, de uma nobre coragem diante dos Elementos. Nenhuma neblina nos afastaria da praia, uma vez decidido que era tempo de praia. O sol havia de chegar; aquele amuo era apenas uma neblina acidental sobre Santa Tecla.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 24 Julho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-254110614535292424?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/254110614535292424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/254110614535292424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/07/uma-neblina-acidental-sob-santa-tecla.html' title='Uma neblina acidental sob Santa Tecla'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2125578772850800372</id><published>2011-07-17T00:10:00.002-01:00</published><updated>2011-07-19T16:49:30.322-01:00</updated><title type='text'>Ainda a depressão e os estados de melancolia</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa declarou, à mesa de almoço, que a crónica do domingo passado era uma das provas da minha misantropia e, provavelmente, do meu cinismo – por ter manifestado algumas dúvidas sobre a existência de um fenómeno designado “depressão”. Argumentei que a depressão existe realmente mas que é nosso dever, como seres humanos, resistir-lhe com os meios naturais à nossa disposição, desde banhos de mar, arroz de pato, passeios pelas colinas da Serra d’Arga e algum egoísmo no limite da elegância. Esta lição, acrescentei, foi praticada por Dona Ester, minha mãe, com conveniente insistência, tendo produzido uma geração de seres humanos não especialmente bons mas apenas decentes e permeáveis ao bem e ao mal que até aqui conhecemos. Ciente de que a luta entre bem e mal não terminaria, Dona Ester, minha mãe, fez-nos ver que devíamos manter relações estáveis com um e com o outro, a fim de não sucumbirmos no campo de batalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, que era mais indiferente em relação ao modo como os seus filhos sobreviviam às hecatombes da alma, não deixava de perseguir essa prática, acrescentando-lhe o seu tom anti-romântico, que era mais de natureza literária (incomodava-o o niilismo lamechas dos poetas das províncias, da mesma forma que o indispunha o confessionalismo primário dos vates das nossas selectas) do que propriamente temperamental. Em casos extremos, e geralmente perto da hora da sesta durante os Verões tórridos de Ponte de Lima, encerrava os debates invocando a sua misantropia e um mal de gota que o impedia de acompanhar a história da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O tio”, dizia Maria Luísa, “ sabe bem que se finge de duro.” Não sabia. Habituado às minhas fragilidades, sempre tentei harmonizá-las com as minhas tentações. A Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, defendia que quem não tinha posses não devia alimentar tristezas. Assim ela decretava, no meio dos freixos e choupos do pátio de Ponte de Lima, a existência de uma luta de classes regulada pela disposição mental e psíquica dos combatentes. As classes possidentes – uma velharia que deixou há muito de existir nas colinas dos Arcos, de Guimarães e de Ponte da Barca – tinham mais queda para a tristeza e para a melancolia, resultado de más leituras e de muita educação liberal. Era um erro. A civilização ergue-se sobre os alicerces da melancolia; mas não mostra o seu rosto através do véu da “depressão” transformada em doença de incapazes mimados e com poucos hábitos de trabalho. Há um tempo para tudo, queria eu dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 17 Julho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2125578772850800372?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2125578772850800372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2125578772850800372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/07/ainda-depress.html' title='Ainda a depressão e os estados de melancolia'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-752310482504110830</id><published>2011-07-10T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-07-10T00:10:00.114-01:00</updated><title type='text'>Receituário banal para tempos de calor</title><content type='html'>Já em tempos expliquei ao leitor paciente e crédulo que, independentemente do lugar que Moledo ocupa no planisfério do clima, fui preparado para climas amenos e tépidos. O velho Doutor Homem, meu pai, que leu os clássicos da literatura russa sem intenções moralizadoras, achava que Raskolnikóv, o atormentado personagem de ‘Crime e Castigo’, era um produto do frio e dos temporais de neve que assolavam São Petersburgo, muito para lá da sua pobreza. A pobreza suscita compaixão, piedade e realizações sociais; o frio gera indisponibilidade para a vida. Este juízo, certamente flutuante, era o produto de muitos Verões passados no remanso miguelista e quase tropical de Ponte de Lima e de crepúsculos suaves nos areais do Minho litoral, que Dona Ester, minha mãe, achava que podiam, com vantagem, substituir os consultórios médicos onde crianças e adolescentes eram tratados às bronquites e à depressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A depressão não era ainda conhecida. Periodicamente, adolescentes eram acometidos de períodos de tristeza e melancolia (a acédia dos poetas mais cultos e que valia a pena ler) mas isso era desvalorizado e tratado, em muitos casos, como um problema de anorexia (ou do que viria a ser assim conhecido). Deu-se o caso de um primo afastado, de Lisboa, cujo pai, alto funcionário da administração do Estado, o enviou para as margens do Cávado com o fito de se tratar de uma grave melancolia. Ao fim de algumas semanas, o arroz de pato da Tia Henriqueta fez milagres, na companhia de outros medicamentos naturais. O primo, cujo nome agora me escapa, mas que uns anos depois casou com a filha de uma marquesa espanhola, muito redonda e avessa ao pó em cima dos móveis, engordou durante dois meses e regressou de comboio a Lisboa, onde o Cávado, a Serra de Arga, os freixos de Ponte de Lima e o mexilhão de Vila Praia d’Âncora foram declarados nomes sagrados e parte da farmacopeia da família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor sabe já que Dona Ester, minha mãe, não deixava estes assuntos subirem a conselho de família (geralmente ao jantar de sexta-feira) e tratava-os com indiferença. O velho Doutor Homem, meu pai, sublinhava que tudo se arranjava com maneiras à mesa, leituras anti-românticas e a aprendizagem de regras de brídege. As maneiras à mesa não eram assunto seu e não me recordo de ele ter alguma vez ajudado alguém a melhorar os resultados do brídege; mas em matéria de leituras anti-românticas era um sacerdote vigilante. Ele aconselhava poesia e sentimentalismo em doses – digamos – homeopáticas. Pouca e adequada. Foi assim que nos incompatibilizámos com o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 10 Julho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-752310482504110830?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/752310482504110830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/752310482504110830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/07/receituario-banal-para-tempos-de-calor.html' title='Receituário banal para tempos de calor'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5386390135019234902</id><published>2011-07-03T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-07-03T00:10:00.490-01:00</updated><title type='text'>O começo do Verão em pleno mar</title><content type='html'>O início da época balnear constitui, em Moledo, um ritual dos meados do século XX. Segundo a minha sobrinha Maria Luísa a data mais acertada seria mesmo o século XIX, coisa que atribuo – sem mágoa – à falta de referências sobre a história pátria e à ignorância (que vem desde Eça) acerca do tempo dos nossos bisavós. Maria Luísa fica, de resto, impressionada com a repetição de rituais; tanto fica comovida como siderada nos limites da irritação. Confrontada com a placidez geral, ela acha que “a sociedade” está apenas “desmobilizada”, coisa que eu não entendo; quanto a mim, “a sociedade” está perfeitamente mobilizada: participa nas cerimónias de abertura da época balnear, festeja a chegada do Verão, despede-se de um governo e desconfia do seguinte, critica asperamente as instituições, vigia os vizinhos e gasta algum dinheiro. Isto constitui a prova mais do que evidente da “mobilização da sociedade”. Não se lhe peça mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, a abertura da época balnear restringe-se, hoje, à invasão selvagem do areal e à marcação, metro a metro, do território engalanado pelas vetustas barracas de praia, uma herança multicolor da década de sessenta. Hasteia-se uma bandeira, respira-se o aroma de bronzeador, cumprimentam-se os repetentes e os clássicos ocupantes do território. Desde que me lembro, os primeiros feriados de Junho são parte essencial dessa cerimónia despreocupada e reservada aos que sempre consideraram que, longe das Caraíbas e dos ventos Suão e Mistral, Moledo é o centro do mundo, uma espécie de marco geodésico destinado a reviver o passado, a prolongar rituais de iniciação na idade adulta e a impedir que a história perca sentido e oportunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa arrastou os filhos consigo, pelo areal fora; eu cheguei mais tarde, depois de passado aquele período em que a brisa matinal se confundia com um vendaval que atropelava o forte da Ínsua, de requebros azulados, românticos e indiferentes à multidão que estacionara os automóveis nos pinhais vizinhos. Verifiquei que os vizinhos do ano passado eram os mesmos deste ano; percebi que na crista das ondas havia o mesmo reflexo prateado de festa minhota e eternamente dominical (mesmo não sendo domingo) – enfim, assumi que o mundo estava certo e conforme. Ao princípio da tarde, o meu sobrinho Afonso declarou que iria retirar-se a fim de combater umas sardinhas que inauguravam a época. Eu sorri. A cena repete-se há mais de cinquenta anos e é sempre comovente. Eis um conservador sem arrependimento nem dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 3 Julho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5386390135019234902?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5386390135019234902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5386390135019234902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/07/o-comeco-do-verao-em-pleno-mar.html' title='O começo do Verão em pleno mar'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-9043414187801215779</id><published>2011-06-26T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-06-26T00:10:00.144-01:00</updated><title type='text'>Da necessidade de esquecer a morte</title><content type='html'>Do primeiro dia de cada ano até ao último dia das nossas vidas podemos esperar as coisas do costume: súbitas mudanças de meteorologia, catástrofes naturais, repentinas alterações do equilíbrio das almas que nos rodeiam (geralmente na direcção do abismo, comprovando o que desde há muito se sabe sobre a fragilidade da natureza humana) – e a morte. Tudo o resto são contingências sem ordem nem regra e mesmo a meteorologia, depois dos anos em que o Dr. Anthymio de Azevedo dominava os interesses maiores dos nossos serões televisivos, deixou de ter princípio, meio e fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Doutora Maria Filomena Mónica escreveu um livro sobre a morte; não há nada tão distante como o primeiro e o segundo termo dessa relação, ou seja, a autora e o assunto do livro (tratado com o conhecimento e o rigor de uma socióloga). A morte é um assunto para espíritos jovens, que se entretêm a observá-la como as coisas devem ser observadas para se poder ter sobre elas uma visão de conjunto: de longe. O nosso mundo há muito que abandonou o desejo de Razão; as minhas irmãs acreditam que há nas religiões orientais, nas da América Latina e de África (a Oceania está ainda fora das suas amplas jurisdições) uma presciência que nos falta, a nós, pobres ocidentais que leram ‘O Monte do Vendavais’, ou franziram o sobrolho diante do ‘Tristram Shandy’, ou se comoveram com o primeiro filme sonoro ou recordam a ida do homem à Lua. Eu compreendo-as bem; apreciam as coisas de longe, emocionam-se diante das epifanias estranhas ao seu mundo original, acham um colorido perfeito nos fragmentos de sagrado que vêm das savanas de África ou das estepes da Ásia, onde a morte é uma passagem anunciada e, aparentemente, diluída nos mistérios de outra vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tia Benedita, criada no catolicismo mais conservador – para onde teve o cuidado de guiar toda a família –, não tinha opinião sobre o assunto. O último mistério da vida não era a morte mas, como boa católica, a extrema unção, uma espécie de pacificação conseguida em vida e garantida aos vivos. Hoje vejo algumas vantagens nessa visão pouco melodramática e muito menos poética, mas não corro o risco de mencioná-las, porque a morte é um assunto dos vivos consigo mesmos. O tema, triste e soturno, desperta em mim lembranças inoportunas: Dona Ester, minha mãe, caminhando na ligeira arriba de uma praia vizinha de Moledo; o velho Doutor Homem, meu pai, folheando o seu ‘Telegraph’ desactualizado há semanas ou escolhendo um lenço para o bolso do casaco; eu próprio, assistindo a uma regata no rio, em Cerveira, em plena Páscoa de 1959. Nunca soube porquê e nunca me importei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 26 Junho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-9043414187801215779?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/9043414187801215779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/9043414187801215779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/06/da-necessidade-de-esquecer-morte.html' title='Da necessidade de esquecer a morte'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6699895454464612903</id><published>2011-06-19T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-06-19T00:10:00.514-01:00</updated><title type='text'>Não ter medo de envelhecer</title><content type='html'>A principal tarefa dos seres humanos com algum juízo é saber envelhecer. Infelizmente não há uma receita nem para o processo, que é longo, nem para o objectivo, que é vago. A generalidade das pessoas teme a velhice e o envelhecimento; têm razões para isso: envelhecer empresta-nos um número infindável de doenças, de problemas de memória e de desajustamentos em relação ao mundo. Mas há vantagens: um certo respeito pelos nossos achaques, pela nossa falta de paciência e, certamente, pela nossa idade, que não tem a ver com o envelhecimento propriamente dito. De facto, são coisas diferentes, como não deixo de fazer notar diante do espanto da minha sobrinha Maria Luísa, lembrando-lhe que nasci praticamente com trinta anos ou que, pelo menos, a minha adolescência e a primeira juventude não foram modelos de rebeldia a adoptar por um jovem contestatário na flor dos seus anos. Creio hoje que o fiz conscientemente e motivado por uma certa preguiça, ao ver como os rebeldes da minha juvenília, chegavam aos trinta e aos quarenta anos conformados com o peso das responsabilidades e com a ameaça do arrependimento pelos excessos cometidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suponho que Dona Ester, minha mãe, via em mim os sinais dessa preguiça. Ela assistiu, de perto, ao primeiro desgosto de amor, que foi quase mortífero; o segundo, porém, contou com a sua energia e autoridade, enviando-me para os areais do Tamariz e afastando-me das rochas melancólicas de Leça e de Ofir, onde costumávamos passar umas semanas de Verão antes do período regulamentar em Ponte de Lima. Nessa altura, cancelar um casamento era um acto indigno e o preâmbulo de uma tragédia; por isso, como se as distrações do Tamariz não bastassem, encaminhou-me para Copacabana, certamente com a intenção de rejuvenescer-me e tornar-me um ser mais etéreo e risonho. Os meus meses cariocas, felizes e tépidos, devolveram-me à pátria com a sensação de estar a ser devolvido ao inferno – mas eu já tinha envelhecido em definitivo. Não havia nada a fazer. Limitei-me a preparar, no final dos anos quarenta, o que viria a ser o meu final de século. Envelheci com conforto e sem determinação, cheguei até aqui com a inestimável ajuda do meu médico de Viana e dos meus dois bibliotecários do Minho, além da presença de Dona Elaine, a governanta de Moledo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana passada, olhando a fotografia de um antigo namorado, Maria Luísa considerou, com alguma melancolia, “que ele tinha envelhecido bem”. Sorri à ideia. Ela queria dizer que alguma coisa se aproveitaria da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 19 Junho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6699895454464612903?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6699895454464612903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6699895454464612903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/06/nao-ter-medo-de-envelhecer.html' title='Não ter medo de envelhecer'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7203914446053945262</id><published>2011-06-12T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-06-12T00:10:00.444-01:00</updated><title type='text'>Os antepassados sem juízo</title><content type='html'>Uma das tradições dos Homem (um conjunto notável e desorganizado de lendas, documentos, mentiras, evocações, folhas arrancadas aos nobiliários, cartas amarelecidas pelos séculos, além de hábitos de vaidade inclemente) sustenta que um dos nossos antepassados assistiu aos últimos momentos de el-Rei D. Sancho II em Toledo, na companhia de Gonçalo Anes de Portocarrero, um poeta que a península devia honrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra dessas tradições, evidentemente nunca confirmadas mas a que a Tia Benedita (a matriarca da família e garante do miguelismo de outrora) atribuiu sempre a matriz de uma verdade histórica insuspeita, foi a camaradagem que um vetusto avô do Minho manteve com São Teotónio, o padroeiro de Valença, peregrino a Jerusalém, padre Crúzio de Coimbra e conselheiro do nosso primeiro rei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há sinais dessas ramificações na genealogia da pátria, mas em momentos de discussão, a academia dos Homem, reunida ao almoço dominical e pacificador de Moledo, não precisa de provas irrefutáveis nem de documentos vindos do Tombo. Basta-lhe a evidência familiar, que é sarcástica e desinteressada. Não há herói miguelista que não tenha conhecido um Homem nas faldas das serras ou nos vinhedos devastados do Minho, nem relicário do Velho Regime que não tenha uma história para contar. Esta inclinação da família pela história dos avôs próprios ou alheios tem a ver, diz a minha sobrinha Maria Luísa, com a necessidade de não pertencer aos “tempos modernos”. Pode ser. A Tia Benedita manteve até ao fim da vida inimigos invisíveis e imperecíveis, onde incluía o dr. Afonso Costa e os espectros dos liberais mais populares do Constitucionalismo, sobretudo os seus vates e demagogos. Pertencer aos “tempos modernos” foi, aliás, coisa que nunca nos mereceu grandes preocupações – embora Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, se lamente amargamente diante do velho frigorífico que há anos nos garante um sofrível refrigério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dra. Celina, da biblioteca de Caminha, a quem contei estas pequenas desavenças com a nossa genealogia e os nossos electrodomésticos, afiançou-me que é assim em todo o lado. Ela vinha trazer-me uma cópia de um autor galego que menciona a Serra de Arga como um santuário do nosso Noroeste. Farto dos rochedos que guarda as Rias, e já insensível às lendas da velha Galiza obscura de Santiago e do Lugo, o historiador encantou-se com os pinhais amenos de Âncora e achou-lhes ar de nobreza antiga. Fez bem. Deve ter havido um antepassado dos Homem a confirmá-lo, nas suas ossadas do século, digamos, XIV. A Dra. Celina sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;in Domingo - Correio da Manhã - 12 Junho 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7203914446053945262?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7203914446053945262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7203914446053945262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/06/os-antepassados-sem-juizo.html' title='Os antepassados sem juízo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2762866450592021518</id><published>2011-06-05T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-06-05T00:10:00.715-01:00</updated><title type='text'>As dúvidas naturais sobre a ironia de um velho</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa tem dúvidas sobre o seu voto nestas eleições. A eleitora do Bloco de Esquerda sempre achou que a liberalização do haxixe, o casamento entre cavalheiros ou o fim do sigilo bancário e as “aulas de educação sexual” eram motivos essenciais para definir o seu voto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que, passada uma década de heróicos combates contra as classes médias e o os cavernícolas de todas as tendências, tudo isso são bandeiras já içadas nos terreiros da política. Tivemos algumas discussões e limitei-me a esmorecer depois de compreender que Marx e Engels tinha sido activistas do casamento homossexual. Várias vezes insisti que o casamento das outras pessoas não me interessava grandemente e, até, que me era indiferente – desde que me garantissem não ser convidado para a boda. Achei mesmo controverso que o casamento, a reprodução e a constituição de famílias –os horrores dos últimos dois séculos burgueses – se tivessem transformado em bandeiras da esquerda. Pessoalmente, cheguei a argumentar que toda a gente tinha direito à sua razoável dose de infelicidade e que isso devia ser constitucionalmente garantido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus sobrinhos foram o produto da educação liberal ministrada por famílias conservadoras. Desde a adolescência que promoveram cerimónias rituais para consumir haxixe entre os pinhais de Moledo. Eu mantive aquela natural e hipócrita neutralidade, na presunção de que o que eu ignoro não existe. Cansado de salazarismo, mantive-me de pés atrás em relação ao sigilo bancário, com a promessa de depositar as minhas economias num banco de Vigo mal o meu banco pensasse em afixar à porta o extracto das minhas poupanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, acedi em que a vida está difícil para a esquerda. Pagar a dívida, não pagar a dívida – tudo se resume a isso hoje em dia. Os antepassados dos Homem contraíram dívidas astronómicas ao longo das várias gerações e mudaram várias vezes de vida até conseguirem pagá-las com a honra e com o trabalho. A minha sobrinha acha que o país não deve pagar a dívida, aceitando que as grandes despesas com auto-estradas e edifícios públicos são, afinal, um direito natural. Expliquei com insensatez que não se pode viver a vida independentemente das contas ao fim do mês. Maria Luísa debate-se com este problema na sua vida porque há clientes seus que não liquidam as suas facturas. Eu respondo, sem ironia, que a vida está difícil e que deve ser compreensiva ao ponto de “reestruturar a dívida”. Ela julga ver nesta proposta um sarcasmo direitista e eu não a desminto. Mas tem dúvidas, tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 5 Junho 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2762866450592021518?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2762866450592021518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2762866450592021518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/06/as-duvidas-naturais-sobre-ironia-de-um.html' title='As dúvidas naturais sobre a ironia de um velho'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4448786779010915758</id><published>2011-05-29T23:00:00.002-01:00</published><updated>2011-06-03T23:05:27.125-01:00</updated><title type='text'>O minho feliz dos anos cinquenta</title><content type='html'>Naquele Minho estival dos anos cinquenta as novidades demoravam bastante a chegar e, quando chegavam, depois de o velho Doutor Homem ter transportado a família até ao velho casarão de granitos cobertos de musgo e hera, por onde se escapava o perfume de antigas alfazemas – sempre requeridas pela Tia Benedita, a matriarca da família –, tudo tinha já passado de moda. Moledo não era ainda o poiso regular das velhas famílias do Porto, do Norte e dos imigrados que sentiam saudade dos pinhais ou do iodo; e o iodo, por sua vez, ainda não era aquela evocação romântica das manhãs frescas e luminosas das épocas balneares, mas apenas um elemento de prescrição médica, uma espécie de aspirina útil ao bem-estar geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família dividia-se, na época, entre as férias de Ponte de Lima e as férias à beira-mar; entre o repouso secular dos Homens do velho Minho campestre, orientado pelas leituras de Verão e pela revisitação ao retrato do Senhor Dom Miguel, estacionado nos corredores escuros do velho casarão – e uma passagem pelas brisas marinhas que Dona Ester, minha mãe, achava serem o colírio necessário a toda a existência e uma espécie de antídoto contra as gripes que haviam de chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o Tio Alberto aparecia sem qualquer tipo de pontualidade, risonho e carregado de suspeitas, celibatário convertido à província. Os meus irmãos (éramos cinco) cumpriam os deveres de comparência às refeições de família – e eu, retemperado de uma segunda ou terceira adolescência (dado que a primeira não existiu), levava trabalho do escritório. Nesses anos, navegávamos pelo rio Minho num barco que só na imaginação do meu irmão Luís se assemelhava às gigantescas barcaças que percorriam o Mississípi; grupos de deserdados da política e dos negócios, unidos pela idade e pela boa saúde, apreciavam os crepúsculos de Caminha, de Cerveira, de Âncora e de Moledo, sem saberem que seriam os últimos actores desse filme mudo e a preto e branco em que se julgava que o ‘glamour’ era uma pose desinteressada e indiferente, para a qual se disputavam óculos de sol vindos de França ou de Itália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa altura não nos preocupava a crise do crédito nem os enigmas das hipotecas, dos défices da balança de pagamento ou, sequer, a escassez de emprego. Sem sabermos, seríamos – até ao fim da vida – parte de uma classe de privilegiados que habitou em Portugal até aos anos setenta, e que podia dar-se ao luxo de ser das esquerdas ou das direitas. A vida não era difícil; era apenas medíocre, talvez, e irrisória. Os heróis, como o meu Tio Alberto, eram fugitivos e não contavam os seus segredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 29 Maio 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4448786779010915758?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4448786779010915758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4448786779010915758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/05/o-minho-feliz-dos-anos-cinquenta.html' title='O minho feliz dos anos cinquenta'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7719383943116194479</id><published>2011-05-22T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-05-22T00:10:00.161-01:00</updated><title type='text'>As chuvas de Maio e as lojas gourmet</title><content type='html'>As primeiras chuvas de Maio foram já tépidas e não obrigaram à alteração no guarda-roupa de Moledo, que é geralmente sensato. Ao contrário dos hábitos do velho Doutor Homem, meu pai, a “roupa de meia estação” (um eufemismo para falar das transições entre as sucessivas guerras dos Elementos) caiu hoje em desuso. A minha sobrinha Maria Luísa, com pesar e algum drama, atribui a catástrofe às alterações climáticas; esquecia-me de dizer que ela pensa que se trata de uma catástrofe. Tem alguma razão: houve peças que saíram do guarda-roupa e nunca mais foram guardadas de ano para ano, não só porque as pessoas desejaram vestuário mais “prático” (um absurdo) mas também porque as estações do ano dão saltos abruptos para o colo umas das outras até se confundirem ou até se separarem definitivamente. Com isso, as pessoas perderam bastante – as ‘toilettes’ de antigamente desapareceram, a pose de antigamente (estudada, frívola, ‘snob’, geralmente elegante) também desapareceu, e o clima perdeu importância desde que deixámos de usar chapéu, abafos irregulares e fazendas de alfaiate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer modo, a minha sobrinha chegou a Moledo na semana passada acompanhada de um ligeiro granizo das serras – que lembrou o descontrole da nossa atmosfera e a desconfiança eterna a que em casa eram votados os cavalheiros da meteorologia, sisudos e de voz grave, esclarecida. Ela trouxe produtos de uma loja ‘gourmet’ de Braga – fumados escolhidos, compotas perfumadas, bolachas de latitudes longínquas, um vinho húngaro, entre outras primícias. Parecia a chegada do meu Tio Alberto, no regresso das suas viagens misteriosas. O vinho húngaro, o Tokai, pertence à nossa memória, e os seus atributos prendiam-se sempre com a suspeita de amores imaginários com princesas longínquas ou com a existência de paixões mirabolantes que nunca teriam romance escrito à altura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As lojas ‘gourmet’ são as perfumarias de outrora, discretas, cheias de luxos sugestivos, cobertas de auras misteriosas. Dona Elaine desconfia, naturalmente; ela acha que a compota de groselha é uma invenção hostil à nossa compota de amoras, carregada de uma saudável carga de açúcares amarelos transformados em xarope perfumado. Os fumados de arenque parecem-lhe sardinha de barrica, a comida para pobres dos seus primos dos Arcos; e quanto aos vinhos doces, de sobremesa, ela sugere que o vinho abafado ou as ginjas seculares de Ponte da Barca cumprem perfeitamente a sua função. Por mim, contive-me. À falta de roupa de meia estação e de um boné de ‘tweed’, a ideia de uma loja ‘gourmet’ não estava mal. Era falsa, sim; mas compensava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 22 Maio 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7719383943116194479?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7719383943116194479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7719383943116194479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/05/as-chuvas-de-maio-e-as-lojas-gourmet.html' title='As chuvas de Maio e as lojas gourmet'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3818742945006818027</id><published>2011-05-15T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-05-15T00:10:00.755-01:00</updated><title type='text'>O retrato fiel de uma tragédia</title><content type='html'>Tive, durante muito tempo, um certo horror morigerado pelo senhor deputado de Miranda, Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda (na época decorávamos os nomes completos dos personagens e recitávamos – com despropositada pompa – as passagens mais estapafúrdias), herói de ‘A Queda dum Anjo’. Havia na família, nas estantes do casarão de Ponte de Lima, uma edição de 1891, muito requisitada durante os verões da minha adolescência, o que explica uma certa dedicação ao livro, à história que ele conta e à admiração que se votava a Camilo. O velho Doutor Homem, meu pai, dizia que a paixão da família por “pantomineiros da política” se devia mais a Camilo do que ao nosso cepticismo, temperado com uma certa misantropia – ou seja, que ‘Eusébio Macário’ e ‘A Brasileira de Prazins’ fizeram mais pela nossa formação política do que os discursos de José Acúrcio das Neves em defesa do senhor Dom Miguel ou a doutrinação invisível da Tia Benedita, a matriarca miguelista da família. De certo modo, é verdade. No cume da Regeneração, que cicatrizava as feridas da guerra civil, e que relegava os Homem dessa época para a categoria das recordações do Antigo Regime, Camilo Castelo Branco era a única figura das letras que não era nem democrata, nem sofria de amnésia, nem escrevia ditirambos nas secretarias dos ministérios. Era, sobretudo, um homem do Minho, um espectro do velho Porto romântico que penara na cadeia e conhecera a parte da nossa História que tinha sido banida pela modernidade e pela má gramática – e que, longe de se dedicar a construir heróis que interpretassem a Carta e o constitucionalismo em rimas interpoladas, preferia patifes e pícaros que representassem o velho Portugal das províncias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, que somos filhos de Eça – sabíamos que o retrato verdadeiro, o retrato cru, o retrato fidelíssimo da nossa amargura vinha nas páginas de Camilo, nas implicações de Camilo, no velho romantismo de Camilo. E, sobretudo, no humor trágico e de comédia risível do bruxo de Seide, que escrevia os seus romances como uma cartografia da época – e muito contra a banalidade do seu tempo, à maneira de um Flaubert fora de contexto, temperado por muita gramática e ironia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse país do constitucionalismo e da Regeneração, o «homem comum» tomou o lugar dos velhos portugueses de exemplo, cuja cãs transportavam as leis e os costumes de antanho; Calisto prefere a condição de «homem comum», como chamava D. Agustina, na sua imensa sabedoria, aos políticos do nosso tempo. É trágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 15 Maio 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3818742945006818027?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3818742945006818027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3818742945006818027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/05/o-retrato-fiel-de-uma-tragedia.html' title='O retrato fiel de uma tragédia'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7130661389202445306</id><published>2011-05-08T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-05-08T00:10:00.339-01:00</updated><title type='text'>O sentimento de culpa na Primavera de Moledo</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa permanece naquele curioso limbo em que “as condições gerais da existência” lhe permitem viver do seu negócio (ela cuida da vida dos ricos, em Braga, decorando-lhes as casas) e, ao mesmo tempo, alimentar um discreto sentimento de culpa em relação aos benefícios que dele colhe. Depois de a escutar relembrei-lhe que “o sentimento de culpa” é um extraordinário elemento da nossa civilização. Tal como a procura do bem-estar, a liberdade, a arte, a busca justiça e a propagação da família – a culpa decora, com subtileza, esse edifício que tratamos com negligência. Mais do que a religião (tanto o velho Doutor Homem, meu pai, como Dona Ester, minha mãe, eram ligeiramente “liberais” em relação ao tema, sob o argumento de que se tratava de assunto da vida privada) e as suas ramificações, a culpa é um bem inestimável que frequentemente salva o género humano da catástrofe. Sem culpa, ou seja, sem limites à nossa condição (que é má), é provável que nenhum outro valor sobejasse na contabilidade das coisas deste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tia Benedita, que não se achava deste mundo, pensava que tudo estava ligado à religião. Aquele universo de penitências, novenas, ciclos de oração e celebrações rituais era um amparo que não dispensava. Mas ela não conheceu o suplício do pecado fora de portas; o seu mundo terminara cem anos antes, e não pretendia viver neste. Por isso, os dogmas eram dogmas e considerava a dúvida como a antecâmara da perdição. Ai de nós, os modernos, que conheceram o ié-ié, a minissaia, a literatura francesa, o Dr. Freud e o inferno da descoberta das hormonas. Ao contrário da Tia Benedita (que considerava a imoralidade, o bolchevismo, a maçonaria, o adultério e o enriquecimento exagerado como meras consequências do pecado original), nós acreditamos na história, na vida em sociedade (com as suas desordens naturais) e na penicilina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa declara que “sentimento de culpa” é sinónimo de “hipocrisia”. Não vejo um mal exagerado em nenhuma das coisas. Se a culpa nos obriga a procurar uma vida cordial, a “hipocrisia” obriga-nos a ter maneiras e a disfarçar o incómodo de nos darmos com os outros – e a não ter de viver nas grutas da Serra d’Arga, entre pinhais e penedos. Ela acha isto uma enormidade. Compreendo. A esquerdista da família tem, como toda a gente, a ambição de ter razão e, ao mesmo tempo, o desejo de não ser molestada pelos seus próprios valores. Infelizmente, o fermento da vida é uma contradição que nem a Primavera de Moledo dissolve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 8 Maio 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7130661389202445306?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7130661389202445306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7130661389202445306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/05/o-sentimento-de-culpa-na-primavera-de.html' title='O sentimento de culpa na Primavera de Moledo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6489340240070639799</id><published>2011-05-01T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-05-01T00:10:00.150-01:00</updated><title type='text'>Da vaidade do autor às virtudes do iodo</title><content type='html'>A minha despudorada vaidade ficou transtornada com um novo livro (“Um Promontório em Moledo”, que o Dr. Boavida publicou na Bertrand) em que se recolhem as crónicas deste minhoto quase contemporâneo do Titanic. Hoje em dia os livros são uma velharia, próprios de livrarias antigas e todas as livrarias são, à sua maneira, as mais antigas livrarias do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, eu não sou um autor. Caibo apenas na categoria dos acidentes geodésicos. O centro do meu mundo está deslocado em relação aos ensinamentos da geografia, da mesma forma que o forte da Ínsua, em Moledo, só pode ser considerado o centro do mundo pelas antiquíssimas sereias galegas, passageiras frequentes das ondas que varrem Santa Tecla, a Foz do Minho e os areais das praias mais antidemocráticas do meu país. Peço desculpa aos leitores por esta invocação romântica, pouco consentânea com a tradição de crueldade dos Homem, mas as sereias, tal como o iodo e as neblinas matinais (uma expressão copiada do Dr. Anthímio de Azevedo), fazem parte da gramática literária de Moledo. Ora, sem Moledo eu não teria assunto para escrever, da mesma forma que, sem a distância de Moledo em relação à pátria, eu não teria o distanciamento que ajuda a manter uma certa ordem nas coisas. Essa “ordem nas coisas” não é propriamente uma fonte de disciplina e de perfeição, mas, antes, a capacidade de aceitar os nossos defeitos e de viver com eles sem exagerar no conúbio. Ou seja, temos de viver com ilusões e de mantê-las como se fossem essenciais à manutenção da espécie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja-se o iodo. Dona Ester, minha mãe – que foi a fonte do nosso anti-romantismo –atribuía ao iodo virtudes certamente exageradas, juntamente com o bronzeado do Minho, que ela equiparava à qualidade de medicamento natural (os seus filhos cresceram saudáveis e relativamente egoístas), bom para prevenir as gripes, para afugentar a palidez e para diluir os males de amor. Recordo-me da sua jovialidade ao receber, em casa, os primeiros aromas de mimosa e o perfume dos primeiros bronzeadores vindos da praia. Abril pode, como certificava o poeta, ser o mês mais cruel – mas é também o que mais esperanças de longevidade transporta para os velhos. A minha sobrinha Maria Luísa diz que, normalmente, é em Abril que começo a perorar sobre o iodo, num crescendo que termina em Agosto, quando a família transforma Moledo num entorpecente miraculoso. O iodo, como o leitor sabe, não existe – é uma sensação. A mim, mostra-me o caminho para o verdadeiro marco geodésico da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 1 de Maio 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6489340240070639799?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6489340240070639799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6489340240070639799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/05/da-vaidade-do-autor-as-virtudes-do-iodo.html' title='Da vaidade do autor às virtudes do iodo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2750270584197791820</id><published>2011-04-24T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-04-24T00:10:00.775-01:00</updated><title type='text'>Conversa de Abril ou a paciência</title><content type='html'>A destreza social, tal como a paciência, diminui bastante com a idade e nunca se sabe o que se pode esperar de um velho, a quem se perdoam a falta de memória, os achaques de Primavera ou as idiossincrasias na política ou na literatura. Falo de literatura apenas por falar — na verdade, pouco se comenta de literatura à mesa nestes dias em que “a política” tomou conta das desventuras da pátria. A mim, mencionam-me vagamente uns nomes de novos autores, mas o defeito da ignorância é um dos meus pecados. Arrependo-me com seriedade, ciente de que o mundo não começou ontem nem há-de acabar amanhã, e escuto; desconheço as desventuras do romance contemporâneo, a minha preguiça vai sendo um Adamastor que engole todo e qualquer esforço. A minha sobrinha, que depenica nas minhas estantes à procura de literatura para as noites bracarenses, é exigente na matéria, o que me comove com alguma largueza. Dou-me a esse luxo com ela, embora dispense saber como se preenchem de livros as noites de Braga — o que me não contam, eu não sei; o que não sei, não me assusta; o que não me assusta, tem uma vaga existência para lá de Moledo e das suas tardes amenas de Abril, fustigadas pela chuva, temperadas pelo sol ligeiro que chega das serras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, o tempo foi passando. São coisas que não se alteram. Penso, hoje, que educámos as novas gerações para que elas fossem mais felizes e, provavelmente, mais apresentáveis. A avaliar pelo retrato de conjunto, não conseguimos nem uma coisa nem outra. Não piorámos substancialmente, mas ficámos com mais dúvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ainda não se tinha inventado o iodo para justificar temporadas de praia, o velho doutor Homem, meu pai, retirava-se para a velha casa de Ponte de Lima, arrastando consigo a família e uma considerável quantidade de malas transportadas do Porto em duas via&amp;shy;gens. Mas ele era um “moderno”, reconheço hoje. Num mundo que ainda não tinha descoberto os telemóveis ou a Internet, mas que ouvia rádio e se preparava para, um dia, ver televisão, as temporadas de Ponte de Lima significavam o que passaram depois a ser os retiros espirituais ou os ‘spas’ da actualidade. Não éramos melhores do que os meus sobrinhos. Reconheço, claro, que a espécie registou, desde então, mudanças substanciais: ficou mais barulhenta, está mais despenteada e sofre mais de asma, por exemplo. No resto, a destreza social – tal como a paciência – continua a diminuir. A felicidade continua a ser uma espécie de arremedo e de subproduto, o resultado da dificuldade em encarar o tempo e as suas vicissitudes como aquilo que elas são: um puro feitio, e não um defeito. Conversa para Abril, diz-me a minha sobrinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 24 Abril 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2750270584197791820?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2750270584197791820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2750270584197791820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/04/conversa-de-abril-ou-paciencia.html' title='Conversa de Abril ou a paciência'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6066946505528567680</id><published>2011-04-17T00:10:00.002-01:00</published><updated>2011-04-17T00:10:00.180-01:00</updated><title type='text'>Os poetas e um elogio a Homem de Mello</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, um pouco na esteira da família – que gostava de exagerar no seu barbarismo e fingia uma insensibilidade de que não padecia –, dizia desconfiar dos poetas ou, pelo menos, da sua aura. O Porto do seu tempo, depois dos arroubos finisseculares que motivariam gargalhadas de Camilo na sua biografia de Basílio Fernndes Enxertado, dava-se relativamente mal com “os poetas” e tinha razões para isso – o constitucionalismo encheu de vates as secretarias do reino e a República, burguesa e radical, não tinha nem a noção da métrica nem fantasia que lhe chegassem para lá dos ditirambos ao código civil. Ou seja: os poetas do constitucionalismo eram medíocres, e os medíocres da República não eram poetas. Tirando a dedicação existencial e amistosa do meu avô Norberto, administrador de quintas do Douro, pelo poeta de Barca d’Alva e da Quinta da Batoca, Guerra Junqueiro, a família evitava comprar os almanaques de versos. Desde que D. Pedro cometeu a Carta Constitucional em verso que os Homem se tornaram relapsos aos dicionários de rimas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o velho Doutor Homem, meu pai, mentia. Ou, mais delicadamente, escondia uma generosa biblioteca com os seus poetas ingleses, onde a idade me confortou mais tarde com o encontro amoroso tanto de Shelley como de Keats ou Coleridge, a que acrescentou outros que lhe serviam os propósitos de alguma melancolia disfarçada, como Yeats ou, episodicamente, W. H. Auden. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos, onde as neblinas nunca o levaram às penumbras da poesia mas à espiritualidade da gastronomia, considerava Pedro Homem de Mello o único poeta a quem devia alguma deferência. Eu tinha medo do Dr. Homem de Mello que era vinte anos mais velho, era respeitado n’A Brasileira e fumava cigarros ‘Antoninos’, um plebeísmo romântico e elegante. Recordo-o hoje, caminhando pelas veredas de Afife ou entre as sombras dos pinhais da Serra d’Arga – e uma melancolia volúvel relembra os seus poemas em que ninguém descortinara o pessimismo sem amargura daquele homem que hoje apenas merece a atenção dos velhos. O meu pai apreciava-o e considerava-o um emblema de lágrimas de outrora; ele, que nos momentos mais cómicos ria do mau sentimentalismo de Junqueiro ou de certa impostura de Garrett (o Leitão da Silva, como era conhecido na nossa família), guardava uma comoção para Homem de Mello. Compreendo-o: era um dos derrotados. E, na galeria de poetas, a sua sensibilidade era imprevisível, como uma alma antiga e esvoaçante, perdida nos areais do Minho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 17 Abril 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6066946505528567680?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6066946505528567680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6066946505528567680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/04/os-poetas-e-um-elogio-homem-de-mello.html' title='Os poetas e um elogio a Homem de Mello'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4386883021644673331</id><published>2011-04-10T00:10:00.001-01:00</published><updated>2011-04-10T00:10:00.701-01:00</updated><title type='text'>A União Ibérica e os 'carabineros' de bigode</title><content type='html'>Para Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, a Espanha começa em Vila Nova de Cerveira e termina na margem de lá do Minho ou, quando muito, em Camposancos, quando a montanha de Santa Tecla deixa de ser ameaçadora. Tudo o resto é o que ela entende. No ano passado, quando, em pleno Verão, Maria Luísa veio de Braga decidida a levar-nos em peregrinação a Vigo, por altura das festas, anunciou do jardim “que íamos a Espanha”. Dona Elaine aceitou a oferta, mas relembrou que Vigo era tanto Espanha como Moledo uma aldeia marroquina – que Vigo era Vigo. Esta clareza meridiana surpreenderá o leitor mais distraído mas, de facto, “ir a Espanha” é uma emoção apenas enquanto não se entra “no território”. Mal se atravessa a ponte de Cerveira, Dona Elaine acredita que o lado de lá não passa de uma reencarnação do Minho, com os mesmos granitos e talvez menos lixo na rua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não faz parte, portanto, dos portugueses que pretendem uma “união ibérica”; o seu nacionalismo minhoto leva-a a ver vinhas de enforcado nos desfiladeiros madeirenses do Curral das Freiras ou de Porto Moniz, onde foi por duas vezes de excursão e, se chegasse a El Ferrol, aquela esquadria aprumada e matemática das suas ruas não a surpreenderia porque acha Viana o zénite da arrumação. Ao contrário de Dona Elaine, que despreza com uma ligeira sobranceria (que nunca toca os limites da antipatia) tudo o que fica para lá da sua geografia e do seu sotaque, os portugueses apreciam muito a “união ibérica” e quase metade deles gostaria de ser uma “autonomia espanhola”, segundo dizem os jornais. Este desejo é antigo, tanto como o seu contrário, e emerge periodicamente ou da nossa vastíssima capacidade de desistir ou da incapacidade de observar as coisas de longe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, era um amante das coisas de Espanha e, ao contrário de Dona Elaine, admitia a existência real do país vizinho. Visitava-a amiúde, ou – antes da Guerra – para nos levar em passeio para lá da Península, ou, mais tarde, na sua idade madura, para mudar episodicamente de culinária e de cheiro de tabaco. Havia, nessa altura, “um cheiro a Espanha”, um misto de águas de colónia populares e de fumo de tabaco negro, de comida generosa e de gasolina mais barata. A “união ibérica” é uma fantasia pueril dos inimigos de Espanha; ao contrário dos “iberistas”, costumo insistir em que nos convém muito a sua existência separada da nossa e, se possível, com fronteiras vigiadas pela Guarda Fiscal e por “carabineros” de bigode. É a Espanha que garante a nossa existência real. Integrados em Espanha, perderíamos os nossos defeitos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 10 Abril 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4386883021644673331?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4386883021644673331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4386883021644673331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/04/uniao-iberica-e-os-carabineros-de.html' title='A União Ibérica e os &apos;carabineros&apos; de bigode'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8878323400871753756</id><published>2011-04-03T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-04-03T00:10:00.585-01:00</updated><title type='text'>Uma história de outros tempos</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, nunca me perguntou se eu tinha deixado o meu coração no Rio de Janeiro daqueles anos, mas suspeitou que essa temporada carioca tinha mudado um pouco a minha vida. O saudoso Hotel Glória guardou por uns tempos a inútil gabardina que deixei esquecida sobre uma cadeira no quarto que ocupei durante três meses sem a ter usado uma única vez; depois, deve ter depreendido que o seu dono nunca voltaria para buscá-la. Nunca voltei, nem poderia. À minha sobrinha Maria Luísa, que acha quase todas as histórias de amor dignas de romance, tive de explicar o que era o mundo da época – a acrescentar ao complexo de deveres e temores que era natural apoderar-se de um português fora de portas. Sim, houve algum temor a mais; foi ele a vencer o coração, que ficou – como, sábio e discreto, suspeitou o velho Doutor Homem, meu pai – no Rio de Janeiro, algures na Copacabana enevoada da última semana daquele trimestre. A família tinha-me enviado ao Rio sob o pretexto de contactar os nossos correspondentes na então capital brasileira, mas a verdade é que a viagem fora prescrita por Dona Ester, minha mãe, como um medicamento apropriado para cauterizar feridas recentes, um noivado desfeito e um temperamento transtornado pela melancolia da passagem à idade adulta. O escritório dos advogados que tratavam dos nossos negócios do outro lado do Atlântico era uma fortaleza dos anos trinta que sobrevivia prosperamente nos anos cinquenta, ocupado por colarinhos e fatos de corte francês. Foi nesse cenário que a conheci, como uma luz passageira que estava destinada a ser – como acabou por ser – definitiva. Durante semanas aprendi com ela (uma jovem nunca deixou de ser jovem nas minhas recordações) que, para lá dos deveres e dos temores, havia uma raríssima beleza na fragilidade da vida. Nessas semanas em que vivi, emprestada, a leveza dos crepúsculos cariocas, despedi-me várias vezes do meu destino; de cada vez que, à noite, me apresentava diante da janela do meu quarto, naquele hotel que – como eu –nascera velho e coberto por um manto de solenidade, encarregava-me de afastar a tentação de seguir o meu coração. Descobri tarde demais que não se tratava de uma tentação mas sim de outra vida, e que eu poderia escolhê-la se fosse outro ou se estivesse na disposição de correr todos os riscos da minha idade. Foi, provavelmente, o maior pecado da minha vida. Regressei a Portugal, aos meus deveres e temores. Soube muito depois que Dona Ester, minha mãe, nunca me perdoou. &lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 3 Abril 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8878323400871753756?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8878323400871753756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8878323400871753756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/04/uma-historia-de-outros-tempos.html' title='Uma história de outros tempos'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2527555446056827888</id><published>2011-03-27T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-03-27T00:10:00.610-01:00</updated><title type='text'>Sobre Samuel Johnson</title><content type='html'>Existem na biblioteca de Moledo duas edições de ‘The Life of Samuel Johnson’, de James Boswell. Uma foi trazida de Londres, antes da I Guerra, pelo velho Dr. Homem, meu pai – são quatro volumes encadernados que ainda resistem ao tempo, à poeira e à humidade do Minho, que acompanham duas outras edições históricas, da autoria do próprio Johnson, ‘A Journey to the Western Islands of Scotland’ e ‘The Vanity of Human Wishes’. Guardo-os entre os mais nobres livros destas estantes desarrumadas como um testemunho sobre a passagem dos anos e do chamado “gosto literário” que evoluiu alguma coisa desde o século XVIII, mas não o suficiente para diminuir a importância da obra. A outra edição veio num só volume, “de bolso”, e não posso lê-la hoje em dia: as suas mil páginas de letra miúda não foram feitas para as dioptrias de um contemporâneo do óleo de fígado de bacalhau e das canetas de aparo amovível. Contento-me em folhear este e aquele capítulo da grande biografia, seguindo a minha memória, que ainda resiste aos labirintos da preguiça. O prazer que retiro da sua leitura está, hoje, moldado pela recordação de um outro mais antigo, que é o de descobrir o génio de Johnson e a capacidade de Boswell para admirá-lo. Tirando o ‘Tristram Shandy’, de Lawrence Sterne, e o conjunto da obra de Camilo, não encontro livro que mais me tenha acompanhado. A excepção são os grande romances ingleses, como ‘Orgulho e Preconceito’ e ‘O Monte dos Vendavais’, ou russos, como ‘Anna Karenina’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa (a única esquerdista da família) não leu nem Boswell nem Johnson; a sua sensibilidade e o seu gosto nunca o exigiram, mas a curiosidade traiu-a algumas vezes. No sábado passado, na réstia do crepúsculo – um raio de luz que comove os velhos como se fosse o último filtro de calor do Inverno –, Maria Luísa sentou-se na varanda que dá para os pinhais que escondem, ao fundo, as dunas da praia. “Talvez devêssemos ser mais espirituais”, comentou ela, com um cigarro aceso. Ela queria dizer que, para as “classes médias”, a vida está difícil e que há coisas mais importantes que o dinheiro ou o poder, bálsamos fáceis e ainda acessíveis apesar dos tempos actuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel Johnson escreveu largamente sobre “a consolação diante da morte”. Os livros seriam uma salvação, tal como a contemplação ou a amizade. “Talvez devêssemos ser mais espirituais.” Ninguém sabe ao certo quais são esses caminhos, mas decerto eles existem. Alguns vêm dar a Moledo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 27 Março 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2527555446056827888?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2527555446056827888'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2527555446056827888'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/03/sobre-samuel-johnson.html' title='Sobre Samuel Johnson'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1393464398382564738</id><published>2011-03-20T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-03-20T00:10:00.069-01:00</updated><title type='text'>Um promontório em Moledo</title><content type='html'>Recordo agora as minhas primeiras crónicas, escritas com a timidez de um aventureiro que não sabe que o é. Primeiro, a substituição do lápis pela caneta Parker que pertenceu ao velho Doutor Homem, meu pai; depois, a substituição do correio normal pelo fax; depois, a intromissão da minha sobrinha Maria Luísa que, uma vez por outra, tenta explicar-me como funciona o email. É um esforço inútil: escrevo devagar, com a compenetração de um contabilista do século passado que utiliza canetas de três cores diferentes para desenhar os seus balancetes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um longo processo, de qualquer modo, que levou ao abandono das vetustíssimas folhas de papel almaço pautadas a trinta linhas – justificação foi a de que o aparelho de fax não reproduzia convenientemente nem a caligrafia nem os espaços em branco. As folhas brancas seguiam, então, para o correio, transportadas por Dona Elaine. Mais tarde, quando ao fim de uns meses a família se interessou ou tomou conhecimento da existência, no seu seio, de um cronista vaidoso e mais do que encanecido: veio então um aparelho de fax para casa, instalado na biblioteca onde está armazenada parte das leituras dos Homem. É, suponho, o mais moderno artefacto da casa de Moledo, juntamente com uma torradeira recente que veio substituir a velhíssima máquina que testemunhava a dieta da casa ao pequeno-almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa foi, de qualquer modo, a responsável por essa quota de vaidade. Foi ela que organizou as crónicas que compõem o primeiro dos meus livros; demorei três semanas a compor um prefácio inútil e quase absurdo para um livro em que o melhor (e o mais popular, no fim de contas) acabou por ser o retrato do senhor Dom Miguel. O segundo livro resultou de uma insistência de vários amigos. O terceiro chegou-me às mãos como se fosse uma novidade, com a bela capa desenhada pela D. Vera (D. Celina, da Biblioteca de Caminha, providenciou – dos seus excelentes arquivos – uma fotografia de Moledo nos anos de ouro da minha memória). Dona Elaine não apreciou o título: ‘Um Promontório em Moledo’ parecia-lhe uma coisa incompreensível. “Com tantas coisas bonitas na terra, o senhor doutor foi logo escolher um nome que ninguém entende.” Não valia a pena explicar à governanta deste eremitério as variações que podiam fazer-se sobre essa expressão (uma das minhas irmãs ainda murmurou um “não dá com nada”). Acabou por ser Maria Luísa a lutar pelo título; ela acha que não se ganha nada em ser-se democrático. Concordei, fingindo-me resignado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 20 Março 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1393464398382564738?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1393464398382564738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1393464398382564738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/03/um-promontorio-em-moledo.html' title='Um promontório em Moledo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3702311248583133235</id><published>2011-03-13T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-03-13T00:10:00.082-01:00</updated><title type='text'>Uma lembrança em tempo de aniversário</title><content type='html'>Nunca me preocupei com o envelhecimento. O meu médico, herdeiro e seguidor de uma categoria de benfeitores que viveu nas nossas províncias – e que tanto assistia a partos como cuidava de maleitas do fígado –, desenganou-me sobre o assunto quando me decretou uma série de doenças crónicas ou destinadas a afligir-me em permanência. Elas passariam a requerer atenções de um ser egoísta e que devia, daí em diante, consagrar parte do seu tempo à leitura das bulas dos medicamentos, a ministrar a dose correcta de comprimidos, a abster-se de uma boa parte da sua “alegria gastronómica” ou a olhar a passagem das estações como uma bênção do destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O destino tem abençoado este ser egoísta que aceitou, sem resistências de maior, a ideia de prolongar a vida através de abstinência, comprimidos, agasalhos e pequenos-almoços madrugadores. Não sigo uma dieta em particular; uma vida medíocre e sem demasiados altos e baixos foi avara em excessos comprometedores. Os meus irmãos dizem que nasci com a adolescência feita, e as minhas irmãs nunca cessaram as suas recriminações por uma vida de celibato. Os primeiros, criticam o meu modo de vida; as segundas, desprezam o meu modo de vida. Os primeiros, porque nunca fui o doidivanas que esperavam por companhia, nem o cônjuge cumpridor de deveres insuspeitos; as segundas, porque nunca tive a minha pacata existência assaltada ou por deveres conjugais, ou pela gritaria de crianças com sarampo, ou pela angústia de adolescentes problemáticos. Limitei-me a seguir a minha vida, o que não foi “aventuroso” – nem “fascinante”, como agora se diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei à última década. Conto os dias, como um milagre. Os meses, como uma desfaçatez. Os anos, como um acontecimento digno de registo. Às vezes olho a minha família, perfeita ou imperfeita, com a sensação de pertencer-lhes como um desvio permitido. As paixões de outrora têm apenas o perfume de outrora; as paixões da idade adulta relembram um olhar, uma conversa, um passeio pelos cafés, cartas trocadas sem dizer o que deviam dizer – sempre oportunidades perdidas que não mudariam o essencial da vida desta velharia minhota estacionada em Moledo. Os meus sobrinhos dão-me as notícias essenciais. Dona Elaine, a governanta deste eremitério, aconselha-me obediência ao médico e perseverança nos chás com ervas silvestres – e, já agora, que não canse tanto a vista com livros que já me não acrescentam sabedoria. Procuro neles algum conforto contra as ameaças da idade. O resto virá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 13 Março 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3702311248583133235?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3702311248583133235'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3702311248583133235'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/03/uma-lembranca-em-tempo-de-aniversario.html' title='Uma lembrança em tempo de aniversário'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-979842922333327440</id><published>2011-03-06T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-03-06T00:10:00.280-01:00</updated><title type='text'>O fim do Inverno e a força dos elementos</title><content type='html'>A ‘Corografia Portugueza’ do Padre Carvalho da Costa ou o ‘Diccionario Chorographico’ de Américo Costa eram duas das presenças mais constantes das tardes de Verão em Ponte de Lima, onde a família se encontrava para fazer o que melhor apreciava: conversar e ver passar o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tratava-se de uma academia de geógrafos a que se escapava com dificuldade; miudezas de paisagem, recordações de monumentos, aspectos de botânica geral, caminhos pelo meio da serra – de certa maneira era uma sabatina sobre coisas do Minho, um repositório de apontamentos retirados ao ‘Minho Pittoresco’, de José Augusto Vieira (de cujo primeiro tomo, de 1886, se conservavam duas cópias – uma em Ponte de Lima; outra, a que agora está em Moledo, nas estantes da velha casa portuense onde o velho Doutor Homem, meu pai, o mandara repousar convenientemente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, que o sol poisa como uma bênção sobre os pinhais de Caminha, Moledo e Vila Praia de Âncora, a recordação desses momentos é uma espécie de vida acrescentada. A Primavera espreita, como uma promessa de redenção. A crónica da província é feita de coisas insignificantes e de memórias das estações do ano, do ruído das motorizadas no final da tarde de domingo. Para entender esta desinteressante monotonia é preciso compreender como a província ficou abandonada. Reparo nisso quando regresso dos cumes de Santa Tecla, onde vamos uma vez por ano, depois de almoçar em Cerveira e de conferir que o rio segue o mesmo curso de sempre. Naquelas colinas que se afundam no mar do meu Minho vejo despontar a primeira luz verdadeira da temporada. Antigamente costumava vê-la nas mimosas que cresciam à beira da estrada de Viana ou nas ruínas de uma certa casa de Afife, onde se instalara um tio que emigrara e viera rico do Pernambuco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reparo, nestas recordações, que o Inverno se afasta lentamente. Para não contrariar os desígnios da natureza, contento-me em observar que o frio tem algumas vantagens para a saúde, para o restabelecimento das ervas do jardim e até para a vida familiar. O argumento convence-me, como é de esperar numa alma con&amp;shy;servadora, mas os domingos de Março continuam a não mos&amp;shy;trar nem uma parte da grandiosidade dos fins-de-semana esti&amp;shy;vais. Nas ruas de Moledo podaram e cortaram as ramagens das árvores. Uma poeira de frio ainda cobre os trilhos das dunas. Há uma nudez que comove os poetas e entristece os velhos, a quem o tempo não mostra piedade. Portanto, nada a fazer, por mais que me declare vencido pelos elementos, pelo clima e pela ordem das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 6 Março 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-979842922333327440?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/979842922333327440'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/979842922333327440'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/03/o-fim-do-inverno-e-forca-dos-elementos.html' title='O fim do Inverno e a força dos elementos'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4302948451417392563</id><published>2011-02-27T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-02-27T00:10:00.218-01:00</updated><title type='text'>A chuva de Moledo e os amores de outrora</title><content type='html'>O fim de semana de Moledo começa à sexta-feira pelo meio da tarde, quando os cafés da praia recebem as visitas do costume, que agora vêm – a medo – reconhecer os estragos dos temporais. O muro do paredão ruiu um pouco, as ondas desfizeram uma parte do areal, a Ínsua é engolida pelo mar, a neblina não deixa perceber o rosto de Santa Tecla, a chuva limpa o empedrado das ruas que isolam os pinhais. É o habitual calendário de Moledo, que seria muito diferente se a geografia cometesse o erro de colocar este promontório à beira do Índico tropical ou apenas um pouco para lá das Caraíbas, ao contrário do que o Criador dispôs; o que se ganharia em tepidez desapareceria em variedade meteorológica – a imaginação precisa de se retemperar com as chuvas de Inverno, os temporais, o vento que desce das rias e embate nos carvalhos das alturas, tudo isso para que o Verão tenha, depois, algum sentido quando tudo for reconstruído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas fotografam agora as ruínas da praia: riscos de sargaço na areia, dunas desbastadas, ramos caídos. Será uma memória quando, em Junho e Julho, iniciarem o ritual da época e puderem, ao crepúsculo, contemplar o mais belo mar do hemisfério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa consegue estacionar o carro diante de um dos dois cafés e leva-me em peregrinação sentimental pelo meio da chuva. Ela acha que o clima, o cenário e a composição em geral (o retrato de Turner que se equilibra sobre a praia, no fundo) favorecem a leitura, ou do jornal ou do romance da moda, à mesa do café. Tem alguma razão; os lugares seleccionam os frequentadores, e reconheço que, além de melancólico, o ambiente é propício a um certo recolhimento, ao uso de gabardinas e de calçado para atravessar os charcos. Na véspera dos meus noventa anos, a literatura é um mal e um bem. Com esta idade já se sabe que a vida é um caminho à beira do precipício e que uma certa ironia acaba por ser um bálsamo para o cepticismo, a tristeza e a tendinite. Quando alguém passa de bicicleta lá fora (as vidraças dos cafés são uma bênção para os preguiçosos, especialmente no Inverno), recordo Dona Ester, minha mãe, entusiasta do exercício físico e da indiferença diante dos Elementos, a que ela não atribuía grande importância – quer chovesse, quer viesse a canícula do Estio, ela achava que o reumatismo e a melancolia não eram senão o resultado da preguiça portuguesa. Setenta ou oitenta anos depois reconheço que ela tinha razão, porque apetece enfrentar o temporal em benefício da paisagem. Tal como os grandes amores de outrora, a paisagem é um bem inestimável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 27 Fevereiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4302948451417392563?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4302948451417392563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4302948451417392563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/02/chuva-de-moledo-e-os-amores-de-outrora.html' title='A chuva de Moledo e os amores de outrora'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4559194599973906624</id><published>2011-02-20T16:32:00.001-01:00</published><updated>2011-02-20T16:35:11.734-01:00</updated><title type='text'>A felicidade à vista de Moledo</title><content type='html'>A chuva de Moledo, que é um empréstimo da vizinha Galiza, com os seus tons de cinza e verde, foi interrompida pela Dra. Celina, que veio devolver um exemplar de ‘Onde Está a Felicidade?', uma edição de 1885 que passou de estante em estante até aterrar nesta, diante da minha mesa, definitiva. Eu tinha-lho emprestado em troca de uns fac-símiles de António Pedro. O livrinho de Camilo é, no fundo, uma espécie de metáfora acerca dos males e dos bens do mundo, e a pergunta do título faz sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esta idade, deitando-me cedo, despertando ainda com o silêncio da madrugada, não me chega o tempo de pensar no assunto - a felicidade é uma matéria para noctívagos, se me faço entender: ou seres românticos que deambulam debaixo do "plúmbeo céu", ou poetas que herdaram o génio duvidoso daqueles versejadores do constitucionalismo que compunham sonetos nas secretarias das repartições e dos tribunais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Ester, minha mãe, desconfiava do tema; ela acreditava no poder regenerador do Verão, do iodo administrado sem barreiras e dos romances de aventuras - e teve a sorte de não conhecer João de Lemos e o seu poema ‘A Lua de Londres' onde vêm esses versos fatais: "É noite. O astro saudoso/ rompe a custo um plúmbeo céu,/ tolda-lhe o rosto formoso/ alvacento, húmido véu, etc." O velho Doutor Homem, meu pai, glosava as décimas do poema com trejeitos de sátiro, imitando o Eusebiozinho de ‘Os Maias', vestido de veludo e transpirando de febre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma razão para João de Lemos ser conhecido paredes dentro - tinha nascido na Régua e o meu avô, como administrador de quintas do Douro, coleccionava excentricidades; por isso guardava um exemplar amarelecido de ‘Serões da Aldeia', um dos mais funestos livros de prosa do século XIX (de poesia, o meu avô apenas manteve contactos com Guerra Junqueiro por motivos agrícolas - ou para contemplar os bucólicos laranjais de Barca d'Alva). Bulhão Pato diz que ‘A Lua de Londres' foi composto por causa das saudades que o vate da Regeneração, estando na capital inglesa, sentiu "do choupal sussurrante e estrelado de pirilampos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, a chuva de Moledo interrompeu-se por instantes. Não é uma chuva romântica; cai sobre os pinhais e lembra encontros fugazes com a felicidade, despedidas sem sentido, ruínas de muros atrás das dunas, passeios que enfrentam as intempéries. Dona Elaine, a governanta deste eremitério, recomendou que aproveitasse a interrupção no temporal para fazer a minha pequena caminhada. Ela sabe que a felicidade são pequenas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 20 Fevereiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4559194599973906624?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4559194599973906624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4559194599973906624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/02/felicidade-vista-de-moledo.html' title='A felicidade à vista de Moledo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5848747382711132151</id><published>2011-02-17T23:36:00.003-01:00</published><updated>2011-02-17T23:44:31.518-01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Livros'/><title type='text'>O novo livro de Crónicas</title><content type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-ZMlyLS1dZ28/TV2_Wi-_yFI/AAAAAAAAABE/swp3_rIPRVo/s1600/ASH.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 206px; FLOAT: left; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5574822307823601746" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-ZMlyLS1dZ28/TV2_Wi-_yFI/AAAAAAAAABE/swp3_rIPRVo/s320/ASH.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de «Os Males da Existência – Crónicas de Um Reaccionário Minhoto», em 2008, António Sousa Homem está de regresso com «Um Promontório em Moledo - Crónicas de um Reaccionário Minhoto», também editado pela Bertrand.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O meu médico de Viana (a quem recorro nas aflições, e que vigia o temperamento das coronárias e do fluxo renal) não o diz, mas sei que a longevidade dos Homem o aflige como um milagre da província. O segredo é só este: espremer a pasta de dentes pelo fundo, não ler demasiados romances, manter os retratos dos antepassados, levantar cedo e evitar ceder à indignação. Depois de fazer oitenta e cinco anos, já lá vão uns tempos, a família trata-me como uma página do álbum de glórias, anterior ao Titanic, destinado ao naufrágio ou ao museu. Faço o que posso, só para não os desiludir."&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5848747382711132151?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5848747382711132151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5848747382711132151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/02/o-novo-livro-de-cronicas.html' title='O novo livro de Crónicas'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-ZMlyLS1dZ28/TV2_Wi-_yFI/AAAAAAAAABE/swp3_rIPRVo/s72-c/ASH.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4181569885397378300</id><published>2011-02-13T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-02-13T00:10:00.161-01:00</updated><title type='text'>O Antigo Egipto era uma falsificação</title><content type='html'>O mundo do meu avô estava delimitado por dois perigos iminentes: a filoxera e as encostas de La Fuente de San Esteban. A filoxera arruinou o «antigo regime» do Douro; quanto a La Fuente de San Esteban e a La Fregeneda, era a sua fronteira com o desconhecido – a Espanha do seu tempo, que era muito mais do que a galega, vizinha de Valença, do rio Minho e dos choupos verdes de Cerveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, os perigos iminentes aumentaram; o mundo ficou mais inseguro se bem que o desconhecido não comece em Espanha nem acabe nos Urais, onde principiaria o fim do mundo. O meu sobrinho Pedro acompanha os acontecimentos do Egipto como se fossem, em simultâneo, a filoxera e as encostas de La Fuente de San Esteban; só que «em simultâneo» quer dizer, exactamente, «ao mesmo tempo» em que os «acontecimentos» decorrem, o que impede a repetição da forma como o velho Doutor Homem, meu pai, gostava de ministrar as suas lições de História dos Impérios a propósito da II Guerra, que seguíamos com vários dias de atraso pelos jornais da época e pelos noticiários da rádio, encostados a uma pilha de velhos atlas e tratados de geografia e, mesmo, com plantas topográficas de certas cidades importantes. Nesses papéis impressos em cores esbatidas, recolhidos das bibliotecas familiares onde tinham sido guardados com o esmero de tesouros do Vaticano, traçavam-se coordenadas de geoestratégia e movimentações de tropas em debandada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu sobrinho escutou estas informações com a curiosidade de um paleontólogo, murmurou qualquer coisa acerca de como o tempo passa e apressou-se a mudar de canal de televisão, procurando mais imagens transmitidas do Cairo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando atrás sessenta anos, o Cairo era um oásis de recordações. Não vinham com o Cairo apenas o Alto Egipto, as ruínas do deserto e o fim do império otomano. Vinha também um esplendor que não era bem do Cairo mas dos ingleses que o habitaram. Sabíamos pouco desse mundo de aventura, mistério, exotismo, crocodilos e malária; as pirâmides estavam ali para que as admirássemos, os sarcófagos continham faraós ou sacerdotes que tratávamos como achados arqueológicos, o Nilo era um espelho cristalino das suas margens, e mesmo o Suez era uma recordação literária de Eça de Queirós. A única coisa que não topávamos era essa verdade simples – a de o Egipto ser, largamente, habitado por egípcios e não por historiadores que gostavam de ruínas e de cidades cobertas de pé e personagens de Agatha Christie. O nosso mundo era curto, civilizado e cabia num atlas. Não tinha grande correspondência com o mundo real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 13 Fevereiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4181569885397378300?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4181569885397378300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4181569885397378300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/02/o-antigo-egipto-era-uma-falsificacao.html' title='O Antigo Egipto era uma falsificação'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1658862084354385570</id><published>2011-02-06T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-02-06T00:10:00.073-01:00</updated><title type='text'>As pessoas que queriam desaparecer</title><content type='html'>O tio Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos, “desaparecia de circulação” temporária e periodicamente. O convívio com o género humano não lhe era prejudicial, propriamente dito, nem lhe causava doenças imperscrutáveis; simplesmente, várias necessidades o afligiam e não tivemos conhecimento de todas. Passava a maior parte do ano a dedicar-se à actividade que lhe garantia uma administração razoável da sua conta bancária, e dedicava um período decente a “desaparecer da circulação” – o que significava que seria surpreendente receberem-se notícias da sua existência durante esses dois meses, uma média compreensível e aceitável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ritmo só era possível porque lhe faltavam outros bens, nomeadamente uma família para manter e um emprego regular, sujeito à lei geral. Os Homem habituaram-se, desde que perceberam que o regime tinha mudado definitivamente (o que aconteceu há cento e cinquenta anos, mais ou menos), a cumprir a lei mais do que todos os outros; isto garantia-lhes sossego e paz civil, ausência de fiscais e meirinhos à porta dos seus refúgios, e distância em relação a credores. Por mais aziagos e tumultuosos que fossem os tempos, havia uma barreira de incomunicabilidade entre a família e o resto do mundo (normalmente confundida com certa e inegável misantropia). Isto, salvo erro, garantia certa liberdade de movimentos. Desde há cento e cinquenta anos, por arredondamento, que os Homem “desapareceram da circulação”. Vão à farmácia, recebem telefonemas, frequentam a praia, pagam generosamente os impostos, mantêm boas relações com conhecidos e, sobretudo, com desconhecidos – mas sentam-se nas filas do meio, perto das coxias de saída. Tentei explicar esta “filosofia” à minha sobrinha Maria Luísa, prevenindo-a de que, logo por detrás, está um certo “complexo de superioridade”, garantido por anos de sobrevivência no anonimato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É decerto um exagero. O velho Doutor Homem, meu pai, recordava a forma como a Tia Benedita – matriarca e guardiã da família, em simultâneo – olhava para o assunto: com indiferença. Os muros do casarão de Ponte de Lima não tinham fosso a resguardá-los; limitavam-se a acompanhar a floração das rosas de Santa Teresinha durante o mês de Maio e a advertir a populaça familiar de que estava tudo muito bem mas evitassem dar vivas à República. Com o tempo, fomos apreciando pantomineiros. Na política, na literatura, na vida pública – mas nunca passaram de pantomineiros. Eles sim, estavam (e estão) em circulação. É um grande cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;in Domingo - Correio da Manhã - 6 Fevereiro 2011&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1658862084354385570?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1658862084354385570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1658862084354385570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/02/as-pessoas-que-queriam-desaparecer.html' title='As pessoas que queriam desaparecer'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2428621553692512187</id><published>2011-01-30T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-01-30T00:10:00.384-01:00</updated><title type='text'>Elogio das coisas que eram o que foram</title><content type='html'>Por que razão me interessam os livros velhos, as ruínas de Venade, as montanhas que oscilam sobre Moledo? Por nada. Habituei-me a eles. Tal como os livros velhos e os autores clássicos, as paisagens emudecem-me ao crepúsculo e preparam-me para o dia seguinte. Os portugueses não pensam assim: têm uma repugnância democrática e perliquiteira pelo “velho” e pelo “antigo” como se o tempo transportasse consigo o vírus que alimenta todas as maldições. Se um ministro desses, que agora aparecem na televisão, anunciasse uma estrada que arrasasse pinhais, maciços de granito coberto de musgo, muros cobertos de hera, prados de mimosas adocicadas, a multidão pensaria – antes de mais – no “progresso”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, no ‘Daily Telegraph’ (um hábito que o velho Doutor Homem, meu pai, alimentou e que ainda se mantém aos Sábados no eremitério de Moledo), li que as populações de um ‘county’ não estavam na disposição de ver passar um novo comboio “a alta velocidade” no meio dos prados onde nada crescia a não ser a vegetação que lembrava a paisagem do ‘Monte dos Vendavais’. A casmurrice explicava-se apenas por isso: porque a paisagem lhes pertencia, e não aos engenheiros que iriam fabricar um comboio que iria encurtar a distância de 300 quilómetros em vinte minutos. Vinte minutos, digamos, é o tempo que demoram apenas vinte minutos: um naufrágio em dia de tempestade, uma vaga de chuva que vem e passa – e a paisagem demora anos a formar-se. Um livro demora anos e anos a envelhecer e a provar que resistiu a décadas de poeira e crises do gosto. As ruínas entre os carvalhos de Venade ou os recôncavos onde poisam as neblinas de Caminha são o resultado de séculos de espera. O próprio crepúsculo diante da beleza frugal e sombria de Santa Tecla, atravessado por tanta boa e má poesia regional (segundo me disseram), é obra de um tempo que não cessa de comover-me. Diante disto, os portugueses falariam do “progresso”, como de uma inevitabilidade carregada pelo desinteresse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez esteja velho não apenas por isso resumir os cuidados do meu médico de Viana; há também um mundo que já não entende a necessidade de coisas velhas, antigas, coroadas pelas paisagens e pelas palavras que explicavam a ordem das coisas. A minha sobrinha Maria Luísa diz que eu tenho razão no que digo, mas que são muitos maus hábitos a sobreporem-se uns aos outros, formando uma barreira incómoda, que torna irreconhecível a face da terra. Pode ser. O tempo passa sobre homens e mulheres que eram como Ulisses e Penélope. E que repetem a sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 30 Janeiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2428621553692512187?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2428621553692512187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2428621553692512187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/01/elogio-das-coisas-que-eram-o-que-foram.html' title='Elogio das coisas que eram o que foram'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1874837235387210088</id><published>2011-01-23T16:53:00.002-01:00</published><updated>2011-01-23T16:56:51.753-01:00</updated><title type='text'>Estamos melhor hoje ou ontem?</title><content type='html'>Periodicamente, a Tia Benedita lamentava-se sobre o andamento das coisas do mundo e, como qualquer contabilista de Viana, fazia os seus balancetes e resumos de exploração. A linguagem cabe no deve e haver de um comerciante que cuida da sua "escrita" mas talvez – penso nisso a esta distância – fosse absurda no caso da matriarca dos Homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a Tia Benedita, entusiasmada pelos ardores do Verão e pela presença da família, numerosa, barulhenta e descuidada, o passado tinha uma inultrapassável vantagem sobre o presente: já não lhe dava cuidados. Matreira e esfíngica, como uma mulher do Minho, ela sabia que nos ludibriava com as suas lamentações de um Job feminino e austero; de entre o auditório, três ou quatro (entre eles, o velho Doutor Homem, meu pai) sorriam ao discurso sobre o estado do mundo. Ela tinha a certeza de que o mundo não seria diferente; a assembleia, entretida e cabisbaixa com as migalhas do bolo de mármore, pensava que um pouco de melancolia não ficava mal naquela cena familiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que o tempo sucede rapidamente ao tempo que passa. Mal se dá conta. A sua velocidade cansa, mais do que distrai. Para a Tia Benedita, como para Espinosa (que ela identificava como um maçon holandês) ou para o próprio Job, o lamento era mais uma figura de estilo. Estamos melhor hoje ou ontem? Os vagos miguelistas da família, que de tempos a tempos abriam os armários nos Arcos, em Ponta da Barca, nas margens de Valença, no casarão de Ponte de Lima, sabiam a resposta: estariam melhor ontem. Havia uma ordem entre as ruínas, a idade ainda não fora maculada pela angústia das doenças e pela dor das despedidas, o mundo tinha fronteiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses estariam melhor antes ou depois do 25 de Abril?, perguntavam os sociólogos na semana passada. A minha sobrinha Maria Luísa acha a pergunta estapafúrdia, tão útil como saber a cor da casaca do Menino Jesus da Cartolinha (que é verde). E queixa-se: que "as pessoas são ingratas". Ela supõe que o mundo tem uma explicação positiva, tal como a Tia Benedita, que preferia o passado pela simples razão de que já não lhe dava preocupações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa fica melancólica nestas ocasiões, como se o mundo se tivesse portado mal e desobedecido a um imperativo moral. Recolhe-se e fica ciumenta, e creio que sonha com a felicidade. Tentei explicar-lhe a forma como o Tia Alberto, bibliófilo de São Pedro de Arcos, encarava as coisas – o grande segredo é confiar no tempo. Há-de haver um tempo. Mesmo que seja um tempo passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 23 Janeiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1874837235387210088?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1874837235387210088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1874837235387210088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/01/estamos-melhor-hoje-ou-ontem.html' title='Estamos melhor hoje ou ontem?'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-9014190433890459594</id><published>2011-01-16T16:51:00.001-01:00</published><updated>2011-01-23T16:56:13.972-01:00</updated><title type='text'>Um mundo em que não há limites</title><content type='html'>O velho doutor Homem, meu pai, temia ser confidente de pessoas que tivessem sofrido para além de certo limite (ele sabia que o género humano, na iminência de pisar esse risco, sente orgulho na dor que exibe) – com o argumento de que não era possível garantir que tamanha dose de sofrimento fosse verdadeira, sobretudo num mundo que tem gosto em maravilhar-se com o riso dos alarves. Penso, hoje, que ele teve sorte em não ver televisão. Ao contrário do que pensam certas pessoas bem-educadas, mas desajustadas em relação ao que se passa no mundo, a televisão não pode ser de outra maneira. O riso dos alarves conquistou o mundo, espalhou-se por todos os cantos como um gigantesco aparelho de televisão – e fala de prazer, como uma exigência que tem ares de figurar nas certidões de nascimento ou garantida como o direito de voto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me, por isso, da velha e manhosa sabedoria dos Homem, quando calha estarem entretidos em comentários sobre a vida alheia (uma distracção só permitida paredes dentro e no recato da sala de jantar ou na varanda do velho casarão de Ponte de Lima), e da severa advertência patriarcal diante de juízos sobre adultérios, infidelidades, questões amorosas e outras falhas da intimidade: "Disso não se fala, é com cada um." A ideia é generosa, mas também defensiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste como em outros assuntos é bom observar que a destreza social diminui bastante com a idade e nunca se sabe o que se pode esperar de um velho, a quem se perdoam a falta de memória, os achaques de Primavera ou as idiossincrasias na política ou na literatura. A exibição da dor e das chagas pessoais, o interesse doentio pela miséria alheia, a felicidade diante das sombras – não é preciso grande "destreza social" para compreender que as regras mudaram muito e que a televisão multiplica por várias parcelas os defeitos de carácter do cidadão comum. Mata-se com bastante facilidade, é-se corrompido com desvelo e sentido da concupiscência, mente-se e desmente-se sem remorso, sentimento de culpa ou apenas vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso da morte do "cronista social" em Nova Iorque é um desses sintomas; não pelo crime em si mesmo, porque o horror e a violência se repetem como uma desgraça que periodicamente vem relembrar a nossa natureza. Mas pelo que se comenta a propósito e pelo que vamos sabendo acerca da desmoralização do mundo. Para uns, o mundo falha redondamente; para outros, o Inverno será relembrado por mais isto; para outros, o movimento dos planetas continua a provar que não há limites. E é isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 16 Janeiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-9014190433890459594?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/9014190433890459594'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/9014190433890459594'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/01/um-mundo-em-que-nao-ha-limites.html' title='Um mundo em que não há limites'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6043402919591063899</id><published>2011-01-09T16:09:00.001-01:00</published><updated>2011-01-09T16:12:29.552-01:00</updated><title type='text'>Breve elegia para o mês de Janeiro</title><content type='html'>Entretenho-me, por vezes, a ver fotografias de Moledo nos anos trinta, quarenta e cinquenta (os anos sessenta constituem uma inexplicável quebra na minha reserva de nostalgia) – quando eu tinha a idade de apreciar Moledo por aquilo que Moledo era: um cenário de filme italiano ou francês, romântico, a preto e branco, com os velhos automóveis estacionados diante da praia. Um deles seria o de minha mãe, Dona Ester, que teria acabado de lançar os seus filhos no areal, aguardando a finíssima neblina do entardecer, tépida e rescendendo a aromas saudáveis, ao sal empurrado pelo vento, aos mistérios do iodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando penso nesses anos estabeleço um contraste, não com a minha idade de hoje, pouco apresentável, mas com a que marcou o início da velhice; havia, na época, problemas de hipertensão que se curavam com o cheiro da resina dos pinhais à volta das dunas, desequilíbrios respiratórios que se diluíam com o magnífico solário que o Verão dispunha entre as barracas da praia, depressões desconhecidas que não chegavam a ver a luz do dia devido ao uso da água fria que atravessa os bancos de areia e os rochedos da Ínsua. Tratava-se de uma medicina irregular e estapafúrdia, radicalmente homeopática, que não transigia com os aparelhos que hoje medem a tensão arterial, com as pílulas para desconchavos renais ou para males de fígado, ai de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de considerar – porque há factos indesmentíveis na nossa biografia médica – que a minha vida estava em risco permanente, a partir dos setenta, eu achava que era a beleza natural de Moledo que me impedia de morrer. O velho Doutor Homem, meu pai, que era um ser urbano e cosmopolita – ainda que solitário – escapava da morte refugiando-se em Ponte de Lima, onde boa parte dos seus ancestrais tinham sido enterrados, entre ciprestes frondosos e canteiros coloridos; no meu caso, olho – em busca de oxigénio – os pinhais e um resto de arvoredo minhoto, tal como Dona Ester, minha mãe, nos despejava nas praias do Minho na esperança de acumularmos saúde para os dias futuros e os tempos aziagos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de certa altura, a vida é um risco inacessível, uma espécie de passeio na falésia. Vigiamos indicadores tão vagos como a espuma das ondas, temos certezas tão inóspitas como a meteorologia de Inverno. Um pouco de tranquilidade assenta no calendário como uma promessa de paz. Janeiro, por isso, é um mês de pousio e de elegância. Uma vaga paragem no tempo, a partir da qual não há previsões nem dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 9 Janeiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6043402919591063899?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6043402919591063899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6043402919591063899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/01/breve-elegia-para-o-mes-de-janeiro.html' title='Breve elegia para o mês de Janeiro'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7860791026652326271</id><published>2011-01-02T00:10:00.000-01:00</published><updated>2011-01-02T00:10:00.144-01:00</updated><title type='text'>A crise, duradoura e cruel como sempre</title><content type='html'>Diz-se que o meu avô, administrador de quintas no Douro, regressou nesse ano mais circunspecto da sua viagem a Barca d’Alva. Estávamos antes do regicídio. O seu poeta, Guerra Junqueiro, convencera-o de que “a crise” seria duradoura e cruel. A Quinta da Batoca, nos limites do mapa de Portugal, recebia em primeira mão os ventos de Espanha e as notícias de La Fregeneda (a primeira das aldeias) mas os oráculos do poeta soavam sempre mais alto. O velho Doutor Homem, meu pai, atribuía essa relação entre o seu pai e o autor de ‘A Velhice do Padre Eterno’ (o livro nunca entrou nas estantes de Ponte de Lima mas havia um exemplar na casa do Porto) à estada do poeta em Viana do Castelo, onde se tomou de amores pelo Minho, pelas ruas da cidade e pelo mar do Norte. A seu ver apenas isso desculpava o “desvio ideológico” e a amizade que se formou entre aquelas duas almas destinadas a visitarem-se periodicamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “crise” da época era, como mais tarde se dizia, durante a II Guerra, “a falta de víveres”. Dona Ester, minha mãe, atravessou-a com heroísmo e dedicação, e todos pudemos sobreviver. Não voltou “crise” assim. Depois do 25 de Abril “a falta de víveres” ocorreu aqui e ali, mas o Minho, se não era o celeiro da Pátria, estava perto de Espanha e tinha hortas suficientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Homem não são gente rica. Não o eram no “velho regime”, não o foram durante o constitucionalismo e, seguramente, não o foram durante a República. Poderiam ter sido, não fosse a casmurrice dos antepassados da tia Benedita, exemplares do “liberalismo portuense”, burgueses de Cedofeita, governadores civis ou putativos ministros do reino. Mas a casmurrice falou mais alto; velhos fidalgos dos Arcos, de Ponte de Lima, de Viana ou, mais prosaicamente, dos arredores de Braga, temiam o apocalipse, que viria com os pândegos do príncipe brasileiro ou com o jacobinismo dos advogados do Porto. Resistiram e trabalharam para sustentar a sua solidão política, um vício honrado e caríssimo, hoje como ontem. As “crises” passaram por eles como uma ventania do mar do Minho. Observavam-nas de perto, mas protegidos pela parcimónia e pela mediania, num país que detesta a parcimónia e a mediania. Quando as burguesias do Porto (e do resto do país) ostentavam o carmesim da sua fortuna e do optimismo das suas revoluções, a velha família contentava-se com as sestas à sombra dos pinheiros dos Arcos de Valdevez e com a biblioteca de Ponte de Lima. Tínhamos aprendido que a “crise” seria duradoura e cruel. E permanente. Ainda cá está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 02 Janeiro 2011&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7860791026652326271?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7860791026652326271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7860791026652326271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2011/01/crise-duradoura-e-cruel-como-sempre.html' title='A crise, duradoura e cruel como sempre'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7800493851100787960</id><published>2010-12-19T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-12-19T00:10:00.670-01:00</updated><title type='text'>A temível busca da perfeição</title><content type='html'>Fui, outrora, por certo noutra vida mais luminosa, uma espécie de geógrafo. Durante os meus primeiros anos no eremitério de Moledo cuidei que podia – a vaidade é infinita – organizar um “guia do Minho”. Muitos anos de leitura do ‘Minho Pittoresco’ e de romances de Camilo tiveram essa consequência, logo combatida ou nunca levada à prática. A principal razão, evidentemente, teve a ver com a preguiça, um motor essencial da história humana e, claro, da minha biografia. Mas houve um motivo muito mais perverso que me levou a abandonar o projecto; por mais documentação que reunisse, por mais opúsculos, almanaques, cartas topográficas, estampas, tratados que armazenasse naquela divisão a que, por comodismo, se chama “a biblioteca” – não atingia aquele módico de satisfação que me levasse, depois, a escrever qualquer coisa de útil para um punhado de leitores, fosse ele grande ou minúsculo. Mas creio que seria minúsculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntamente com a preguiça, esta forma de vaidade e de luxúria, que é a “busca da perfeição”, aniquilou a ideia e contribuiu para o sossego dos leitores; nem tudo foram desvantagens. Alguma coisa se lucrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A “busca da perfeição” é um dos pecados capitais da humanidade. Fugi a todos os casamentos ideais porque nenhum deles seria perfeito; rasguei alguns magros capítulos desse “guia do Minho” porque nenhum deles era perfeito; usei sempre com abundância e manha essa desculpa vaidosa que me afastou do risco e da responsabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me disto porque a minha sobrinha Maria Luísa quis conhecer São João de Arga. A Serra de Arga, erguendo-se sobre Caminha e Âncora, é um dos lugares mais perfeitos das minhas peregrinações minhotas, e a pequena sebe de azevinhos que hoje decora a casa de Moledo veio de uma das colinas mais altas do lugar. Se há perfeição absoluta é esta, a dos cumes do meu Minho, aproximando-se das velas do céu. O velho Doutor Homem, meu pai, não perdoaria o devaneio literário – mas Maria Luísa surpreendeu-se com a penedia isolada e robusta que enfrenta as montanhas em redor. Eu limitei-me a perguntar como poderia descrever, se algum dia encetasse a tarefa de escrever um “guia do Minho”, aquela perfeição silenciosa, brutal e escondida das estradas nacionais. Grande parte do meu Minho, entendi então, é invisível. Ou então é inadequado ao alfabeto. A temível busca da perfeição é, afinal, uma desculpa para ficar sentado à espera que o Natal passe e não incomode esta preguiça congénita que tanto protegeu os Homem de outras gerações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 19 Dezembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7800493851100787960?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7800493851100787960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7800493851100787960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/12/temivel-busca-da-perfeicao.html' title='A temível busca da perfeição'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6892216907903582562</id><published>2010-12-12T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-12-12T00:10:00.534-01:00</updated><title type='text'>Páginas de pedagogia e contentamento</title><content type='html'>Antigamente, naqueles tempos execráveis, longínquos e comandados por Senhores das Trevas, ler, escreve e contar eram etapas fundamentais da vida de qualquer adolescente (temo, nestes tempos modernos, emprestar essa qualidade às crianças, ocupadas que estão a pintar cadernos, a colorir manuais escolares e a martelar nas teclas dos computadores). Enquanto um ser humano não fosse capaz de enumerar três ou quatro reis da primeira dinastia (distinguindo os Afonsos dos Sanchos), escrever um ditado sem ser humilhado pela rasura dos erros ortográficos, fazer uma redacção sobre as estações do ano, apurar um número a partir de uma operação de multiplicar ou de dividir, e saber distinguir um paralelepípedo das pirâmides de Gizé — não era, claramente, um “ser humano”. Estas operações simples revestem-se, afinal (aprendi-o recentemente), de um terrível obscurantismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O governo da República, que devia ocupar-se de assuntos de primeira grandeza, festejou esta semana “os resultados” das mais recentes operações estatísticas do nosso ensino, feliz com o reconhecimento de que os nossos laboriosos infantes subiram uns degraus numa escala que o País se encarregou, laboriosamente, de falsificar com antecedência. Parece que há menos chumbos nas escolas; parece-me natural: os meus sobrinhos-netos não sabem soletrar a tabuada e passaram de ano, estando neste momento — parece — a caminho de um doutoramento aos dez ou onze anos. Folheando os seus manuais de História também me dei conta de que se parecem com as estampas que ocuparam o Verão dos seus pais, há muitos anos, e pelos quais — aos doze anos — não se aprende que D. Duarte era filho de D. João I.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um velho reaccionário sentado na varanda de Moledo não devia ocupar-se destes assuntos. A Pátria passa bem sem ocupar-se dessas minudências. Interessam, antes, as estatísticas (uma forma de mentir com relativa qualidade). O mais chocante, porém, não é a irrelevância das estatísticas; é, antes, o contentamento de ministros, directores, educadores, satisfeitos por saberem que a ignorância foi festejada com louvor estrangeiro e com aquela selvagem inconsciência que se espelha na suas declarações sorridentes. Chego a esta idade convencido — à força — de que a Pátria vai bem, estimável e pacóvia. O velho Doutor Homem, meu pai, considerava que a educação dos seus filhos (éramos cinco) competia à ordem estabelecida dentro das paredes de casa. Con&amp;shy;vinha que tivessem boas digestões, bom carácter, e fossem deixados ao arbítrio das coisas — para que aprendessem, pelo menos, a fazer contas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 12 Dezembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6892216907903582562?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6892216907903582562'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6892216907903582562'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/12/paginas-de-pedagogia-e-contentamento.html' title='Páginas de pedagogia e contentamento'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8981401582892480427</id><published>2010-12-05T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-12-05T00:10:00.833-01:00</updated><title type='text'>Um segredo perdido: a contemplação</title><content type='html'>O meu avô Alfredo era avesso a sistemas filosóficos, porque o único papel que conhecia, além dos livros de contabilidade, pautados pelo sistema antigo (à mão), e dos versos de poetas lúgubres, bucólicos ou vagamente patrióticos, era o da correspondência comercial, desenhada à mão, com tinta inglesa, ou dactilografada sem rasuras. A sua ideia de “correspondência comercial” era tão vaga e heterogénea que daria para uma antologia de todos os géneros literários, se lhe retirarmos os conselhos sobre a época das vindimas, o comércio dos citrinos e a acumulação de miolo de amêndoa. Eram cartas longas, algumas, precisas e económicas outras, consoante a disposição, a meteorologia e as necessidades, nunca perdendo de vista a divisa irónica do Padre António Vieira, que pedia desculpa por as cartas irem compridas – porque não tivera tempo “para a pôr mais curta”. Numa mala de porão que antigamente serviu para viagens a bordo do paquete ‘Niassa’ e hoje serve de poiso a todas as centelhas de pó de Moledo, está recolhida essa valiosa “correspondência comercial”. Numa das cartas menciona a necessidade de apressar um casamento; noutra, depois de considerar que determinado banco era o melhor para “investimentos africanos”, recomenda o uso de linho mourisco tingido, e não do galego, para os estofos de uns cadeirões na Quinta do Vezúvio; há numerosos comentários à política britânica, ao costumes da época (que o atormentam mas não o comovem) , ao vício de falsificar vinhos e até à qualidade das águas das Caldas de Moledo, na Régua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os negócios – o seu trabalho de estimável e consciencioso contabilista e guia para investimentos – eram um veículo, como qualquer outro, para se relacionar com o seu tempo. A excepção era Guerra Junqueiro, em cuja Quinta da Batoca pernoitou várias vezes, nos limites de Barca d’Alva. O velho Doutor Homem, meu pai, nunca compreendeu a ternura que o seu pai, administrador de propriedades, votava àquele homem radical, republicano e vagamente proudhoniano. Sobretudo não entendia a dedicação a uma gasta edição da ‘Velhice do Padre Eterno’, de onde sobressaía ‘O Melro’, um poema que lhe suscitava riso mais do que admiração. Só o compreendi depois de ter visitado Barca d’Alva e de ter imaginado os dois solitários, sob a protecção da Serra do Roboredo, observavam o Douro e comentavam a colheita da azeitona, a chegada do Inverno ou dos crepúsculos do Verão abrasador do vale. Era esse o seu sistema filosófico: contemplar. É um segredo que hoje se perdeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 5 Dezembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8981401582892480427?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8981401582892480427'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8981401582892480427'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/12/um-segredo-perdido-contemplacao.html' title='Um segredo perdido: a contemplação'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1976948958304545586</id><published>2010-11-28T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-11-28T00:10:00.194-01:00</updated><title type='text'>Antecipando o Natal, com ironia</title><content type='html'>Chegados a Novembro, o velho Doutor Homem, meu pai, achava que o ano tinha terminado. Dezembro era um mês pedido emprestado ao novo futuro, não porque passasse três semanas a congeminar as festas natalícias – a que ligava pouco – mas porque o enervava a hiperactividade dos outros. Como nós sabíamos, ele recolhia-se em Novembro e só saía desse período de hibernação quando a vida voltava ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não viveu este tempo em que as festas de Natal começam na primeira quinzena de Novembro, com uma musicalidade irritante ferindo os ouvidos dos transeuntes ou, apenas, assaltando os ouvintes de rádio. Já se sabe que “o ataque ao Natal” é uma guerra impopular e perdida desde o começo; mas não custa nada relembrar que a prosperidade comercial da quadra natalícia é uma das doenças contemporâneas mais cruéis: à medida que “a quadra” se alarga, como as margens de um pântano musical, feérico, colorido, cheio de sinos tiritando às primeiras geadas, mais significado perde o Natal propriamente dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ano, as minhas irmãs anunciaram que, mal se aproxime o Natal, partirão para temperaturas mais amenas. É uma decisão que contraria o bom-senso, mas que se compreende à luz do cansaço do Natal, uma epidemia que antecede a data e a assassina a golpes de fealdade. A imagem do velho Natal de província, adocicado pela lembrança do musgo, do orvalho, da neve, da mirra e do incenso, das ceias familiares, é um quadro contemporâneo da construção do Titanic. Depois de assinalar o nascimento de Cristo, o Natal passou a ser “a festa da família”, o que nos baralhou as contas uma vez que os Homem organizam a sua festa em pleno Verão, desabrigados e acalorados, entre limonadas e vinho verde de Ponte de Lima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, poupou-se a tudo isto. Reunida a bibliografia, escolhidos os discos e arrumada grande parte dos assuntos profissionais, encarava Dezembro com a leveza de um irresponsável que vê o Natal aproximar-se sem sentir o temor da data nem a reverência pelas reuniões familiares, em tardes de dias feriados passadas diante da lareira e terçando armas consoante os assuntos do momento. Suponho que este ano lhe seguirei os passos. Enquanto as minhas irmãs fogem para o Sul, procurando um lugar onde não haja sinos e promessas de presentes perdulários, eu irei recolher-me à biblioteca (o nome que em casa se dá ao armazém de livros que a minha sobrinha declarou ‘zona interdita’ a estranhos) aguardando a chegada da procissão familiar. Cumprirei o meu dever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 28 Novembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1976948958304545586?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1976948958304545586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1976948958304545586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/11/antecipando-o-natal-com-ironia.html' title='Antecipando o Natal, com ironia'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1782963386414414034</id><published>2010-11-21T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-11-21T00:10:00.669-01:00</updated><title type='text'>Uma história natural das fronteiras galegas</title><content type='html'>Depois da abertura das fronteiras, a Galiza ficou mais próxima, como me advertem os especialistas em tudo. Não vejo nisso vantagens incomparáveis – a Galiza, a terra de D. Álvaro Cunqueiro, de D. Ramón Otero Pedrayo ou da Filarmónica do Lugo ficava bem assim, tremenda e negra, escura, do outro lado do Minho, com os seus polícias de tricórnio, as suas lojas de ‘Ultramarinos’, as livrarias húmidas e eruditas de Santiago de Compostela, o seu linguajar constante e rouco, perfumado de maus tabacos e de cafés de contrabando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto, não vejo grandes vantagens em não fazer aquela amável pausa entre Valença e Tuy para sinalizar a existência de uma fronteira. A província magnífica foi, ao longo dos anos, um gigantesco ‘mesón’ onde os Homem de várias condições se apresentavam cheios de apetite e de um vasto anedotário historiográfico capaz de fazer indignar a corte de Madrid. Mas não era por mal, nunca foi por mal – pelo contrário, havia na travessia das fronteiras um acto de amor quase apaixonado, subtil, picuinhas, dedicado, matreiro. Ir à Galiza, depois da abertura das fronteiras, passou a banalizar não só a Espanha como, também, a Galiza como refúgio de portugueses que “iam ao estrangeiro”. A Galiza deixou de ser “estrangeiro” sem passar, em simultâneo, a ser “a mesma terra” – porque nos separam coisas triviais ou profundas que sempre nos devem continuar a separar para que mantenhamos, precisamente, a vontade de atravessar a fronteira para ir à Galiza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Moledo até lá, convenhamos, a distância é curta ou, mesmo, nenhuma. A olho nu, do promontório de Moledo, interpretado pela Ínsua, a Galiza é uma cidade vizinha e disponível para ser atravessada, em busca de silêncio nas montanhas, de anonimato nas ruas, de amêijoas de Villagarcía de Arousa ou de literatura em livrarias adormecidas numa Plaza Mayor para onde o Inverno acaba por transportar todas as neves de Astorga. Não me comove, pois, esse cosmopolitismo que tratou de abolir fronteiras como se, pelo gesto, transformasse o desconhecido em conhecido, o inacessível em acessível, o antigo em moderno. A minha Galiza é antiga – nela passeava-se D. Gonzalo Torrente Ballester nas ruas de El Ferrol e ouviam-se marchas de gaita e sanfona adaptadas das pautas líricas e patrióticas de Pascual Veiga. A fronteira nunca me incomodou. Estava lá, invisível sobre as montanhas de pinheiros e carvalhos de outras eras. Havia um vento galego que anunciava frio e uma corrente do sul que prometia chuva; tirando isso, tudo devia ser registado na fronteira para que soubéssemos que estávamos onde estávamos, sem mentirmos uns aos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 21 Novembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1782963386414414034?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1782963386414414034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1782963386414414034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/11/uma-historia-natural-das-fronteiras.html' title='Uma história natural das fronteiras galegas'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7639581800249188447</id><published>2010-11-14T13:45:00.001-01:00</published><updated>2010-11-19T13:46:57.383-01:00</updated><title type='text'>O crédito que temos no outro mundo</title><content type='html'>As “contas públicas” são, na família, um tema recorrente desde 1916. Foi nesse ano que um tio nosso, um lente de Direito, esteve umas semanas de Primavera ocupado a desenhar o plano de contas do governo dessa altura – e que, necessariamente, durou pouco. O meu avô foi condiscípulo de Domingues dos Santos, que viria a ser primeiro-ministro terminal da República, no Instituto Superior do Comércio do Porto; enquanto um se juntou à Maçonaria e ao bolchevismo, o meu avô cuidou da vida e fundou uma empresa de contabilidade e administração em que impôs a regra de não abrigar nenhum membro da família, para não que não se perdesse nem a empresa nem a família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as “contas públicas” foram, desde esse ano, debatidas periodicamente, sempre com o ressentimento do espoliados – os contribuintes. Não havia centavo ou escudo gasto pelo Estado que não tivesse, por parte dos Homem (seres domésticos, cordatos e de boas contas), a reivindicação de uma nota de crédito correspondente ao gasto. O segredo da boa contabilidade não era, explicava o meu avô, o correcto registo das despesas e das receitas, nem sequer das receitas a haver ou das despesas consentidas para um dado período – mas sim o aforro garantido para anos de desgraça, que viriam no futuro. Este princípio é seguramente tão reaccionário que não foi seguido por nenhum dos governos da democracia, contemporânea e companheira das instituições de crédito e do direito de todas as classes ao endividamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa anunciou na semana passada que deixará de usar cartão de crédito. Fê-lo sem solenidade, ao correr da conversa, aproveitando a torrente de notícias sobre o endividamento português, cuidando que, no meio de tantas dívidas e de tanto debate sobre o crédito, as suas pequenas nódoas passassem despercebidas. Isto aconteceu numa das visitas ao nosso restaurante preferido de Moledo, o Ancoradouro. A declaração de Maria Luísa compreende-se; faz parte de um plano divino para recuperar almas temporariamente perdidas nos escombros da vida moderna. Que eu o pensasse era uma coisa; mas dizê-lo foi um excesso. A doçura de um vinho antigo (um luxo semanal que o meu médico de Viana autoriza), a penumbra vespertina que entrava pelas janelas, o último sabor de uma sobremesa que tinha percorrido a mesa, fizeram o resto. Maria Luísa bebeu o que lhe restava do seu vinho do Douro e comentou: “Só temos crédito noutra vida, vai-me parecendo.” Ainda pensei em sorrir, mas poderia parecer ironia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 14 Novembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7639581800249188447?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7639581800249188447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7639581800249188447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/11/o-credito-que-temos-no-outro-mundo.html' title='O crédito que temos no outro mundo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5089645317407754385</id><published>2010-11-08T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-11-08T00:10:00.460-01:00</updated><title type='text'>As agruras do clima e o elogio da preguiça</title><content type='html'>O frio é um elemento de civilização, dizia o velho Doutor Homem, meu pai, que não conheceu as objecções contemporâneas à palavra “civilização”. A minha sobrinha Maria Luísa acha que o termo tem muito a ver com “a mania de os europeus se julgarem o centro do mundo”. Creio que isso se deve à existência de calor na Tailândia ou nas Caraíbas quando em Viana do Castelo ou em Colónia se pressente um inverno polar e rigoroso – e de nós valorizarmos mais a fina camada de geada nos pinhais dos Arcos de Valdevez do que as bagas de suor que esvoaçam em Singapura, nos sertões africanos ou à roda do Cairo. Acontece que o mundo do velho Doutor Homem, meu pai, tirado certas ocasiões de desacordo, se limitava à velhíssima Europa. Na família, além das recordações do Tio Henrique, o mais exímio e apaixonado dos instrumentistas de oboé de todo o Alto Minho – que sonhava com os grandes planaltos de África e suspirava pelas campanhas pelas savanas, picado pela malária ou atormentado pelo degredo –, só o meu tio Alberto, o bibliófilo de São Pedro de Arcos, podia dar-se ao luxo de viver fora deste mundo, ou seja, fora da Europa (ele namorava com uma princesa russa, como se regista nos álbuns de família). Mesmo assim, quando recebeu D. Camilo José Cela no seu refúgio das montanhas foi ovos com chouriço e sardinhas fritas que preparou ao escritor, para se vingar do desprezo a que D. Ramon Otero Pedrayo tinha sido sujeito. De modo que somos o que somos, e o nosso termómetro assinala variações conformes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio, justamente, regressou às nossas províncias – por um dia ou dois, é certo, e ainda sem a inclemência do Grande Inverno que descerá em breve das serras. Ele serve para nos avisar de que estamos de passagem de um ciclo a outro. Mal vinha a aragem de Outono, o velho Doutor Homem, meu pai, começava a cismar e, por vezes, remoía acerca de como a eternidade não é de fiar. O velho causídico era um maroto, como sabia toda a família – sob a capa faustosa e melancólica do filósofo de fim de semana, estava ali um sátiro que detestava o romantismo de fim de estação, tanto como as frases demasiado longas e encavalitadas. O frio acomodava-o e favorecia-lhe a preguiça a que se permitia depois das grandes refeições ou antes delas; permitia-lhe gozar longas horas de leitura enquanto chovia e os elementos se indispunham. Era o seu grande momento de civilização. Sem o dizer, era, no fundo, um elogio da preguiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 8 Novembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5089645317407754385?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5089645317407754385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5089645317407754385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/11/as-agruras-do-clima-e-o-elogio-da.html' title='As agruras do clima e o elogio da preguiça'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1429597264795608929</id><published>2010-10-31T17:53:00.001-01:00</published><updated>2010-10-31T17:55:25.419-01:00</updated><title type='text'>Sobre a modernidade e os mistérios do sexo</title><content type='html'>De entre as minhas poucas atribuições, ao longo da vida, nunca me calhou ter de reflectir sobre a educação sexual dos mais novos. Não o lamento. O assunto não oferece grande discussão na minha biografia recente, consagrada a envelhecer e, ao mesmo tempo, a manter relações razoáveis e amigáveis com a humanidade que habita nos arredores de Moledo – o que significa que vai além de Tuy e se aproxima da margem direita do Douro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Tia Benedita, que só conheceu a minissaia por ouvir dizer (a década de sessenta não foi muito cosmopolita entre os arvoredos e prados de Ponte de Lima), nunca discutiu assuntos morais; limitava-se a viver a sua vida. Já o velho Doutor Homem, meu pai, que era um cidadão discreto e muito ciente do seu terno com guarda-chuva, tinha na sua biografia vastas e prolongadas estadas em Paris e Londres – e se as ilhas britânicas eram a sua referência política para todos os males da pátria, é mais do que provável que pensasse em Paris quando a consciência lhe pedia que fizesse um resumo da sua devassidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, a devassidão deixou de ter aquele tom de subtileza amável que consubstanciava a expressão "vícios privados, públicas virtudes". Sempre me pareceu correcta a ideia de que os vícios teriam, necessariamente, de ser privados; a hipótese de serem praticados em público retirava-lhes não o, digamos, "picante", mas, vá lá, o "carácter". A expressão foi glosada durante as últimas décadas para mostrar que existe – uma descoberta desnecessária – hipocrisia no mundo. Acontece que também acho positiva e saudável a existência de um módico de hipocrisia e de coisas escondidas do comum dos mortais, nossos semelhantes. É isso, justamente, que faz de nós os seres perversos que, com grande felicidade, realmente somos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A educação sexual nas escolas parece-me uma moda herdeira dos anos de ouro do ié-ié, e é provável que fique. A "modernidade" acha que os velhos nunca ou só raramente falavam de sexo; dá-se a si mesma o crédito de ter descoberto coisas que existiam desde que Adão e Eva experimentaram o pecado. Desde esse momento só temos vindo a aprender, sempre a aprender, nem que seja a arte de fingir que estamos a aprender coisas novas sobre "os mistérios do sexo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade não aprendemos nada de realmente novo. Antigamente, estas matérias eram do foro privado, cobertas por manto de hipocrisia – e, melhor ainda, de fantasia. Para o domínio público reservávamos o mais enfadonho de nós mesmos, as virtudes. Era uma grande vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;In Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 31 Outubro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1429597264795608929?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1429597264795608929'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1429597264795608929'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/10/sobre-modernidade-e-os-misterios-do.html' title='Sobre a modernidade e os mistérios do sexo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7955025648408482231</id><published>2010-10-24T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-10-24T00:10:00.861-01:00</updated><title type='text'>O mal de amor e a chegada do Inverno</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa, que vive em Braga cuidando das casas dos seus clientes ricos, cuida que há paixões demolidoras, capazes de figurar na galeria da eternidade. Como nos separam cinquenta anos, limito-me a concordar como se o tema me ultrapassasse e fosse uma espécie de metafísica inacessível a um velho reformado dos assuntos de direito bancário. À falta de uma paixão sucederia a existência de outra, nem sempre a ideal; e da falência de outra haveria de passar-se à busca de uma nova, que garantisse que o mundo continua a ser, desde o tempo em que existiam os quatro rios do paraíso, um terreno disponível para florir quando nos dá jeito. Que eu me lembre, só Camilo Castelo Branco, que não amava, verdadeiramente, soube lançar maior descrédito do que eu sobre o assunto. Isto, em que o leitor pode vislumbrar a vaidade de um velho, é apenas o reconhecimento de uma deficiência orgânica. A ironia cega, a paixão enlouquece, o amor perdura, o cinismo magoa, o desencanto apaga-nos: é este o resumo da história da humanidade que procura o amor verdadeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei explicar a Maria Luísa que, de verdadeiro, só há ordens para pagar impostos ou a poeira velha que paira sobre os anos avançados; o amor verdadeiro passou quando o recordamos mais tarde, como uma floração tardia. No tempo em que podia gastar a minha juventude sofria-se de amor, respondiam-se cartas, faziam-se planos, amantes fugiam pelas veredas da noite, famílias conservadoras mas comovidas abrigavam casais em fuga, padres de província desafiavam a moral – e não se procurava o amor verdadeiro. Ele viria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, eu esperei pela sua chegada durante anos e anos depois de ter fenecido a memória de um grande desgosto. Veio um, veio outro, veio outro ainda, e ainda um outro – nenhum deles apagou a doçura daquele sofrimento antigo e amargo, vivido sob a tepidez febril de uma temporada no Rio de Janeiro, em contacto com a leveza inacessível da vida e a incerteza da passagem do tempo. A felicidade era isso – e a sua contemplação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, diante do Inverno, recordo que ele começa verdadeiramente quando Dona Elaine autoriza. Até lá, a palavra não passa de uma metáfora com uso razoavelmente literário – porque não tem, a acompanhá-lo, o tradicional desfile de mudanças que o calendário exige e aguarda com curiosidade sobre a nossa vida. Nestas circunstâncias sou apenas um velho botânico comovido com os bolbos que hão-de florir daqui a seis meses. Nessa altura virá. Virá o amor, explico a Maria Luísa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 24 Outubro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7955025648408482231?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7955025648408482231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7955025648408482231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/10/o-mal-de-amor-e-chegada-do-inverno.html' title='O mal de amor e a chegada do Inverno'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4058167005157124623</id><published>2010-10-17T19:41:00.001-01:00</published><updated>2010-10-17T19:42:31.459-01:00</updated><title type='text'>Acerca da riqueza e da vinda do Outono</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, protegia o nome dos seus clientes – empresários, como se diz hoje, que procuravam ajuda para os seus negócios no âmbito do então direito bancário. O meu avô, que administrava quintas e propriedades, mal mencionava os nomes dos seus vários patrões, uma lista generosa de ingleses e de portugueses que produziam vinhos no Douro. Havia, digamos, um certo ‘sentido de Estado’ quando se falava dos mistérios da propriedade e dos caminhos que levavam às contas bancárias. Havia um certo pudor na exibição da fortuna e dos seus sinais. Hoje, esses sinais são ‘exteriores’ e o pudor desapareceu grandemente. Proprietários ou ‘homens de negócios’, ‘cavalheiros da indústria’ (classe extinta há muito) ou ‘investidores’, o que a maior parte deles queria era recato. Compreendia-se: o catolicismo educara o país para ser remediado e culpado; o regime do dr. Salazar não gostava de ostentação. E, na verdade, nem toda a riqueza era pura como o suor que caía do rosto mortificado pelo trabalho, pela perseverança e pelo sacrifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos desses ricos do meu tempo, os velhos ricos de outrora, pagaram escolas e estradas, chafarizes e hospitais temporários, bibliotecas e bolsas de estudo. A alguns assustava o complexo de culpa judaico-cristão, uma expressão que a minha sobrinha Maria Luísa popularizou em casa, estendendo-o para justificar tanto a abstinência como o excesso; a outros, assaltava-os o passado de penúria que pretendiam redimir; a outros, suspeito que se tratava de vaidade e pura vontade de mostrar o dinheiro entretanto ganho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sendo “pecado fatal”, a fortuna de antigamente era mais sólida e mais discreta. As camisolas de lã dos nossos vizinhos da velha Foz portuense, que tinham fiações em Famalicão e Lanhoso, eram tricotadas à mão por umas tias de Gondarém, e duravam longos invernos sem serem substituídas. Os ricos de hoje mudam de guarda-roupa várias vezes ao dia e não sabem que o vestuário de uma estação se há-de guardar para a do próximo ano, e que não se pode trocar de carro de dois em dois anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O demónio da velhice tocou-me e veio acompanhado pelo da parcimónia, que é reaccionário e cheio de prelecções sobre o aforro e a temperança. Acontece pelo Outono, segundo parece. Ricos e pobres, não somos todos iguais diante de Outubro. O mar de Moledo, nesta época, convida-me à melancolia mas não à tristeza. Fui buscar a gabardina ao armário; uso-a há doze anos, Outono sobre Outono, esperando a bênção da chuva e do calendário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 17 Outubro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4058167005157124623?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4058167005157124623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4058167005157124623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/10/acerca-da-riqueza-e-da-vinda-do-outono.html' title='Acerca da riqueza e da vinda do Outono'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2205298034984893546</id><published>2010-10-10T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-10-10T00:10:00.140-01:00</updated><title type='text'>Uma barreira contra a vulgaridade</title><content type='html'>A República não comove a família. Parte dela ainda vive antes do Constitucionalismo e considera o general Azevedo e Lemos, que assinou a Concessão de Évora Monte em nome do Senhor D. Miguel, um herói no condicional – mas é por birra. Na realidade, não vivem nesse tempo; limitam-se a viver em silêncio. São de outro tempo qualquer; guardam as suas memórias e as suas honras, os seus retratos, os cálices de Porto, as suas bibliotecas poeirentas, as colchas com as cores legitimistas, como se tudo isso fossem elementos que transportam para a posteridade o travo da derrota. A derrota ilumina o carácter e educa o espírito para os bons e os maus momentos. É uma aprendizagem difícil, a desse silêncio de quase dois séculos. Por isso, a República não chega a comover a família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos Arcos de Valdevez, o regime do dr. Afonso Costa só chegou uma temporada depois. A mesma coisa em S. Pedro de Arcos. Ponte de Lima, ao pé disto, era uma jóia do cosmopolitismo. Amanuenses, pirómanos, comerciantes do centro de Braga, jornalistas do Porto, frequentadores dos Fenianos, militares de carreira, radicais de toda a espécie – a República não comoveu os que tinham previsto os passos seguintes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu avô, administrador de quintas do Douro, amigo dos ingleses, também previu a existência de uma figura como o dr. Salazar; o velho Doutor Homem, meu pai, abominava-o; a Tia Benedita nunca guardava lugar para o escândalo, porque a vida não era feita de surpresas, mas de repetição e de derrotas – com a República, até o dr. Salazar podia ser ditador. O seu fatalismo não a amargurou; pelo contrário, era o bálsamo que oleava o pêndulo das coisas e a tornou imune às catástrofes. Pessimista sem ter lido os filósofos, a Tia Benedita é a grande figura de um hipotético “romance de família”, precisamente porque não é heroína, não a cerca a glória nem a vaidade. Apenas a ideia de que só podia ser pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário da República, que vinha acompanhada de adjectivos, de pontos de exclamação e de loas ao futuro, a Tia Benedita só temia que o dr. Afonso Costa viesse roubar as igrejas do Minho. Dizia-o por despeito e por obsessão. Na verdade, ela também detestava o Constitucionalismo e a monarquia moderna, cheia de funcionários públicos, de vates iletrados e de românticos nas secretarias e repartições, pálidos, tuberculosos e a cheirar a colónia espanhola. Detestava a burguesia que fazia as revoluções e que as manobrava por impulso erótico, como um vício que precisavam de alimentar. Todos os anos a lembro, no 5 de Outubro, como uma barreira contra a vulgaridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 10 Outubro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2205298034984893546?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2205298034984893546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2205298034984893546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/10/uma-barreira-contra-vulgaridade.html' title='Uma barreira contra a vulgaridade'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8385898147782576779</id><published>2010-10-02T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-10-02T00:10:00.326-01:00</updated><title type='text'>Os casamentos de outrora</title><content type='html'>Quando o filho Domingos partiu para o Brasil em 1932, depois de um desgos&amp;shy;to amoroso que resultou num casamento anulado à pressa (mas com antecedência suficiente a fim de não causar escândalo – coisa que se repetiria na família quase vinte anos depois), o avô achou que tinha cumprido o essencial da sua vida: tinha uma famí&amp;shy;lia, guardava alguns hábitos de patriarca, deixara a política, enviu&amp;shy;vara cedo, não enriquecera demasiado nos negócios e considera&amp;shy;va o dr. Salazar um contabilista aceitável mas demasiado metido consigo mesmo. Ao contrário da presciência snobe do velho Doutor Homem, meu pai (que con&amp;shy;siderava as botas do dr. Salazar uma obra-prima da “Saville Row de Santa Comba Dão”), o meu avô teve – nas discussões domés&amp;shy;ticas – uma certa inclinação a apoiar o deve e haver do lente de Coimbra, embora desconfiasse alegremente do seu celibato (é uma maneira de dizer) e daquela vida consagrada à dieta e ao apaziguamento dos professores de Coimbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os casamentos dos Homem foram sempre um mistério de solidez, razão por que há tantas histórias de celibato na família – ou de estroinice, como garantia a tia Benedita, a guardiã da fama miguelista de Ponte de Lima. Queria isso dizer que, ou havia casamento ou havia pecado – a opção era maniqueísta mas fez escola. O Tio Domingos não se livrou da fama, e regressou do Pernambuco, muitos anos depois, coberto do rumor do pecado tanto como das picadas de insectos do sertão. Pelos anos fora, a família conheceu, timidamente primeiro, com indiferença depois, vários divórcios que nunca passaram de uma nota de rodapé (curta, como a vida dos hibiscos) nas conversas ao almoço de domingo. Acontece que eu não casei – nunca – e o facto não requer muitos comentários ideológicos nem uma cosmologia apropriada; simplesmente, não aconteceu, primeiro por uma vaga tragédia da juventude, depois por comedimento, por calculismo e, naturalmente, por comodismo puro. Às minhas irmãs explico que me limitei a considerar os casamentos de outrora como uma viagem sem regresso – e que os casamentos modernos não vão com o meu feitio, de tal modo os acho um castigo superior à minha capacidade de resistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa insistiu por duas vezes na prática do matrimónio e chegou ao ponto (sem dúvida atingindo os limites da boa-fé) de pedir-me conselho. Ela ignora que por detrás da tolerância desprevenida que faço questão de exibir, está um indiferente em matéria de casamento; acho que é uma coisa útil para romances com mais de trezentas páginas – mas não vou agora arrepender-me da felicidade que conquistei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 3 Outubro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8385898147782576779?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8385898147782576779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8385898147782576779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/10/os-casamentos-de-outrora.html' title='Os casamentos de outrora'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5028097361811672846</id><published>2010-09-26T14:06:00.001-01:00</published><updated>2010-09-26T14:10:14.927-01:00</updated><title type='text'>O Zeitgeist em Moledo ou a modernidade</title><content type='html'>Chegado a esta idade, não tenho energia para explicar a natureza ou o conceito de ‘Zeitgeist’, “espírito do tempo”, que não roubo – em alemão – a Hegel mas a alguém que mo explicou a partir de Hegel. Isso foi há muito tempo, mas a ideia permanece: a de que as ‘coisas’, o pensamento, as atitudes de uma época definem o ‘Zeitgeist’, “espírito do tempo”. O velho Doutor Homem, meu pai, achava que o “espírito do tempo”, qualquer que tivesse ele sido na altura, estava errado e não valia a pena discutir com ele. A atitude é compreensível; desde a Concessão de Évora Monte e o embarque do senhor Dom Miguel, em Sines, que os Homem de todas as latitudes achavam que o mundo estava errado. Hegel era apenas um pormenor que não chegava a ser empecilho. Os Homem sobreviveram muito bem sem o génio de Heidelberga e Berlim, clamando que as terras do Alto Minho tinham filosofia de sobra, e copiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, “o espírito do tempo” é uma espécie de desculpa redundante para todas as catástrofes dos últimos duzentos anos, do pré-romantismo português aos campos de concentração russos e alemães, do telemóvel à arquitectura de Le Corbusier. Definido “o espírito do tempo”, ai dos que lhe resistem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os optimistas, “o espírito do tempo” é sempre um avanço na procissão do género humano em direcção à felicidade, e o “progresso” é uma espécie de inevitabilidade. Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, desconfia do tema e da conclusão mas, influenciada pelas telenovelas (que traduzem maravilhosamente “o espírito do tempo”), há-de ficar periclitante e será, um dia, capaz de admitir que o amor livre, o fim da família tradicional, a mudança de sexo e os romances mal escritos são etapas desse progresso geral da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa já achou, em tempos, que o mundo caminhava para a perfeição – mas hoje tem dúvidas. Na semana passada anunciou que a internet era uma invenção útil, tirando o facto de que anda a estupidificar-lhe as crianças. Expliquei, com a cautela de um oficial de diligências, que nem todo o “progresso” é um avanço na direcção da felicidade e que nem todas as mudanças são positivas – raras vezes são úteis, e geralmente são um transtorno que acaba por tornar a vida num inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que invoquei a existência de um ‘Zeitgeist’, “espírito do tempo”. Os optimistas e eleitores socialistas acham que não podemos fugir-lhe, que temos de nos “actualizar”, ou deixa de haver “progresso”; nós, os cautelosos, temos dúvidas. Estamos habituados a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 26 Setembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5028097361811672846?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5028097361811672846'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5028097361811672846'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/09/o-zeitgeist-em-moledo-ou-modernidade.html' title='O Zeitgeist em Moledo ou a modernidade'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3876696810347111365</id><published>2010-09-19T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-09-19T00:10:00.653-01:00</updated><title type='text'>Coisas que são como um vendaval</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa entrou em casa, no último fim-de-semana, com um instrumento electrónico que permite ler livros num ecrã. Ela vinha de Braga, lugar de onde continuam a surgir todas as grandes novidades, e onde o dinheiro – no tempo de Camilo tal como no tempo do dr. Barreto Nunes – continua a circular para o bem e para o mal. Refiro Camilo Castelo Branco e o dr. Barreto Nunes porque ambos têm os seus nomes ligados à bibliofilia. O dr. Barreto Nunes continua, a par da dra. Celina, da biblioteca de Vila Praia de Âncora, a ser uma preciosa ajuda quando se trata de reconstruir um índice bibliográfico, uma espécie de labirinto para o qual os meus olhos já não têm a aptidão necessária, nem o meu temperamento (uma das designações para a idade, propriamente dita) a paciência requerida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bibliofilia não é uma obsessão – é, antes, um modo de vida. O velho Doutor Homem, meu pai, sempre soube que a leitura não trazia a felicidade a nenhum lar, razão por que guardava para si (e para a sua solidão) os momentos de tranquilidade reservados à biblioteca, poupando a família a um espectáculo puramente privado e íntimo, e de onde não nasceria nada de grandemente útil para o Produto Interno Bruto da pátria (na época não se mencionava o assunto). Por isso, diante destas demonstrações de alfarrabista soturno, a minha sobrinha é um vendaval de modernidade, disposta a adaptar-se aos novos tempos com o talento de uma vencedora sobre o tempo e a história. Ela não gosta da expressão porque, num resto de memória traída, defendeu em tempos que só o proletariado iria triunfar sobre ambos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antigos e rigorosos esquerdistas converteram-se em gastrónomos ou em arautos da era tecnológica sem remorso nem expiação – que os livros possam, agora, ser lidos num ecrã, como antigamente assistíamos ao TV Rural do sr. Eng.º Sousa Veloso, não parece trazer-lhes grandes hesitações. O mundo vive em convulsões permanentes e não é em Moledo que se erguerá uma barreira definitiva contra a insanidade. Ao ver o forte da Ínsua e a derradeira esplanada que resiste ao nevoeiro matinal (uma imagem que o nosso provincianismo deve ao dr. Anthymio de Azevedo), lembro ao leitor que continuo a escrever à mão e a usar lápis Viarco n.º 2 para anotar a margem das Memórias de Raul Brandão. Estes vícios são incompatíveis com um país que avança definitivamente para o mundo moderno, convertido à leitura de livros electrónicos quando ainda nem sequer sabe soletrar as orações de um período simples de Fernão Mendes Pinto. A vida não é simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 19 Setembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3876696810347111365?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3876696810347111365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3876696810347111365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/09/coisas-que-sao-como-um-vendaval.html' title='Coisas que são como um vendaval'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-515861544149847882</id><published>2010-09-11T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-09-11T00:10:00.518-01:00</updated><title type='text'>Uma teoria sobre as novas gerações (2)</title><content type='html'>Ao fim de alguns meses de combates e de avanços da “coluna alemã” fui admitido ainda jovem à mesa onde, na velha casa portuense, se decidiam os destinos da II Guerra – o meu avô disputava com o velho Doutor Homem, meu pai, o papel de grande estratega britânico diante do desvario da Europa Central, ocupada pela Alemanha. Ambos eram, pois, “dos ingleses”, o que significava, também em ambos os casos, uma mitomania que só terminaria em meados de 1940, quando a França sucumbia sob o disfarce termal de Vichy e quando o termo ‘Blitzkrieg’ se tornou familiar e significava, antes de mais, a ameaça sobre Inglaterra depois da batalha de Dunquerque. Das Ardenas, primeiro, aos desertos da Líbia e à ocupação africana depois (o nosso vocabulário nunca seria o mesmo depois de termos pronunciado ‘Afrika Korps’, ‘Rommel’ e ‘Raposa do Deserto’), a família discutia com paixão sobre cartas geográficas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser admitido nessas discussões não significava, no entanto, participar activamente nelas. Era necessário um exame prévio que detectasse alguns conhecimentos mínimos de história, de geografia, de armamento e de inglês (o alemão era dispensável, no entender do meu avô, que chorava pelo destino de alguns clientes holandeses que, no Douro, continuavam a produzir vinhos e azeite).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, certo dia, foi necessário compreender a importância de Creta e Malta para o desenrolar das coisas a norte e a sul da faixa do Mediterrâneo, o velho Doutor Homem, meu pai, recomendou-me bibliografia “até para não atrasar as movimentações”. Eu tinha, enfim, compreendido a inevitabilidade dessa preparação. Passei, então, a disputar a leitura dos jornais da casa, sobretudo depois de a Rússia ter entrado nas contas do fantasma de Berlim. Recolhi ao meu quarto (que dividia com um dos meus irmãos) rodeado de mapas, bibliografia e um boné inglês como amuleto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contei o episódio, em família, há poucas semanas. As “novas gerações” perceberam que houve uma guerra, exactamente como eu tinha a certeza de ter existido uma Guerra dos Cem Anos, uma Guerra da Independência ou uma batalha de Waterloo. Lá, longe (os franceses estavam-nos atravessados, como a vanguarda da serpente “democrática”). Esse período dramático indispôs-nos contra o desperdício, a ignorância e a leviandade. A vida tinha um peso dramático e cada segundo de vida era vivido romanticamente, como Ingrid Bergman em ‘Casablanca’. O nosso momento podia chegar – e não nos apanharia desprevenidos. Sabíamos tudo sobre a queda de Danzig e a anexação dos Sudetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 11 Setembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-515861544149847882?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/515861544149847882'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/515861544149847882'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/09/uma-teoria-sobre-as-novas-geracoes-2.html' title='Uma teoria sobre as novas gerações (2)'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2996792928122346628</id><published>2010-09-05T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-09-05T00:10:00.698-01:00</updated><title type='text'>Uma teoria sobre as novas gerações (1)</title><content type='html'>Vejo que, na imprensa, se multiplicam as crónicas assinada por psicólogos preocupados com a educação da mocidade. Uso o termo “mocidade” porque não sei como classificar a escala de idades que vai entre os cinco ou seis e os dezoito anos. De resto, os meus conhecimentos de puericultura e dessa ciência de perfis esotéricos, a pedagogia, resumem-se a quase nada. O velho Doutor Homem, meu pai, tratava os seus filhos com alguma distância, o que significa, para a literatura do género (segundo entendi), alguma frieza. Nunca nos lamentámos muito: na maior parte das noites da semana, depois do jantar, retirava-se para o seu refúgio pessoal (a biblioteca) ou, então, participava nas actividades familiares com alguma relutância. Saía dessa monotonia para as suas partidas semanais de bridge, para as férias de Verão e para os domingos de passeio no Minho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa enfrenta dois pré-adolescentes ruidosos – que Dona Elaine anunciou, por várias vezes, querer vender, a peso e por atacado, na feira de Caminha – que, dizem os especialistas, requerem cada vez mais “diálogo”. Maria Luísa diz que o assunto lhe causa um certo calafrio porque, tirando as conversas sobre como vão os estudos, sobre a vida moderna em geral e sobre a necessidade de tomar banho e escovar os dentes de maneira apropriada, não sabe sobre o que há-de dialogar, não só porque eles se comportam como se comportava o velho Doutor Homem, meu pai (retirando-se para os seus aposentos), mas também porque se recusam a dialogar sobre o que ela, legitimamente, quer dialogar – suponho que sobre assuntos mais interessantes do que jogos de computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema geral foi tratado, de passagem, durante o almoço do último domingo, com participação de várias gerações que nem por isso ficaram apreensivas, o que é compreensível numa família que se prolongou razoavelmente na escala do século passado sem ter alguma vez pronunciado a palavra “pedagogia”. Na verdade, o que o velho Doutor Homem, meu pai, nos providenciou largamente foi uma enorme disponibilidade para escolhermos os nossos acidentes de percurso – desde que nos apresentássemos à mesa a horas certas e com os cabelos em ordem, estando definido que os trabalhos escolares e a aprovação nos exames eram coisas adquiridas. O meu pai recompensava com displicência e punia sem moralismos, economizando nas coisas supérfluas. Raramente se dispunha a dialogar, embora falasse abundante e largamente connosco – e nos ouvisse como um cavalheiro. Isso significava, apenas, que não estava na disposição de discutir o sistema de travões de uma bicicleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 5 Setembro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2996792928122346628?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2996792928122346628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2996792928122346628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/09/uma-teoria-sobre-as-novas-geracoes-1.html' title='Uma teoria sobre as novas gerações (1)'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4487261058314486692</id><published>2010-08-29T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-08-29T00:10:00.428-01:00</updated><title type='text'>Sobre a idade, uma desculpa</title><content type='html'>sociedade não funcionaria se não houvesse obrigações. A evidência é tão grande que tenho vergonha de mencioná-la. O velho Doutor Homem, meu pai, admitia que tinha falta de paciência para explicar tudo o que devia explicar. A tradicional vaidade dos Homem, de que padeço em conformidade, é apenas um sintoma dessa misantropia. “Paciência, paciência”, recomendava Dona Ester, minha mãe, que entendia a necessidade de disfarce e de alguma contenção para que a vida em sociedade não se transformasse num combate sem utilidade nem proveito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explicar duas ou três coisas sobre a implantação da República, por exemplo, é inútil hoje em dia. A história, sabe-se com certeza desde el-rei D. João, é escrita pelos vencidos; o centenário da República está a ser comemorado mais com adjectivos e advérbios do que com a fotografia da época. A Tia Benedita, que nasceu sem paciência, temeu até ao fim da vida o regresso de Afonso Costa, a quem ela atribuía a intenção de assaltar Guimarães para roubar, pela segunda vez, a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira (que ela viu reabrir em 1967, um ano antes de morrer). Por mais que lhe explicássemos que o demagogo tinha falecido em Paris e que não regressaria tão cedo, a senhora não sossegava e valia-se da idade: “Na minha idade já não discuto essas minudências.” A frase é exemplar e dá conta do alto valor que a Tia Benedita dava à vida depois da morte, mas, sobretudo do valoroso combate que travou pelo seu direito a não ter paciência para discutir a data do passamento de Afonso Costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o Verão, o direito a não ter paciência alarga-se até às fronteiras do desrazoável. Dona Elaine, que guarda alguma compaixão para a quadra (ela acredita, erradamente, que fui feito para o Inverno e para os agasalhos junto do fogão), acha que já perdi o norte dos princípios morais e que fico agradado com as amigas dos meus sobrinhos, que conversam na varanda, de biquíni. Tento esclarecê-la: que na minha idade os princípios morais são muito comoventes mas não explicam o romantismo de um velho rodeado de coisas proibidas. Um destes dias, uma das jovens, extasiou-se, prostrada diante das estantes da biblioteca. Eu julgava que era por causa dos livros. Mas não. Ela não percebia como podia eu ser um velho miguelista por tradição e, ao mesmo tempo, guardar tamanha vaidade dos meus livros. A minha sobrinha Maria Luísa saiu da sala para evitar sorrir. Limitei-me a explicar-lhe que me sirvo deles para acender a velha salamandra no Inverno, o único destino que os reaccionários dão aos livros. Ela assentiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 29 Agosto 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4487261058314486692?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4487261058314486692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4487261058314486692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/08/sobre-idade-uma-desculpa.html' title='Sobre a idade, uma desculpa'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1094222999393280148</id><published>2010-08-22T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-08-22T00:10:00.289-01:00</updated><title type='text'>As árvores do apocalipse</title><content type='html'>Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, acha que os incendiários deviam ser lançados no mar de chamas que provocam. Di-lo contemplando as nuvens de fumo que sobem e descem pelas montanhas, elevando-se nos ares entre a cinza que aterra sobre as casas. Ela nasceu em Roboreda, na colina que desce da serra sobre Cerveira, e mesmo tendo emigrado – em criança, com a família – para o Rio de Janeiro, nunca esqueceu os pinhais que iluminavam, à distância, o rio Minho e a velha aldeia a que regressou, jovem viúva, disposta a gozar algumas arrecadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de felicidade, na chamada grande literatura, não existia se não houvesse grandes florestas; as árvores não só embelezavam o universo como eram, também, guardiãs de segredos incomunicáveis. Árvores que nasciam, cresciam e perduravam – raramente morriam. A minha existência como botânico deve muito a esses livros onde as florestas eram descritas como oceanos luxuriantes (todo o arvoredo precisava de um adjectivo), fontes de sombra, tranquilidade e contos de fadas. Mesmo dispensando estes últimos, restavam as árvores. O meu Minho juvenil, tanto como o meu Minho da idade madura, eram pródigos em arvoredos protegidos e elogiados, à excepção do aroma adocicado das mimosas na velhíssima estrada de Viana (que hoje já não existe e foi substituída por um nó de vias rápidas e auto-estradas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me fixei definitivamente em Moledo, nos anos oitenta, havia, além do mar – e da sua grande razão de existir, o iodo –, outro motivo para a escolha: as árvores que rodeavam a casa, e tanto a assombravam como a protegiam. Elas recordavam-me a solidão feliz em que tinha vivido o Tio Alberto, o bibliófilo de São Pedro de Arcos, envolvido nas sombras que não perturbavam as suas recordações nem esgotavam o seu sentimentalismo. Vivo rodeado dessas árvores – mesmo daquelas que já não existem e foram sucumbindo, naturalmente. Dão-me sombra, dão-me cor, dão-me a sensação de que o mundo ainda pode continuar a existir entre as finas e modestas cordilheiras da Serra d’Arga e os vales do rio Âncora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus sobrinhos não assistiram a esse ciclo de árvores que nascem, crescem e perduram. Conhecem as suas fases terminais, o fim das florestas e o descrédito das montanhas consumidas pelos fogos. De certa maneira, habituaram-se a esta forma de apocalipse moderno em que não existem clareiras, trilhos entre freixos e carvalhos, a frescura antiga de um bosque. Dona Elaine lamenta-se, na varanda. Olha o mar, de costas voltadas para o mar de chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 22 Agosto 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1094222999393280148?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1094222999393280148'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1094222999393280148'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/08/as-arvores-do-apocalipse.html' title='As árvores do apocalipse'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-4234004567779781091</id><published>2010-08-15T16:12:00.001-01:00</published><updated>2010-08-15T16:14:34.091-01:00</updated><title type='text'>O que fica depois de tudo</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa anunciou que queria estudar o século XIX. O propósito é nobre mas, atendendo à estação do ano, parece-me ligeiramente estapafúrdio: no século XIX, e no início do XX, os verões eram recebidos com um guarda-roupa desmobilizador e ainda não havia época balnear.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na nossa família, só Dona Ester, minha mãe, afrontou os costumes – ela acreditava que iodo, sol, pele bronzeada e areia espalhada pelo corpo eram indícios de uma saúde férrea que nos imunizaria contra o romantismo que sobreviveu à República e que tanto produzia bacharéis para as secretarias como clientes para os sanatórios. Um dos seus antepassados era um desses poetas que saudava os crepúsculos e as belezas pálidas do seu tempo (viveu em Coimbra, ai dele); não chegou a virar o século, vítima da tuberculose. Ela via na doença uma ameaça moral e literária que exigia combate, ciclismo, legumes, natação e alguma indiferença (vale a pena dizer que o velho Doutor Homem, meu pai, não achava a misantropia o pior dos defeitos). Eu era ligeiramente enfermiço, e tinha gripes de Inverno, antes de ser imunizado com temporadas de praia, amores passageiros e necessidades práticas, medicamentos de prescrição livre cuja posologia admitia aplicações bastante generosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa tem dúvidas em relação a esta narrativa das coisas. Ela entende que há um sentido na história e que o género humano pode estar sujeito a tropeções mas se encaminha para um zénite cheio fulgurações luminosas, de onde foram definitivamente banidas a pobreza, a homofobia, as monarquias, a televisão e todos os adversários morais do Bloco de Esquerda. Como não posso combater coisas que desconheço, limito-me a adverti-la de que o género humano seria muito mais feliz sem colesterol e que as monarquias não são tão desprezíveis como os massacres cometidos em nome da felicidade das nações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não sabe que um dos últimos governos da República, presidido por José Domingues dos Santos, achava que o bisavô Homem era um traidor à pátria porque ganhava o seu pão como administrador de quintas inglesas no Douro. O escritório foi tomado de assalto pela Guarda, que procurava promissórias e bombas debaixo dos tapetes. Salvou-o o facto de Domingues, um extremista incendiário, ser de Matosinhos (estudaram juntos no Instituto Superior de Comércio) e gostar do ‘vintage’ do Pinhão (de que seguiram duas caixas para Lisboa). Eis como se explica a história, segundo os Homem. Por haver vinho do Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 15 Agosto 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-4234004567779781091?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4234004567779781091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/4234004567779781091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/08/o-que-fica-depois-de-tudo.html' title='O que fica depois de tudo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6720812551604331545</id><published>2010-08-08T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-08-08T00:10:00.179-01:00</updated><title type='text'>Moledo: para quem saboreia o passado</title><content type='html'>Por volta de 1934 – um dos meus irmãos nascera no começo desse Verão – Moledo praticamente não existia. O Minho, como hoje o leitor o conhece, não existia ainda. Eu tinha 13 anos e recebera uma bicicleta azul, soube depois que importada de França. A esta distância, recordo apenas como o Verão passou e chegou um Outono de nevoeiro que cobria a Foz que emocionava o velho Doutor Homem, meu pai. Os verões desses anos eram curtos e tépidos como uma folha incandescente do calendário. A metáfora não serve para explicar a sensação, mas lembra uma época: verões curtos, sombras de árvores, Ponte de Lima isolada do mundo e ouvindo rádio em ondas curtas num aparelho de válvulas que relembrava o nascimento do século. A família estava ainda em formação e o dr. Salazar assistira a uns desfiles no Tejo para relembrar o brilho de uma pátria convertida ao ditador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados muitos anos, Moledo é uma pátria pessoal de que o país se evadiu. A minha sobrinha Maria Luísa educa os seus filhos na presunção de que tem de transmitir-lhes qualquer espécie de amor pelo passado. O assunto enternece-me. Ela é uma mulher deste tempo, fruto da educação liberal com que várias gerações aprenderam a viver no meio da desordem e falta de horários para se deitar à noite. Mas a sua tenacidade lembra uma ternura de romance francês, muito à século XIX, um nadinha melancólica, um nadinha dada à infelicidade. Velho miguelista sem esperança, contemporâneo do Titanic ou da inauguração da estrada marginal de Viana, sinto-me atraído por essa espécie de folhetim que colecciona ilusões e desilusões. Gosto de observar como Moledo – mais do que a ordem, o passado, a honorabilidade da velha praia para onde fomos transportados com manta e fato de banho, entre famílias que anualmente se deslocavam para venerar o iodo e as neblinas matinais – resiste à passagem e às reviravoltas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Elaine, a governanta deste eremitério, continua a achar que Moledo é a praia dos ricos. Das colinas de Reboreda, de onde partiu para o Rio de Janeiro com os pais emigrantes, Moledo era o reduto de uma aristocracia balnear que artistas como António Pedro ou Ruben Andersen Leitão interpretaram depois: o que a terra oferecia era uma beleza que não desistia de sê-lo. A sua excentricidade era tão natural aqui (num clima excêntrico) como os hibiscos que cultivo na varanda, à sombra dos pinhais. Por isso relembro 1934 e os anos antes da idade adulta. Na altura, Moledo praticamente não existia; é uma terra para a idade adulta, para o coração que amadurece e aprende a saborear o passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 8 Agosto 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6720812551604331545?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6720812551604331545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6720812551604331545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/08/moledo-para-quem-saboreia-o-passado.html' title='Moledo: para quem saboreia o passado'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5793396315121548248</id><published>2010-07-31T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-07-31T00:10:00.459-01:00</updated><title type='text'>Orgulho e preconceito como sempre</title><content type='html'>Periodicamente, quando o Verão chega em pleno e a casa se enche das passadas dos meus sobrinhos, vou à estante procurar algum recolhimento. Os romances do passado acolhem-me. Acolheram o velho Doutor Homem, meu pai, e providenciaram-lhe a paz que o encaminhou para a felicidade. Acolheram-me a mim próprio, em outras épocas, e trouxeram-me a ambição de verificar que o mundo correspondia a certas páginas, como uma espécie de retrato das cidades que não visitei e das vidas que não vivi. Mas eram graus de acolhimento diferentes. O velho Doutor Homem, meu pai, partilhou com esses livros um desejo de frugalidade que só com o tempo pude entender mais inteiramente: os livros serviam-lhe para se isolar do resto do mundo, criando uma barreira contra o ruído e as paixões que já não podia – nem devia – viver. A cada um os seus mistérios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus sobrinhos não assistem a este debate. Limitam-se a acordar tarde, a percorrer a pé o caminho até à praia, a regressar à hora que lhes é mais conveniente, a jantar no terraço – aproveitando a onda de calor destes dias – e a sorrir às recordações de um velho, quando entramos em diálogo: Maria Luísa, que chegou mais cedo este ano, antes da sua habitual temporada de Agosto; Pedro, que resplandece de alegria quando a namorada Isabelle, a pequena holandesa, se serve de vinho; Luís, que me explica como será a economia do futuro e como a literatura pode vir a ser um bem dispensável; Maria Leonor, que discute com Dona Elaine acerca da quantidade de açúcar a mais no pudim. O retrato compõe-se. Há um aroma de eucalipto morno e uma finíssima neblina ao princípio da noite, empurrada pelo vento da Galiza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os livros que já acolheram o velho Doutor Homem, meu pai, acolhem-me agora como uma lembrança do tempo em que os descobri como uma promessa de redenção e de sabedoria. Não me trouxeram nem uma coisa nem outra. Às vezes, só orgulho e preconceito; de outras vezes, uma melancolia que eu conheci como se fosse o outro nome da felicidade plena; e em certos momentos um prazer que só se completa quando encontramos outro leitor que esperava pela mesma sensação. Mas os romances do passado, de “Orgulho e Preconceito” ao romance dos romances, “Tristram Shandy”, não precisam de sensações: eles transportam consigo quase tudo o que precisávamos. Maria Luísa não concorda. Ela acha que há coisas novas desde “O Monte dos Vendavais” ou que “Guerra e Paz” devia ser ligeiramente encurtado. Pode ser. O crepúsculo de Moledo também ocorre a horas diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 31.07.2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5793396315121548248?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5793396315121548248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5793396315121548248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/07/orgulho-e-preconceito-como-sempre.html' title='Orgulho e preconceito como sempre'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6502977757860867148</id><published>2010-07-25T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-07-25T00:10:00.527-01:00</updated><title type='text'>Um promontório diante do mar</title><content type='html'>De tempos a tempos, Moledo parece o centro do mundo, o que a distrai da sua característica principal – que é ser um lugar afastado do mundo. Foi com esse argumento que, há cerca de vinte anos, escolhi viver entre pinhais e dunas. Mas uma interrupção vem sempre a calhar. Isso acontece semanalmente, aos almoços familiares de domingo, cada vez menos frequentados; ou quando “a pequena holandesa”, Isabelle, namorada do meu sobrinho Pedro, decide visitar as nossas províncias, abandonando temporariamente a Frísia; ou em pleno Verão, durante a “época balnear”, quando uns milhares (como sou avesso a estatísticas, situo o número em centenas) de banhistas concorrem para o areal branco tomando os benefícios do derradeiro e mais saudável iodo do nosso velho hemisfério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os almoços de domingo são serenos e servem para exercitar um dos dons mais apreciados da família, a má-língua – um eufemismo para designar a forma como, oficialmente, o mundo é observado deste promontório. As visitas de Isabelle são uma invasão de beleza que ilumina as sombras das árvores; ela arrasta consigo a ingenuidade dos civilizados que se admiram por haver pessoas que vivem na desordem e sem pensarem no castigo final depois de uma vida que incluiu duas refeições diárias de faca e garfo. Quanto à “época balnear”, ela consiste – no fundo – numa espécie de ritual que, ano após ano, prolonga a existência de Moledo como um território afastado do mundo. Explica-se isto pela temperatura das suas águas. As minhas irmãs (que frequentaram as Caraíbas quando as viagens eram caras, e que agora procuram o exotismo a preços moderados nos trópicos do Oriente), acreditam que em Moledo nasce uma corrente árctica que congela periodicamente o plâncton do fundo do mar. Mas não é verdade: a praia de Moledo apenas poderia ser frequentada com prescrição médica adequada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tempos a tempos recebo a visita de Dona Celina, que cuida admiravelmente das bibliotecas do concelho – e a quem mais recorro depois de o dr. Barreto Nunes se ter retirado da sua, em Braga. Como todas as pessoas cultas e românticas, a dra. Celina (que é minha fonte de informação regular sobre as novidades literárias das suas estantes) aprecia em Moledo a beleza que os escritores se têm esquecido de relembrar. No mês passado tentou convencer-me a escrever esse romance de Moledo. Respondi que não era nem podia ser romancista; falta-me a “habilidade” para contar uma história (não mencionei a idade). Ela sorriu. Também ela compreendeu que a preguiça joga a meu favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 25 Julho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6502977757860867148?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6502977757860867148'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6502977757860867148'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/07/um-promontorio-diante-do-mar.html' title='Um promontório diante do mar'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-166118852437859236</id><published>2010-07-18T20:31:00.000-01:00</published><updated>2010-07-22T20:32:27.389-01:00</updated><title type='text'>O Verão de Moledo e a passagem do tempo</title><content type='html'>Na semana passada, a minha sobrinha Maria Luísa veio de Braga mais cedo, antecipando o fim-de-semana com o argumento de que "tinha coisas para fazer". Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, que alia à sabedoria das minhotas de Roboreda a fina perspicácia que não esqueceu do Brasil (onde esteve emigrante), alvitrou que isso se deveria "aos ares do Verão", ainda que a desculpa oficial fosse a de visitar as feiras de Cerveira e de Vila Praia de Âncora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para acompanhar o Verão e saudar a época balnear, as feiras de Cerveira, de Âncora e de Caminha são uma intromissão festiva que sempre se saudou na família. Eu próprio sou arrastado para o meio das quinquilharias, cheiros de doces e grelhados, artefactos de cozinha e ruídos de romaria. No ano passado, os meus sobrinhos presentearam-me com uma harmónica, verdadeira imitação das antigas Hohner Chromonica, uma preciosidade que abundava no Minho, à mistura com os cavaquinhos, os acordeões e as concertinas da minha província (e que competiam com as gaitas-de-foles da outra margem do rio Minho). Este ano coube-me apenas apreciar o entardecer e acompanhar Maria Luísa, que esta semana completava quarenta e quatro anos. Trata-se da idade perfeita. Na minha idade, limito--me a contemplar – reflectida seus olhos – a passagem do Verão, a passagem do tempo, e aquela melancolia das coisas que só têm sentido porque não as pudemos amar como devíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa sabe andar de braço dado, um costume que vem do tempo do pudor, e isso diz tudo. Mencionei-lhe, por isso, "os ares do Verão", como se eu pudesse entender o que as mulheres pensam da sua vida. Não posso. Frequentemente imagino como teria sido a minha vida se não tivesse fugido – às vezes a sete pés – dos perigos que a podiam tornar cobiçada ou cheia de episódios memoráveis. Não foi, nunca, nem uma coisa nem outra. Sou apenas um espião que há vinte anos toma o pequeno-almoço à mesma hora e festeja a vida dos que o rodeiam. Depois, lembrando-me que o fresco nocturno aconselha um casaco, Maria Luísa convidou-me para tomar "um café" numa das esplanadas da praia. Regressei suavemente a um tempo que já não recordava, cheio de vozes, cheio de coisas amáveis, gestos de concordância e conversas que prolongavam a nossa vida. Mas recordar é um entretenimento de velhos. Aos quarenta e quatro anos, uma senhora recomeça a viver como se ouvisse esse som das harmónicas do meu tempo, jovial e adolescente. Aos quarenta e quatro anos eu tinha uma inclinação pelas mesmas coisas que hoje me comovem. O tempo passou depressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 18 Julho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-166118852437859236?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/166118852437859236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/166118852437859236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/07/o-verao-de-moledo-e-passagem-do-tempo.html' title='O Verão de Moledo e a passagem do tempo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7168064490359880593</id><published>2010-07-11T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-07-11T00:10:00.221-01:00</updated><title type='text'>Lembranças sobre a namorada russa</title><content type='html'>A distância faz grandes coisas. O facto de o meu tio Alberto ter mantido durante quase vinte anos uma “relação romântica” (a expressão era dele) com a sua “namorada russa” era justificado pela família com a distância que ia de Ponte de Lima até às margens do Cáspio. Chamar-lhe “a namorada russa” era um atrevimento maldoso; Alexandra era persa, realmente – mas a sua família abandonou a Rússia czarista depois do bolchevismo. Conheceram-se em Paris, onde no final dos anos quarenta se conhecia toda a gente, e, até ao final da vida de Alexandra – que está sepultada em Genebra –, creio que o Tio Alberto não passou um dia sem pensar no retrato que guardava no escritório desarrumado da sua casa de S. Pedro de Arcos: um rosto doce com olhos escuros iluminando a moldura de uns cabelos penteados como se usava na época em que se conheceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As viagens do Tio Alberto eram sempre misteriosas e, oficialmente, desconhecidas no casarão dos Homem. A Tia Benedita, matriarca da família, reprovava silenciosamente a natureza dessa “relação romântica”, termo que ela considerava absurdo e que caberia apenas na biografia de um autor de sonetos – um modelo literário que a Senhora atribuía à geração de vates do liberalismo, certamente por achar que catorze versos eram um excesso, tão palavroso e inútil como cheio de retórica lamechas. Evidentemente que havia outro motivo; a Tia Benedita considerava que uma mulher estrangeira sempre seria mais vulnerável ao bolchevismo, ao adultério, à incompetência em matéria doméstica e à indiferença em matéria religiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, está ainda por explicar o motivo que impediu o casamento do Tio Alberto com a sua namorada russa, que, afinal, era persa. A Tia Benedita achava que, para lá dos perigos normais, o Tio Alberto era um devasso e não passava, afinal, de um homem que queria comer ostras em Ribadeo, enxamear os Verões com viagens à Galiza e escusar-se aos deveres familiares. Sobre tudo isso, havia a distância. Por que não vinha “a russa” até aos vinhedos do Minho, onde ficava o melhor de Portugal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, pelo contrário, achava que a distância entre o S. Pedro de Arcos e o Cáspio era um bálsamo para a tentação libertina de um solteirão minhoto, a espécie mais perigosa dos predadores masculinos. E a vida seguiu o seu curso no meio desta disputa. Em Setembro, mal terminava a sua temporada de Ponte de Lima, o Tio Alberto tomava o comboio para Paris, onde chegava como um cavalheiro do Grande Mundo. Regressava para o fim do Natal, e trabalhava até à Páscoa. Não sei como comunicavam um com o outro. Mas comunicavam maravilhosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 11 Julho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7168064490359880593?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7168064490359880593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7168064490359880593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/07/lembrancas-sobre-namorada-russa.html' title='Lembranças sobre a namorada russa'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3644577762658417312</id><published>2010-07-05T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-07-05T00:10:00.530-01:00</updated><title type='text'>Uma gargalhada de Julho e Agosto</title><content type='html'>Naquele Verão os meus irmãos convenceram-me a partilhar com eles o aluguer de um barco. Foi três anos a seguir ao fim da Guerra, era um Verão quente, agitado – e eu tinha 25 anos, aquilo que a Tia Benedita chamava “a flor da idade sem juízo”. Ela nunca perdoou as manobras dos três rapazes que atravessavam o rio Minho e se aproximavam das ilhas da Boega e dos Amores ora como sósias de Huckleberry Finn, ora como dândis que tentavam impressionar os povos ribeirinhos. Refiro-me aos povos ribeirinhos para não mencionar as jovens que habitualmente passavam férias em Vila Nova de Cerveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós éramos pouco dados a bucolismos. Atravessar o rio num barco de bandeira portuguesa era um atrevimento diplomático que punha em risco as sestas tardias da Guardia Civil da margem direita, em La Guardia, que podiam confundir-nos com um agrupamento de contrabandistas de Gondarém ou de Reboreda. E, estando fora de causa um desembarque nos areais de Camposancos para reivindicar a posse dos pinhais galegos e celtas de Santa Tecla, limitávamo-nos a subir e descer o rio como piratas locais, usando bonés de marinheiros comprados na feira de Leça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana passada, a minha sobrinha Maria Luísa levou-me, de carro, a passear pelos caminhos verdes que cruzam o Minho e a Galiza. Recordei-lhe esta história de desafio à modorra estival, e que terminou quando as primeiras névoas de Outono conseguiam ocultar a Ínsua e transformar o mar oceano num prolongamento das escarpas da Costa da Morte. O mundo do rio era estranho e profundo, um mapa limitado por margens que não nos pertenciam. Ao leme do pequeno barco – que nos custou as magras economias da época –, sentíamo-nos como actores italianos observados por damas dependuradas dos jardins. E tudo foi uma interrupção no envelhecimento a que estávamos condenados (eu mais do que os meus irmãos ou os amigos que ocasionalmente entravam no curto convés).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que pensa Maria Luísa, sessenta anos depois não tenho nada para recordar. As coisas passaram-se desta ou daquela maneira. Conservo, passados estes anos, a recordação de uma gargalhada jovem e romântica – por quem me apaixonei, como devia, e por quem sofri bastante, mais tarde, como estava escrito. Havia uma sombra entre os choupos do rio. Havia um Verão, fatal como todos, perigoso como os restantes, luminoso como teria de ser um Verão passados todos estes anos, cheios de boa e de má literatura, de gripes e de almoços familiares. A minha sobrinha descobriu, com isso, que o mundo não começou agora e que há sessenta anos o rio Minho era um cenário para filmes de Felini ou, com menos interesse, de um Billy Wilder sem música. Se tivéssemos parado no tempo e aguardado alguns anos, todos nos julgaríamos sósias de Marcelo Mastroianni procurando – cada um de nós – a sua musa. Mas seria, afinal, a mesma recordação: tempo que passa, casas cheias de Verão, gargalhadas que só existem em Julho e Agosto, uma breve ideia de felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem na altura escrevi um verso ou uma palavra de amor. O que veio, chegou e passou. O barco ancorou em Caminha depois de uma última viagem, num primeiro domingo de Setembro nublado e tépido. Isabelle, a pequena holandesa, namorada do meu sobrinho Pedro, chegou ontem da sua Frísia natal, onde se ocupa de biologia e oceanografia. Dona Elaine, a governanta de Moledo, anotou que este ano temos menos um quarto ocupado porque um dos meus sobrinhos avisou que tem trabalho na Madeira. Maria Luísa vem mais cedo, com os filhos. Este ano não vai ao estrangeiro. Ela menciona “a crise”, mas suspeito que também ela se lembra de uma gargalhada de Julho e Agosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 4 Julho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3644577762658417312?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3644577762658417312'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3644577762658417312'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/07/uma-gargalhada-de-julho-e-agosto.html' title='Uma gargalhada de Julho e Agosto'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1453990574629339699</id><published>2010-06-20T21:46:00.001-01:00</published><updated>2010-06-21T21:47:55.598-01:00</updated><title type='text'>A máquina a vapor e a melancolia do rinoceronte</title><content type='html'>A biblioteca dos Homem conserva em razoável estado alguns volumes preciosos que fazem parte da história da família e dos seus pecados políticos. Estes pecados, como o leitor entenderá, prolongaram-se durante muitos anos e vão até ao primeiro quartel do século anterior, altura em que, exaustos e conformados, nos dedicámos à sobrevivência, à bibliofilia, ao arroz de pato e à anglofilia, embora não por esta ordem. Crê-se que, com a instalação da República – e um pouco depois dela –, já não valia a pena tentar explicar às novas gerações que a História tinha defeitos na forma como tinha sido escrita. Definitivamente, éramos os derrotados. A família, mesmo conservando as diferenças habituais manteve a tentação (repetida várias vezes até ser impossível enumerá-las) de ficar no lado errado da História. Isto, que poderia ter favorecido a melancolia e o ressentimento, acabou por fazer de nós seres orgulhosos, pacíficos e, surpreendentemente, sem úlceras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa bibliografia reaccionária repousa em Ponte de Lima, tranquila, e ilustra as paredes de algumas salas e de um corredor onde – ao fundo – se encontra a cópia restaurada e perfeita de um retrato do senhor Dom Miguel. No Verão passado, dada a minha qualidade de almoxarife dessas estantes, trouxe para Moledo os ‘Entretenimentos Cosmológicos, Geográficos e Históricos’, de José Acúrsio das Neves, um livrinho de 1826 onde, à mistura com curiosidades do seu tempo, enumera as vantagens da introdução da máquina a vapor. O país merecia-o, certamente. Ocupado em batalhar pela Carta, pelas cortes de Lamego e pela constituição de 22, o país não estava desperto, ainda, para a necessidade da máquina a vapor e o dinheiro disponível estava reservado para a tropa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu interesse no assunto é residual e apenas tem a ver com a nostalgia do que poderia ter sido o país. É essa a nossa principal melancolia, passando em revista os últimos duzentos anos ou, indo mais atrás, até à embaixada de D. Manuel ao Papa, comandada por Tristão da Cunha, uma exibição das riquezas do império e onde havia animais de África e da Índia — mas não o exemplar de um rinoceronte que ficou para trás, doente. A nossa verdadeira melancolia é a do rinoceronte (Albrecht Dürer gravou-o para nossa glória) que nunca chegou a pisar o chão de Roma. Depois disso houve o que houve, chegaram as invasões francesas, a partida da corte para o Rio, o Ipiranga e a Concessão de Évora Monte. A nossa nostalgia não termina. Podíamos ter sido tudo o que deixámos para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 20 Junho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1453990574629339699?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1453990574629339699'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1453990574629339699'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/06/maquina-vapor-e-melancolia-do.html' title='A máquina a vapor e a melancolia do rinoceronte'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6391016187422241350</id><published>2010-06-13T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-06-13T00:10:00.813-01:00</updated><title type='text'>Uma breve viagem ao século passado</title><content type='html'>O tio Alfredo Augusto só regressou do Pernambuco depois da morte da Tia Benedita e do dr. Salazar. Não havia relação entre o primeiro facto e os outros dois. Emigrante e desolado, partiu para o Brasil aos vinte e seis anos e regressou aos sessenta e cinco – durante esse tempo veio a Portugal quatro vezes, uma delas coincidindo com a visita do presidente Kubitscheck a Lisboa, com quem se cruzou em Óbidos por mero acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Julho de 1970 começaram a chegar a Afife os caixotes que transportavam uma vida em secções – recordações dos trópicos, loiça europeia que viajara duas vezes pelo Atlântico, poeira de quarenta anos dedicados à cana de açúcar e ao café e uma reserva de charutos de capa escura que daria para outros quarenta anos de imigração nos sertões do Brasil. O Tio Alfredo Augusto foi o único agricultor da família e aquele que mais tempo resistiu aos trópicos mas a verdade é que vivia noutro país; a Tia Benedita desconfiava tremendamente do Brasil que, na sua avaliação, era uma nódoa de lascívia e a causa de todos os males que atravessaram o século dos seus pais e avós, deixando a pátria entregue aos inimigos do trono e do altar. Trata-se de uma injustiça que o tempo não reparará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, dois meses depois, tinham já sido desalojados todos os bens que chegaram nesses caixotes, o tio Alfredo Augusto atravessou o mar de avião, depois de, durante um mês em Copacabana, liquidar quarenta anos de vida, trocando-os por papéis bancários e títulos de investimento que com o tempo perderam qualquer interesse e utilidade. Só então regressou à pátria, exactamente como os antigos brasileiros torna-viagem do século passado, ao lado de um séquito muito reduzido de criadas que o acompanhou até ao fim da vida e que, aos domingos, lhe preparava guisado de quiabos e abóbora com carne seca. Os seus fatos largos, tropicais, os chapéus, os charutos, a rede que acolhia as suas sestas numa varanda, e um resto de sotaque que nunca perdeu totalmente – tal era o conjunto reunido da herança brasileira da família. Morreu tranquilamente em 1983 mas o seu testamento tinha sido entregue, muito antes, aos cuidados do irmão e advogado de sempre, o velho Doutor Homem, meu pai, que o considerava um homem honrado. Nele, deixava uma boa parte dos bens (na altura, ainda consideráveis), acumulados ao longo desses anos de trópicos, às criadas que tinham cuidado da sua gota, do seu estômago e da sua solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma figura de romance. Nunca soubemos nada da sua vida. Ainda hoje acreditamos que não teve amores, nem doenças, nem descendência. Desapareceu como poeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 13 de Junho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6391016187422241350?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6391016187422241350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6391016187422241350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/06/uma-breve-viagem-ao-seculo-passado.html' title='Uma breve viagem ao século passado'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7426573078939699142</id><published>2010-06-06T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-06-06T00:10:00.062-01:00</updated><title type='text'>Elogio da melancolia e de um oboé perdido</title><content type='html'>O meu racionalismo – que percorre a família como uma maldição anti-romântica – não apagou o prazer de ver bandas de música percorrendo, ao calor do Verão, as ruas do Minho. No fundo, tanto o velho Doutor Homem, meu pai, como Dona Ester, minha mãe, nos educaram na presunção de que, embora tenha de existir uma vida depois da morte (caso contrário, nada disto valeria a pena), convém não desperdiçar o que esta nos providencia. A ideia é tão banal como haver estações do ano e uma finalidade para todas as coisas; uma das finalidades do Verão é uma vez por ano peregrinamos até aos arredores dos Arcos de Valdevez, onde para visitar os escombros do que foi a vida do Tio Henrique, um virtuoso do oboé, instrumento que resumia toda a sua melancolia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No calor de Verões antigos, quando as estradas do Minho eram estreitas e ocupavam pouco espaço numa paisagem verde e generosa, o oboé do Tio Henrique (um ex-militar que prezava Mouzinho e as campanhas de África, a que atribuía um papel civilizador largamente exagerado) era o próprio coração da melancolia. Nessa escala, comparava-se aos velhos discos de Anna Moffo, a soprano favorita do velho Doutor Homem, meu pai, que produziam nostalgia a rodos pelos corredores do casarão de Ponte de Lima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A melancolia é coisa de gente civilizada. Não existe, aliás, civilização que se preze sem uma certa cultura da melancolia, que funciona como um freio à risota que nos deixa sem destino; ela acalma os sentidos, treinando-os e despertando-os, abrindo sulcos nas memórias e nas genealogias, perfumando de beleza as coisas que passam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa, a assaltante mais assídua da minha biblioteca, ficou perplexa com a existência de um exemplar da ‘Anatomia da Melancolia’, de Robert Burton, com as suas 1500 páginas distribuídas pelos dois volumes de uma edição popular que o velho Doutor Homem, meu pai, trouxe de Inglaterra. Expliquei que a melancolia era uma matéria antiga e que o livro (que durante muito tempo foi apenas considerado um manual sobre doenças mentais) era de 1621.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até a Tia Benedita, que nunca leu Shakespeare nem conhecia o nome de Burton, era inteligente o bastante para compreender que o medo da melancolia era o medo verdadeiro (tirando a República e o fantasma do dr. Afonso Costa, nada a atemorizava) – o medo de as pessoas ficarem um pouco diante de si mesmas, cultivando os gladíolos do jardim. O velho Doutor Homem, meu pai, detestava gladíolos, mas admirava a Tia Benedita, que nunca disfarçou a melancolia que lhe provocava o retrato do senhor Dom Miguel, resguardado da risota no casarão limiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 6 Junho 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7426573078939699142?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7426573078939699142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7426573078939699142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/06/elogio-da-melancolia-e-de-um-oboe.html' title='Elogio da melancolia e de um oboé perdido'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1599846324522891766</id><published>2010-05-30T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-05-30T00:10:00.429-01:00</updated><title type='text'>Das cartas dos leitores à ideia de felicidade</title><content type='html'>Além dos grandes editoriais (antigamente, “artigos de fundo”) e das curiosidades sobre bibliofilia que incluíssem algum dos seus autores de sempre, o velho Doutor Homem, meu pai, coleccionava as páginas do ‘The Daily Telegraph’ onde vinham as cartas dos leitores. Descubro, entre as velhas pastas de recortes, uma ou outra que contêm o precioso material – reunido daria para um romance (na época não havia ainda “a sociologia”, essa ciência moderna que – dizia o velho causídico, descrente e céptico – “misturava socialismo e astrologia”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas delas mencionam o estado do tempo, dúvidas sobre palavras cruzadas e regras de etiqueta, reparos sobre minudências de história britânica ou diplomática (a data de uma batalha, um título adquirido na Índia, uma viagem através do Suez), receitas de cozinha galesa ou, até, protestos contra a excessiva cobrança de impostos. As cartas mencionavam o título nobiliárquico, se existia, académico ou político – e eram bem escritas; quase tão bem quanto as que, anualmente, o tio Alberto, bibliófilo de São Pedro dos Arcos, enviava aos jornais da Galiza a pronunciar-se sobre a qualidade das ostras de Ribadeo ou de Corcubión, ou aos três periódicos do Porto queixando-se do abandono das estradas de Paredes de Coura. Isso acontecia, lembrava a tia Benedita, porque “ele tinha tempo”. Não é totalmente verdade mas isso não explica a razão que levava o velho Doutor Homem, meu pai, a coleccionar essas cartas publicadas em jornais que dedicavam parte do seu espaço a polémicas fatais sobre problemas de palavras cruzadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus irmãos e irmãs (que são optimistas por natureza) acham que a internet, os jogos electrónicos e as séries de televisão não contribuem para o atrofiamento do cérebro e que, pelo contrário – como os tempos mudaram – eu devo abster-me de falar de velharias que não se entendem hoje em dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos catorze anos, eu economizava dinheiro para livros ou para mais tarde comprar um fato de três peças. Fui criado no meio de livros e o meu avô acreditava que a cultura (bem como o conhecimento da astronomia, da filatelia ou dos princípios gerais da contabilidade) trazia alguma felicidade ou, pelo menos, assuntos para conversas com sujeito, predicado e complemento directo. O velho Doutor Homem, meu pai, educado pelos mestres da ironia, pelo cosmopolitismo da época e pela necessidade de alimentar uma família numerosa, não acreditava na felicidade nem como um direito nem como um ideal – limitava-se a coleccionar as coisas simples das cartas de leitores do ‘Telegraph’. Não vejo outra explicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 30 Maio 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1599846324522891766?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1599846324522891766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1599846324522891766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/05/das-cartas-dos-leitores-ideia-de.html' title='Das cartas dos leitores à ideia de felicidade'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7729239024368190778</id><published>2010-05-23T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-05-23T00:10:00.329-01:00</updated><title type='text'>Sobre o Leviatão que há em nós</title><content type='html'>A minha sobrinha queixa-se amargamente (suponho) de que estive três semanas a falar de contabilidade sem – nas suas palavras – eu dizer o que queria ter dito. O que ela supõe que eu gostaria de ter dito é o seguinte: sim, o dr. Salazar, com aquele seus princípios de contabilista de loja de fazenda, ou de auxiliar no almoxarifado de estalagem, tinha razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O almoço de domingo passado entreteve-nos nesta discussão. A pátria sofre ataques contabilísticos e parte da família (felizmente, não muito substancial) dedica-se a assuntos conexos. Cada um dá a sua opinião, e a soma é a seguinte: ou economizamos na manteiga ou teremos de a pedir emprestada ao vizinho. Aqui, o problema é duplo: por um lado, o vizinho desconfia de que não há solvência bastante para lhe devolvermos a manteiga; por outro, o vizinho economizou alguma, mas precisa dela para os gastos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Discutir finanças com recurso a metáforas já é suficientemente mau; mas acrescentar-lhe uma parábola (a da manteiga, de gosto duvidoso) passa a assunto de costumes. Há quase vinte anos que não me dedico à ciência económica – um assunto que ficou arrumado , no Porto, no velho escritório da família, quando decidi retirar-me para os pinhais de Moledo convencido de que a pátria se tinha morigerado e que estávamos no caminho do progresso. Mesmo assim, os hábitos frugais dos Homem, longe da sovinice, recomendaram sempre economias, poupança, aforro – os Homem não confiam no Estado, nem para cobrar o imposto nem para gastá-lo depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, tinha gostos moderados e gastos sem expressão. Habituado à contemplação, às sestas de fim de semana e os Verões supliciantes de Ponte de Lima, bastava-lhe considerar que a vida tinha um termo e que ele não estava talhado para decidir quando seria esse dia. Limitava-se a um pequeno-almoço de torradas com pão do dia anterior e à leitura de jornais; o café de cevada mantinha-o erguido durante toda a manhã – e considerava que “jantar fora” era um luxo fora de moda, bom para burgueses e homens sem família. Ele tinha razão no essencial; a ementa dos restaurantes era péssima e os perfumes da cozinha de casa ainda hoje são recordados com saudade. Habituados a poupar no acessório para dar satisfação ao essencial, duas gerações de portugueses remediados puseram as suas economias a salvo, na convicção de que esse sacrifício tinha sido feito por eles e não pelo Estado. Mudou tudo, entretanto. Não há nada na vida das pessoas sobre que o Estado não tenha opinião, desde alta economia até puericultura. E esse é o nosso principal problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 23 Maio 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7729239024368190778?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7729239024368190778'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7729239024368190778'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/05/sobre-o-leviatao-que-ha-em-nos.html' title='Sobre o Leviatão que há em nós'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8009109027676354831</id><published>2010-05-16T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-05-16T00:10:00.941-01:00</updated><title type='text'>As más evidências da contabilidade</title><content type='html'>Vivemos na época da contabilidade. O velho Doutor Homem, meu pai, era especialista em direito bancário e conhecia os seus meandros mais subtis; creio que por isso me encaminhou para a área “do Civil”, acreditando – suponho que erradamente – que o meu “temperamento” me iria indispor contra essa comunhão com o “deve” e o “haver”. Tirando um tio dos Arcos, que mencionava com agrado e certa imponência a “ciência do notariado” e mesmo a “beleza dos actos notariais”, ninguém mostrava demasiada deferência em relação às suas ocupações profissionais. Isso devia-se, estou em crer, a uma certa independência de espírito, bem como à noção de que o mundo, se não acabava nas últimas videiras de Caminha ou nos cúmulos de Santa Tecla, também não podia encerrar-se nas paredes de um escritório, por muito confortável que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já o meu avô paterno, administrador de quintas do Douro e conselheiro de alguns exportadores ingleses de vinho do Porto (a quem teve de ler e recomendar ingestões regulares de Camilo Castelo Branco, para lhes mostrar a natureza dos nossos fígados), privava com a contabilidade e era íntimo das operações essenciais e acessórias dessa ciência que os seus filhos, modernos para a época e educados como varões cosmopolitas, desprezaram com método e desprendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abrir as páginas dos jornais, hoje em dia (mesmo para um velho de Moledo que foi contemporâneo da revolução da penicilina e assistiu às primeiras polémicas sobre os fatos de banho femininos nas praias do Minho), é um exercício penoso que requer conhecimentos contabilísticos e operações com percentagens e várias casas decimais. A isso se dedicam os políticos hoje em dia, coisa que devia indignar tanto Disraeli como o velho Doutor Homem, meu pai. A posteridade recorda a máxima defendida pelo dr. Salazar, que vivia agarrado ao Almanaque Bertrand, muito útil às donas de casa: não gastar mais do que se aforra. Este princípio era válido para a economia de então, em que se faziam coisas, se produziam coisas, se vendiam coisas – e se conhecia o preço de tudo isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como princípio, é elementar. A independência das famílias dependia dele. Os Estados arrastam, no entanto, uma clientela difícil de satisfazer e a quem os políticos prometeram o direito à felicidade e ao ‘superávit’. Era provinciano, senil e pobre – até como princípio. Mas, infelizmente, ainda não se inventou melhor forma de praticar a ciência da contabilidade. As coisas são como são, explico eu à minha sobrinha Maria Luísa que, na véspera de cumprir 40 anos, ainda não cedeu às evidências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 16 Maio 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8009109027676354831?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8009109027676354831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8009109027676354831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/05/as-mas-evidencias-da-contabilidade.html' title='As más evidências da contabilidade'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-8098937213560223686</id><published>2010-05-09T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-05-09T00:10:00.716-01:00</updated><title type='text'>Sobre o bulício das velhas estradas</title><content type='html'>Recordo, com alguma melancolia – Maio é o mês em que as mimosas começam a despontar –, as velhas estradas do Minho: estreitas, curvilíneas, de empedrado, com rectas excepcionais, passando por florestas de pinheiros e servindo de observatório do litoral. Era antes da democracia, da indústria automóvel e do aumento do preço da gasolina. Com essas instituições, o carro passou a ser um bem tão indispensável como, outrora, o relógio que todo o noivo devia enfiar no bolso do colete. O bulício dos pinhais, para recordar um dos poemas mais mortíferos da nossa Língua, foi substituído pelo ruído dos automóveis a passar na estrada, lá em cima. Depois, pelo das máquinas que abriam mais estradas paralelas. Não menciono, já, os caminhos perdidos nas serras, por onde chegávamos aos Arcos de Valdevez e ao Lindoso, ou por onde subíamos e descíamos até conseguir chegar ao velho pontão carcomido pela água da lagoa de S. Pedro de Arcos. Era aí que ficava, bem perto, o refúgio onde se albergara o Tio Alberto, bibliófilo emérito, gastrónomo, jurista, aventureiro e autodidacta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele repousa hoje no velho cemitério – decorado por um fila de invejáveis ciprestes, em cuja base cresceram trepadeira de rosas de Santa Teresinha – onde vários Homem enfrentaram a escuridão da eternidade. Nenhum deles conheceu a avidez de hoje pelas auto-estradas – viveram antes da democracia e da televisão a cores, tomaram o seu lugar em comboios onde o pó assentou e a ferrugem acabou por devorar os varandins, ignoraram a Alta Velocidade (a Tia Benedita continuaria a ignorá-la se vivesse hoje), nunca conheceram vertigem maior do que as trovoadas que assolaram os telhados do velho casarão de Ponte de Lima onde uma invejável cópia do retrato do senhor Dom Miguel sobrevive como uma assinatura de família, mostrando a que século pertencemos e a que fuligem do nosso atraso seremos devolvidos pela História, cruel, vitoriosa e implacável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único campeão das estradas do Minho dessa época foi, evidentemente, o Tio Alberto. Em 1967 compareceu em Ponte de Lima na companhia de um Alfa Romeo Giulietta Spider – um “vero Osso di Seppia”, como então dizia a bela sociedade de Milão – que foi considerado um atrevimento na época e um desafio ontológico à nossa modéstia congénita. Guiei-o várias vezes e senti-me, na época, um actor de cinema. Imaginei-me ao lado de uma jovem brasileira e sardenta com quem outrora passeei na ainda mais jovem Copacabana dos anos cinquenta. Mas isso é outra história que não tem a ver com o bulício das nossas estradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 9 Abril 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-8098937213560223686?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8098937213560223686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/8098937213560223686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/05/sobre-o-bulicio-das-velhas-estradas.html' title='Sobre o bulício das velhas estradas'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6649265328885964437</id><published>2010-05-02T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-05-02T00:10:00.282-01:00</updated><title type='text'>Algumas observações sobre contabilidade</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, como muitas pessoas da geração, tratou de várias falências. Especializado em direito bancário, parte do seu trabalho era dedicado a acompanhar as minudências da vida de empresas e de uma ou outra fortuna; de qualquer modo, não estava imunizado contra a vetusta inclinação para o escândalo própria das cidades burguesas do século XIX. Tirando o vintismo revolucionário, que ele achava uma extravagância própria da época, o velho causídico nunca deixou de ser um homem do Porto burguês e confortável, bem alimentado e com uma natural tendência para a ironia e o individualismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que as falências eram atribuídas ao que hoje se chama “má gestão” ou a desvarios de mau proprietário – que iam do mau uso do dinheiro até à quebra de compromissos bancários, passando pela prática do adultério (que, aos poucos, esgotava as bolsas mais recheadas) ou pela tendência para gastos estapafúrdios numa cidade habituada à morigeração e à parcimónia. Um dos meus sobrinhos, que dedica o seu tempo e inteligência aos mistérios da economia (uma ciência que o tempo aproximou, cada vez mais, da cartomancia e da astrologia divinatória), não compreende esta teoria e atribui-lhe a origem do “provincianismo português” em matéria de negócios; como já ouvi falar de “falências criativas” e de uma prática alquímica designada por “engenharia financeira”, suponho que há um fundo de verdade nisso, mas duvido muito: o género humano habituou-se a um certo número de vícios relacionados com o dinheiro, e não é provável que tenha mudado tanto nos últimos cem anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se bem que várias vezes tivesse considerado o dr. Salazar como um produto deteriorado do conservadorismo português, o velho Doutor Homem, meu pai, achava duas coisas suplementares: a primeira, que não existia conservadorismo português (ele acreditava que só havia conservadores em Inglaterra); a segunda, que esse conservadorismo, para não ir mais longe, era o resultado da ignorância sobre como o mundo funcionava para Leste de Vilar Formoso e Norte de Valença – e uma degenerescência do analfabetismo religioso. Falo do dr. Salazar porque ele tinha uma visão simples e fácil do modo como se evitavam as falências, resumida no seu modo de dirigir o país: mão de ferro e contabilidade de instrução primária. Hoje, já ninguém se contenta com isso e fala-se da falência da pátria como de uma inevitabilidade. O velho Doutor Homem, meu pai, desprezava o dr. Salazar mas achava que o seu espírito de contabilista tinha alguma razão de ser e que não se devia gastar mais do que se ganha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 2 Maio 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6649265328885964437?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6649265328885964437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6649265328885964437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/05/algumas-observacoes-sobre-contabilidade.html' title='Algumas observações sobre contabilidade'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-797428367709169390</id><published>2010-04-25T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-04-25T00:10:00.363-01:00</updated><title type='text'>Nuvens de cinza sobre Moledo</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa admitiu que Portugal estava isolado do mundo porque não pôde regressar de Londres devido ao vulcão islandês. A presença da Islândia na biblioteca da família deve-se, naturalmente, a Pierre Loti e a ‘Pescador da Islândia’, que não tem rigorosamente a ver com a Islândia, e a ‘Viagem ao Centro da Terra’, de Júlio Verne, que nos envia por um túnel islandês até ao lugar onde as esferas se movem. A referência às esferas é extemporânea, uma vez que só uma pequena percentagem de leitores sabe que os nossos antepassados supunham que no centro da Terra existia um mecanismo que comandava os movimentos do planeta. Ai de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando isso, a Islândia era muito mais longe do que o pico enevoado de Santa Tecla ou as falésias de Ribadeo (onde os Homem de outras eras se deslocavam durante a temporada da ostras – eles eram leitores de Cunqueiro, especialmente o Tio Alberto, o bibliómano de São Pedro dos Arcos) – e, portanto, não existia com propriedade.&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, cuja formação intelectual (onde se incluía o corte dos fatos, copiados de Savile Row por um mestre alfaiate dos Clérigos) deve quase tudo a Londres, era mais cosmopolita e supunha – com razão – que o mundo se estendia pelo menos até às Hébridas, onde o Doutor Johnson peregrinou para repousar da literatura, da biblioteca e das tavernas à beira do Tamisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer modo, a família tinha do mundo uma ideia razoavelmente ilimitada. Tios afastados ou próximos, parentes vetustos, primos desagradáveis ou familiares obscuros instalaram-se em pontos díspares do velho império, do Brasil ao planalto central de Angola, do Alentejo (desde que fosse longe de Évora Monte) aos picos enevoados de Paredes de Coura. Simplesmente, o resto do mundo não existia enquanto lá não se pusesse um pé (excepção feita às minhas irmãs, que viajaram pelas Caraíbas e pelos spas tailandeses). A Islândia teria vulcões por sua livre vontade desde que não interferisse no andamento das coisas – porque a maior parte das viagens se faziam de comboio ou de carro, atravessando as noites profundas do velho continente ou as recordações da sua civilização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa viu as coisas com algum ressentimento. Parte dos portugueses gemeu de tristeza por não ter sido atingida pela nuvem de cinza. Até Dona Elaine, a governanta de Moledo, durante o pequeno-almoço de segunda-feira passada, deu conta do seu orgulho, encantada: “O senhor doutor já viu? A nuvem já chegou aos Açores.” Felicitei-a. Mas olhei para o céu, temeroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 25 Abril 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-797428367709169390?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/797428367709169390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/797428367709169390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/04/nuvens-de-cinza-sobre-moledo.html' title='Nuvens de cinza sobre Moledo'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7316374082559330150</id><published>2010-04-18T00:58:00.000-01:00</published><updated>2010-04-19T01:00:34.998-01:00</updated><title type='text'>Apesar da chuva chegará o Verão</title><content type='html'>A vida mudava todos os anos, quando começava a época balnear, eufemismo usado na velha casa de Moledo para assinalar um levíssimo aumento das temperaturas ao aproximar-se o São João. A data era, na verdade, um marco no nosso calendário familiar e coincidia com uma série de actividades nem sempre olhadas com benevolência pelos autóctones.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha irmã protestou durante muito tempo pelo facto de eu me referir à população local como "os autóctones". Ela supunha que o termo era desagradável ou transportava significados humilhantes. Tive de explicar, pacientemente, que "autóctone" se referia, com dignidade, aos naturais e habitantes da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para afirmar que se tratava de uma época como qualquer outra, e para que isso ficasse claro, Dona Elaine, a governanta que desde há anos assegura a sobrevivência da casa, recusava-se a participar de "reuniões desnecessárias", como ela chamava aos períodos de café e conhaque depois dos almoços de domingo, durante a Primavera de Moledo. O que Dona Elaine pretendia demonstrar ao que restava daquela família de desordeiros e devoradores bem alimentados é que o almoxarifado era assunto seu, fosse qual fosse a estação do ano, estivessem ou não ocupados os quartos da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, eu entendo-a bem. Habituada há cerca de vinte anos a lidar com esta família que a viu envelhecer mais um pouco, a antiga emigrante brasileira (regressou do lado de lá como herdeira de um tio instalado no Rio) encolhia os ombros e seguia em frente. Ela sabe que o Verão é um mundo à parte durante o qual a natureza age por sua conta e risco, de acordo com leis imutáveis. O que acontece ao eremitério de Moledo durante o Verão é ser invadido por uma legião de sobrinhos que se encarrega de introduzir alguma indisciplina no refúgio do Matusalém da família. Essa legião cresceu consideravelmente e eu aprendo bastante durante a temporada, sobretudo sobre o mundo que nos espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como estou a salvo, por questões meramente biológicas, de frequentar esse universo, limito-me a sugerir que não participarei, com eles, em cerimónias rituais para fumar haxixe ou entrar nas águas do mar de Moledo – assunto sobre o qual já falei na semana anterior. As minhas irmãs insistem em que eu devo ser poupado a esse festim estival; os meus irmãos não opinam; a minha sobrinha mais velha, Maria Luísa, informa que de Braga (onde vive) até Moledo "é um salto" e que pretende ocupar o seu quarto habitual durante os quinze dias em que assaltará a biblioteca; eu tomo nota da evolução da família, como um discípulo de Darwin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 18 Abril 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7316374082559330150?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7316374082559330150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7316374082559330150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/04/apesar-da-chuva-chegara-o-verao.html' title='Apesar da chuva chegará o Verão'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5073421304647452053</id><published>2010-04-11T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-04-11T00:10:00.591-01:00</updated><title type='text'>Memórias de Moledo com a chegada do Sol</title><content type='html'>O mundo era provavelmente mais triste nesses anos em que o meu avô percorria as colinas do Douro, descendo aqui e ali de um comboio vagaroso que se equilibrava sobre um rio escuro e profundo. As suas paragens coincidiam com a proximidade das quintas onde o velho administrador, contabilista e procurador (tarefas que desempenhava com competência) pernoitava entre proprietários ingleses, vinhateiros do antigo regime e fidalgos que discutiam genealogia. Discutia com eles as minudências das exportações, dos créditos bancários, do preços dos terrenos e – em anos maus – dos empréstimos a haver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um antepassado dos Homem morrera ali numa escaramuça dos anos trinta (do século XIX), quando a guerra civil se estendera às margens do Côa, do Távora e do Douro. O meu avô era discreto; se tivesse vivido nesse tempo teria sido um cartista durante a Regeneração, esquecendo a má redacção com que a Carta viera do Brasil. Aprendera, pelos seus próprios meios, que o trabalho não é um valor em si mesmo e que se limita a proporcionar o mais inestimável dos bens: o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu via-o regressar das colinas do Douro, carregado de cabazes e livros de assentos, com a sensação de que recuperara uma parte do seu tempo. O seu ajudante nestas viagens dos anos trinta e quarenta foi um fidelíssimo escriturário portuense que o acompanhou até à morte nos mistérios da contabilidade e da administração – e que lhe herdou o escritório e a clientela, que manteve durante muitos anos. Era um homem bom e sem história, em quem os negociantes e produtores de vinho depositavam confiança e dinheiro. Ele, sim, com a sua modéstia de burguês do Porto, ensimesmado e discreto, seria a figura de um romance. Teve as suas primeiras férias quando o velho Doutor Homem, meu pai, comprou este pinhal onde hoje se ergue o eremitério de Moledo, construído por mim no final dos anos setenta. Veio, com a família, dizer-nos que era inútil metermo-nos em agricultura; bastou-lhe olhar os terrenos, que alcançavam as colinas que depois seria desbravadas por estradas que levariam às praias de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, não se faz vinha?”, perguntou-lhe o velho Doutor Homem, meu pai, cujos contactos com a agricultura se resumiam a ter ouvido falar de hortas de onde se colhia salsa e onde cresciam ervilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se faz vinha.” Foi mais do que uma opinião. Daí em diante, improdutivos, ficámos quase românticos, olhando o nevoeiro entre as agulhas dos pinhais. Hoje, para lá dos muros da casa, observo as dunas e a chegada dos primeiros voluntários que se depositam sobre a areia, venerando o sol do Moledo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 11 Abril 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5073421304647452053?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5073421304647452053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5073421304647452053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/04/memorias-de-moledo-com-chegada-do-sol.html' title='Memórias de Moledo com a chegada do Sol'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1482977717023000748</id><published>2010-04-04T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-04-04T00:10:00.499-01:00</updated><title type='text'>Acordar cedo uma vida inteira</title><content type='html'>O frio polar demora-se mais este ano nos areais de Moledo. Era justamente sobre Moledo que o velho doutor Homem, meu pai, gostava de relembrar que as praias de águas frias são um privilégio das classes abastadas, que se podem dar ao luxo de sofrer as agruras do mar do Minho como uma espécie de disciplina ou de sofrimento pessoal que os alivia de outras culpas; a generalidade das pessoas procura estações balneares mais amenas e onde existe aquilo a que dão o nome de turismo. Os velhos podem dar-se ao luxo de esperar que, nas manhãs de Moledo, o nevoeiro levante e o céu se ilumine; não têm pressa nem guardam uma finalidade para uma existência de que vislumbram um termo. E, tirando os velhos, apenas os mais jovens, que desconhecem a importância de acordar cedo, de manter horários e de tomar o pequeno-almoço antes das nove horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Habituei-me a acordar cedo por motivos de saúde, recuperando de uma série de consecutivas gripes que Dona Ester, minha mãe, acreditava que se curavam com ares do campo e da praia, transitando entre os pinhais do Minho e os areais batidos pela ventania galega. Logo de manhã, essa operação ginástica obrigava-me a despertar fisicamente e a apreciar coisas a que os meus sobrinhos raramente assistem: o pão estaladiço, o cheiro do café numa cozinha, a frescura do primeiro raio de sol, a maré vazia na praia. Até há pouco tempo, raramente conseguia companhia – para me restringir à família propriamente dita – para as minhas manhãs. Maria Luísa, durante as suas férias em Moledo, esforçava-se por não perder o pequeno-almoço de Dona Elaine, chegando sempre à sala de jantar a horas do almoço, mas convencida de que a madrugada estaria ainda para despontar. Esforcei-me, durante muito tempo, por adivinhar que coisas extraordinárias aconteciam à noite e que obrigariam tanta gente a privar-se do sono e do repouso a horas decentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em determinadas circunstâncias (geralmente durante a sua semana integralmente passada no estio de Ponte de Lima, quente, abafado, cheio de romarias nas colinas e de bridge aos serões), o velho doutor Homem, meu pai, costumava fornecer o exemplo de Churchill, que se levantava tarde. É verdade; também Estaline acordava pelo meio-dia. Mas, durante as férias, diz-se que Churchill se levantava cedo para poder apreciar – como pintor que era – as cores do amanhecer. As cores, não sei; mas o apetite devorador, conheço-o de memória, antes de iniciar o regime alimentar da terceira idade. Mesmo com este frio polar pressinto que as manhãs têm ainda o mesmo encanto de há um século. Quanto às noites, pressinto que sejam apenas mais animadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 4 de Abril 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1482977717023000748?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1482977717023000748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1482977717023000748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/04/acordar-cedo-uma-vida-inteira.html' title='Acordar cedo uma vida inteira'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-7958475666695116713</id><published>2010-03-28T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-03-28T00:10:00.620-01:00</updated><title type='text'>Um pobre botânico entre bárbaros ao acaso</title><content type='html'>A botânica limiana foi um mistério que ficou por esclarecer: o emaranhado de videiras de enforcado, de freixos e choupos, de castanheiros na serra e de pinhais à beira da estrada sempre contribuiu para que aquele verde natural se parecesse com um quadro arrumado, como nas estampas inglesas. O velho Doutor Homem, meu pai, nunca se comoveu com a Natureza – não lhe tinha horror, mas desprezava as cantilenas bucólicas e a enumeração de benefícios prodigalizados pelo oxigénio das províncias. Ele, que era sobretudo um homem da cidade, afirmava desconhecer a existência de japoneiras e de magnólias nos jardins do Porto, mesmo se se sentava diante de uma dessas árvores. Tudo o que tivesse uma copa, um tronco e se assemelhasse verdadeiramente a uma espécie botânica era para ele um enigma a contornar com desinteresse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante as férias de Verão em Ponte de Lima, o velho Doutor Homem, meu pai, costumava mesmo pagar cinco escudos a cada neto para que eles arrancassem os gladíolos do jardim, uma das plantas a que a Tia Benedita dedicava alguma devoção (Dona Ester, minha mãe, acreditava que a generosidade do gesto tinha mais a ver com a vontade em se ver livre da gritaria do que com a sua aversão às plantas). Refugiado no escritório, ouvindo discos da sua soprano preferida, Anna Moffo, o velho causídico evitava o contacto com os campos e as tarefas de jardinagem, com o argumento de que a Natureza ficava bem na pintura em geral, mas que, vista de perto, tinha inconvenientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo contrário, eu fui educado por Dona Ester, minha mãe, na crença de que o ar livre, os areais de Afife, os canteiros da Foz, os pinhais de Viana e as florestas em geral eram contributos para o equilíbrio emocional. Porém, a minha vida como botânico começou muito mais tarde e como uma prova de que a preguiça não tem limites no género humano. Foi a botânica – o conhecimento das espécies, a paixão pela história dos hibiscos ou das gardénias, a perseguição de um exemplar raro – que me permitiu, ao longo da vida, reunir argumentos para não sair de casa, cuidando dos vasos e providenciando sombra e sol conforme as necessidades. O meu tio Alberto, gastrónomo e bibliómano de São Pedro dos Arcos, achava a ocupação “um tanto trapalhona” – também ele, vivendo numa das colinas mais verdes do Minho, tinha pela Natureza um desinteresse notório. Achava que os rios eram interessantes consoante a temporada da lampreia ou da truta; e que as hortas ficavam muito bem enquadradas junto dos povoados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vejo a copa dos pinhais de Moledo recortadas no céu amedrontado do entardecer, a verdade é que não penso na Natureza. Penso na música. Mas é outro tema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 28 Março 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-7958475666695116713?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7958475666695116713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/7958475666695116713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/03/um-pobre-botanico-entre-barbaros-ao.html' title='Um pobre botânico entre bárbaros ao acaso'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3464140824268291544</id><published>2010-03-21T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-03-21T00:10:00.449-01:00</updated><title type='text'>A pátria sentimental e o mal da literatura</title><content type='html'>Esta semana, alguém voltou a insistir na “minha obrigação” de “escrever um romance”. Uma parte do país sente essa obrigação, como se a literatura despertasse as suas sirenes com os decibéis afinados, chamando os soldados às trincheiras. E os soldados são, hoje em dia, um extraordinário leque de alfabetizados, capazes de consultar um dicionário de rimas, uma gramática, um prontuário, um folhetim — mas que o não fazem por preguiça, limitando-se a entrar na trincheira e a disparar como lhe parece. Ou seja, “a escrever um romance” (obrigação a que quase toda a classe média lusitana aspira desde que tenha um palco, por mais reduzido que seja) ou a compor um ramalhete de versos (obrigação nacional, equiparável à obtenção do bilhete de identidade, que já se não usa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relação dos portugueses com a literatura é de tal forma dedicada que mais de dois terços da população nunca leu um romance e metade dos recenseados nunca leu um livro de versos, para não me referir às leituras úteis, propriamente ditas. Em vez disso, cerca de metade dos herdeiros de Camões e de Junqueiro (o poeta mais desacreditado entre os Homem) já sonharam ser autores de uma colecção de romances e de uma lírica com substância e tamanho; apenas não tiveram tempo, para grande felicidade das bibliotecas, cujo espaço está cada vez mais reduzido, como se lamentava o Dr. Barreto Nunes, que — de Braga — me fazia as suas recomendações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho Doutor Homem, meu pai, achava que os portugueses escreviam mal porque eram sentimentais e tinham sido governados por vates românticos que desconheciam haver uma relação entre o sujeito, o verbo e o complemento directo. O sentimentalismo português alimentou várias doenças melancólicas e certamente dispensáveis. Em vez da gota, do reumatismo e dos males hepáticos, os portugueses são mais dados a doenças como a poesia lírica e sentimental, a dramaturgia metafísica ou a dedicação a Fernando Pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camilo, que sorria de cada vez que se revelava um romântico de laboratório, sabia como era fácil encher de lágrimas os olhos das suas leitoras. Vingava-se com histórias comoventes e rapaces, expondo a sua ternura pelos bandoleiros, pelos padres que bebiam genebra, pelos generais vencidos, pelas aventureiras que sobreviviam nas províncias e pelos legitimistas que nunca reconheceram a concessão de Évora Monte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para reconhecer esse génio raro e grave, o país teria de mudar. Não mudou. Preferiu albergar, fabricar e proteger milhares de pequenos funcionários da literatura, criados pelo regime constitucional e defendidos pelo sentimentalismo. Desde então não mudámos muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 21 Março 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3464140824268291544?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3464140824268291544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3464140824268291544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/03/patria-sentimental-e-o-mal-da.html' title='A pátria sentimental e o mal da literatura'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6792743123370410923</id><published>2010-03-14T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-03-14T00:10:00.379-01:00</updated><title type='text'>Um sociólogo perdido no coração do Minho</title><content type='html'>A minha sobrinha Maria Luísa tem uma paixão de pelo menos duas décadas pela sociologia, uma ciência moderna a que atribui virtudes larguíssimas. No meu tempo não havia sociologia mas conhecíamos conceitos muito em voga, como “estatísticas” e “probabilidades”, que vinham da matemática. A sociologia, porém, suscita comentários elogiosos e quase apaixonados, o que contrasta com o cepticismo da família. O velho Doutor Homem, meu pai, admitia tratar-se de uma palavra que misturava, generosamente, ‘socialismo’ com ‘astrologia’. O velho causídico, mesmo tendo sobrevivido ao 25 de Abril, não chegou a conhecer o esplendor da Pátria, povoada de sociólogos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, Maria Luísa sucumbiu, indignada, à revelação – feita por sociólogos americanos – de que o “casamento moderno” tinha menos hipóteses de perdurar do que o “casamento à antiga”. A distinção entre uma e outra forma de casamento são-me relativamente indiferentes, uma vez que, como o leitor sabe, nunca provei o nem o mel nem o fel de qualquer das suas versões. Fui criado rodeado de casamentos tradicionais, à antiga, que terminavam com a viuvez – e, como qualquer pessoa do Porto que tivesse lido os livros de Camilo ou de D. Agustina, cercado de histórias sobre escândalos matrimoniais. Insensível aos benefícios, virtudes e vantagens do casamento, nunca entrei no número dos abençoados, o que fez de mim um monstro que também não conheceu a puericultura nem o maravilhoso mundo do relacionamento com as sogras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, parece que os sociólogos americanos concluíram que as pessoas que “coabitam” antes de se casarem têm mais probabilidades de chegar ao divórcio ao fim de, em média, cinco a dez anos. Maria Luísa acha que isto é propaganda reaccionária, servida nos tempos da igualdade de género, da pílula e da alimentação vegetariana. Lembrei-lhe que se trata de sociologia – e de sociologia feita por sociólogos. “Mesmo assim”, respondeu ela, lembrando que uma estatística é apenas uma estatística, e que uma estatística “não prova nada”. Achei uma boa estratégia: o facto de as coisas serem como são não significa que acreditemos nelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lhe relembrei os seus três casamentos mas esclareci que a sociologia não foi inventada por mim, que não confio em astrólogos. Há muitos anos que a infinita e menosprezada perspicácia da Tia Benedita, a matriarca reaccionária da família, se tinha adiantado aos sociólogos do século XXI. Mas o conceito de pouca-vergonha, que ela usava, não tinha aplicação científica. Eu sempre apreciei muito a imoralidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 14 Março 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6792743123370410923?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6792743123370410923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6792743123370410923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/03/um-sociologo-perdido-no-coracao-do.html' title='Um sociólogo perdido no coração do Minho'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-6149174910968223848</id><published>2010-03-07T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-03-07T00:10:00.374-01:00</updated><title type='text'>Sobre o clima e outras incertezas</title><content type='html'>Quando havia estações do ano, estávamos por esta altura a preparar a Primavera. Na literatura, a abundância de metáforas e de imagens sobre o assunto prova que a humanidade deposita – de ano para ano – grandes esperanças no mês de Março. Romances há que celebram, de passagem, a tepidez das primeiras tardes de sol depois dos vendavais e das geadas de Inverno; as personagens, reabilitadas pela meteorologia, ficam disponíveis para ultrapassar em desvario os seus criadores; o mundo, digamos, reorganiza-se com a chegada da Primavera, a estação do ano que mais má literatura produziu, tendo em conta as descrições extravagantes que o romantismo perpetuou e que a falta de talento sempre desculpa por misericórdia e preguiça. Mandasse eu, e haveria uma quarentena literária acerca da Primavera e das primeiras tardes tépidas do ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No velho Porto havia um requebro no céu, concedo: uma espécie de reconciliação da cidade não com a tepidez da literatura mas com o conforto das casas, com os domingos da Foz, com os crepúsculos mais tardios do rio e com o guarda-roupa que, finalmente, retomava o conceito de meia-estação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A família sempre prezou os meteorologistas e devotou, durante algum tempo, certa devoção ao dr. Anthímio de Azevedo. Dona Ester, minha mãe, apreciava-lhe sobretudo o nome e a dicção, além da forma bondosa com que se referia ao anti-ciclone dos Açores e à costa portuguesa a norte do Cabo Carvoeiro. Já o meu pai, pelo contrário, prolongava o pessimismo antropológico dos Homem ao ponto de imitar a Tia Benedita: mal ouvia as previsões meteorológicas encostava o nariz à janela, ou abria-a de par em par, para contemplar o céu e descortinar os cúmulos de nuvens que ambos interpretavam de acordo com a sua sabedoria de estudiosos do clima minhoto (sobretudo o de Ponte de Lima), o pilar meteorológico por onde todas as previsões deviam, em princípio, alinhar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal como os sacerdotes das religiões de outrora, várias coisas serviam para estabelecer as suas previsões meteorológicas, com nítida preferência para os sinais do reumatismo, que anunciavam as mudanças de estação. O velho Doutor Homem, meu pai, enfrentava as agruras do clima com a incerteza de um cáustico e a ironia dos cépticos. O dr. Anthímio, ai dele, não fazia parte das suas referências. Durante meses anotou numa agendinha do Banco Pinto de Magalhães as ocasiões em que o sábio da meteorologia se enganava nas previsões. Era a sua vingança contra a ciência moderna e a mania de as pessoas gostarem da Primavera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 8 de Março 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-6149174910968223848?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6149174910968223848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/6149174910968223848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/03/sobre-o-clima-e-outras-incertezas.html' title='Sobre o clima e outras incertezas'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-5509817190473169300</id><published>2010-02-27T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-02-27T00:10:00.558-01:00</updated><title type='text'>A história de um Verão que não regressa</title><content type='html'>Ao ver as antigas fotografias de que não consegui separar-me ao longo destes últimos sessenta e cinco anos, aproximadamente, vejo como elas reconstroem não só a minha recordação – que é vaga e disforme, turvada por desaparecimentos e mudanças – mas, também, a parte do passado que fiz por esquecer. Guardei tudo por uma espécie de masoquismo mas, também, pelo vício arquivista que os Homem mantiveram ao longo dos anos. Retratos, folhetos do paquete Funchal, ementas dos restaurantes da Wagon-Lits, hotéis onde pernoitei e de que guardo uma fotografia chuvosa, documentos com e sem importância – o meu passado está catalogado como uma enciclopédia a que quase nunca se recorre. A minha sobrinha Maria Luísa, à medida que passam os anos e espera por uma revelação que explique porque sou como sou, folheou alguns desses álbuns que pertencem, exclusivamente, ao meu passado. E o meu passado, como o passado de toda a gente que o conserva, é apenas um Verão que não regressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu celibato inquieta-a porque o destino das pessoas era o de se casarem e de terem filhos e de morrerem em família, como gente que cumpre a sua obrigação sem esperarem por outra satisfação. Ao regressar do Brasil, nesse Verão em que um risonho presidente Juscelino Kubitshek inaugurou Brasília, senti que me encaminhava, afinal, para o meu destino. Levado ao Brasil para – seguindo os conselhos e as ordens de Dona Ester, minha mãe – curar um mal de amor, voltava à Pátria para me recordar de outro. Dona Ester não tinha paciência para aturar achaques românticos, que em seu entender se curavam com temporadas de praia; isto favoreceu uma certa misantropia e um cinismo de que me não libertei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Michelle, a “pequena holandesa” (a designação é de Dona Elaine, a governanta de Moledo, que aprecia as relações multiculturais sem sair do Minho há trinta anos a não ser para as suas excursões à Galiza ou à Madeira) que namora o meu sobrinho Pedro, passou aqui o Entrudo e quis saber se eu era viúvo. Parece-me que a negociação dos calvinistas com a morte e a eternidade é um assunto trivial. Expliquei-lhe que não tinha essa infelicidade. Apenas não tinha casado. Ela suspeitou, durante uns instantes, que a minha relação com as mulheres era, portanto, renitente. Percebi-o e esclareci: que não. Há amores que nos tragam para sempre. No meu tempo éramos românticos ou cínicos. Não havia meio-termo. Calhou-me, ai de mim, inaugurar o período em que um homem podia ser as duas coisas ao mesmo tempo. E aqui estou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 27 Fevereiro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-5509817190473169300?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5509817190473169300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/5509817190473169300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/02/historia-de-um-verao-que-nao-regressa.html' title='A história de um Verão que não regressa'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-2465254455048085758</id><published>2010-02-21T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-02-21T00:10:00.269-01:00</updated><title type='text'>A perfeição do mundo e o riso dos Homem</title><content type='html'>Duas causas concorrem para que a vida seja como é: a natural imperfeição do género humano e a presunção de que o mundo pode mudar-se para benefício geral. O resultado disto é um pessimismo tão desastrado como, igualmente, confirmado pela História.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Portugal, graças à nossa tendência para a presunção e para a pompa, confunde-se muito o pessimismo com a tendência para a catástrofe. A Tia Benedita, que representa o braço do reaccionarismo na família, duvidava de tudo excepto dos seus dogmas particulares. Ela não depositava grande confiança nas realizações humanas, o que, além de amargurá-la, não lhe trazia desilusões de monta; limitava-se a achar que a família estava condenada a perecer sob os ataques da Maçonaria, da República e da imoralidade. O velho Doutor Homem, meu pai, apreciava-lhe a capacidade de não acreditar em nada, bem como a fidelidade às suas obsessões; o Tio Alberto, o bibliómano e gastrónomo de S. Pedro dos Arcos, limitava-se a viajar para não sucumbir ao pessimismo ancestral da família. Percorrer o mundo e regressar de mãos vazias pode bem ser um resumo da sua vida, de que sobraram uma biblioteca raríssima hoje em dia no Minho, alguns maços de cartas trocadas entre a Serra de Arga e as ventanias do Cáspio — e lendas que o elegem como o grande aventureiro desta família preguiçosa e renitente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem a Maçonaria, nem a República nem a imoralidade — reunidas ou por separado — conseguiram demover os Homem de cumprir o seu destino de derrotados da História. Com poucas ou nenhumas diferenças, os Homem de hoje limitam-se a cumprir os desígnios do passado: permanecerem despercebidos. As novas gerações consomem haxixe e ouvem rock, trocam de cônjuge, vivem a sua vida e evitam comprometer-se. Para seguir este caminho é necessária uma dose substancial de paciência. O velho Doutor Homem, meu pai, vendo o caminho que as coisas tomavam, e prevendo revoluções e catástrofes (que, de qualquer modo, só se realizaram pela metade), o velho advogado suportou com estoicismo as ilusões dos outros, sorrindo afavelmente para os excessos cometidos e a cometer. “Filosofemos”, pedia um derrotado político nas páginas do 'Eusébio Macário', de Camilo. Quer dizer: “Mudemos ao sabor da corrente — e inventemos uma explicação.” Ele nunca precisou de evitar esses escolhos. Acreditou que o mundo continuaria a organizar-se para ser cada vez mais tolerável mas imperfeito. Agiu em conformidade, dedicando-se à poda das japoneiras no jardim do casarão de Ponte de Lima. Um velho conservador nunca se surpreende com a história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 21 Fevereiro 2010&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-2465254455048085758?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2465254455048085758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/2465254455048085758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/02/perfeicao-do-mundo-e-o-riso-dos-homem.html' title='A perfeição do mundo e o riso dos Homem'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-3370176997458075715</id><published>2010-02-14T00:10:00.000-01:00</published><updated>2010-02-14T00:10:00.299-01:00</updated><title type='text'>A vida privada e as coisas escondidas</title><content type='html'>A vida privada é uma invenção recente, tal como a tintura de iodo. Antes da tintura de iodo existia o mercurocromo com solução a 5% (e, em algumas farmácias, a 10) além do pó de sulfamidas, de que ainda se guarda um minúsculo frasco num armário de medicamentos, creio que por distracção – e porque o acaso e a distracção andam juntos para provar que a vida não muda de um dia para o outro. A administração de gotas de mercurocromo, essa solução infalível para todos os ferimentos do Alto Minho, obedecia a uma tradição estival na nossa família – o Verão estava cheio de displicência, de arranhões e de feridas nos joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a criação da “vida privada”, essa, é ainda mais recente do que a da tintura de iodo. Antigamente, não existia, pura e simplesmente. Havia coisas públicas e havia “coisas escondidas”. Se alguma coisa pertencia à esfera do que viria a designar-se por “vida privada”, ficava circunscrita, antes disso, ao universo do que se escondia. Eram “coisas escondidas”. O espírito actual do mundo, no entanto, descrente das virtudes da civilização “judaico-cristã” (a expressão, ouvi-a pela primeira vez à minha sobrinha Maria Luísa a propósito da sua deambulação contra os tabus), acha que tem de haver “transparência”. Pois se há transparência deixou de haver “coisas escondidas”. Ora, eu tenho uma admiração secreta (nem podia deixar de sê-lo) pelas “coisas escondidas”, e a ideia de transparência lembra-me a minha imagem, ao espelho, vestido de roupa interior e pijama, só que exposta ao público. O interesse que o público tem, ou não, pelos meus pijamas, é coisa que naturalmente me transcende, embora eu prefira que eles sejam apenas conhecidos dentro de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o fim das “coisas escondidas” – o sexo, as economias, os hábitos pessoais de higiene, as conversas de maledicência à mesa de família – nasceu esse círculo desfocado a que se convencionou chamar “vida privada”. A “vida privada” está ao alcance do olhar do público; simplesmente, o público pode, ou não, conforme lhe for mais conveniente, estar ao corrente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando existiam cavalheiros, existiam “coisas escondidas”. Quando se convencionou que o cavalheirismo era uma excrescência e uma inutilidade que apenas trazia prejuízos num mundo burguês e comandado pela “transparência” – as “coisas escondidas” passaram a designar-se como “formas de hipocrisia”, tal como o fato de banho completo, o pudor e a literatura para todas as idades. Com isso, confesso, desapareceu uma das minhas razões de viver. A minha sobrinha acredita que sou um poço de perversidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 14 Fevereiro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-3370176997458075715?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3370176997458075715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/3370176997458075715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/02/vida-privada-e-as-coisas-escondidas.html' title='A vida privada e as coisas escondidas'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-855753619446221576</id><published>2010-02-07T00:10:00.001-01:00</published><updated>2010-02-07T00:10:00.215-01:00</updated><title type='text'>Duas rendodilhas sobre a pátria, insensível</title><content type='html'>O velho Doutor Homem, meu pai, não conheceu a democracia (sobrevivendo ao 25 de Abril, via na velha Inglaterra um modelo de decência) mas achava que o país tinha uma queda insuspeita para a lamechice. Ele atribuía isso à falta de carácter e ao gosto pela literatura romântica, muito constitucional e setembrista, alimentada por vates que gostariam de pôr em verso o Diário do Governo – e, em simultâneo, de transcrever para prosa didáctica os lamentáveis versos patrióticos de D. Pedro, modelo que ainda hoje se segue nos jogos florais das nossas províncias. A cada um, juntava, segundo as suas responsabilidades; à Pátria, conforme os seus defeitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha sobrinha Maria Luísa acha isto um arrazoado conservador e pouco digno de um velho que ainda lê romances ingleses. Esta semana veio indignada com “qualquer coisa” cujas culpas essenciais atribui ao governo. Limitei-me a confirmar, acenando, tanto mais que era necessário cuidar da terra para os hibiscos que me foram prometidos por um botânico de Vila Praia de Âncora, cobrindo-a de nova turfa e falando-lhe em surdina para que se não destempere. Ela achou “indecente” a minha “indiferença”, característica muito próxima da misantropia, se o não fosse da tolerância com que devemos aceitar os dislates do nosso tempo. Limitei-me a confirmar que vivemos em democracia e que o povo tinha votado – o que, em linguagem do Minho de antanho, também quer dizer “lá as fizeram, lá se arranjem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu tempo já não se perde em matérias tão superiores como a ciência política ou tão especiosas como certas minudências de história da Pátria. Limito-me a considerar, vagamente, que não compreendo a surpresa – como se gente medíocre e ressentida só pudesse produzir mediocridade, ressentimento e tiranias. De todas as coisas que os Homem conservaram nos últimos dois séculos, titubeando entre revoluções e a modorra que o dr. Salazar inventou, uma se distingue: o conhecimento do mundo mostra que o género humano aprecia as tiranias estabelecidas em nome do progresso. O único problema é que o género humano não progrediu grandemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S. – O Dr. Henrique Barreto Nunes reformou-se da Biblioteca Pública de Braga, o que é uma perda substancial, não para a Biblioteca, mas para os seus livros (que o conheciam bem) e para leitores aplicados e com gosto. Durante décadas, ele iluminou com sabedoria e sensatez aquelas estantes. Convidá-lo para um almoço de Sábado neste eremitério de Moledo é uma obrigação a que não faltarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 7 Fevereiro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-855753619446221576?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/855753619446221576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/855753619446221576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/02/duas-rendodilhas-sobre-patria.html' title='Duas rendodilhas sobre a pátria, insensível'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21606493.post-1867860188015157518</id><published>2010-01-31T00:10:00.002-01:00</published><updated>2010-01-31T00:10:00.150-01:00</updated><title type='text'>O regicídio, o heroísmo e a geração desiludida</title><content type='html'>A Tia Benedita foi contemporânea do regicídio e soube da notícia no próprio dia, ao crepúsculo gelado de Ponte de Lima. O seu pai, nosso avô Álvaro Jorge, era uma espécie de cartista da “geração desiludida”, convertido ao regime por um conjunto compreensível de inevitabilidades – a principal das quais tinha a ver com o facto de não ser possível regressar a 1800, e, não podendo fazê-lo, era preferível viver depois de 1860 do que na década de trinta do século XIX, em guerra civil permanente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor supõe, depois de ter lido dois ou três manuais de História Pátria, que a República tem, a coroá-la (imagine-se), as grinaldas do heroísmo e do progresso. A isto nos habituou o tempo, divulgando essa imagem da felicidade perpétua dos comerciantes da Baixa Pombalina e dos caixeiros da Rua Fernandes Tomás, rodeados de bustos seminus da República e de réplicas do avião em que Gago Coutinho e Sacadura Cabral rumaram ao Atlântico Sul. Esse misto de bonomia, acasos felizes e economia triunfante, porém, nunca existiu. Passados quarenta e, mesmo, cinquenta anos, a Tia Benedita continuava a acreditar que o dr. Afonso Costa viria pelo Minho fora incendiar seminários e roubar o tesouro de Sta. Marinha da Oliveira. Em vão o velho Doutor Homem, meu pai, lhe lembrava que o demagogo morrera entretanto; seja por desconfiar da informação, seja por acreditar na vida eterna, a senhora não desarmava, e tornou-se muito mais reaccionária do que – na realidade – era ou podia ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este espectáculo burlesco de miguelistas fora de tempo, de cartistas vivendo os dramas da apostasia e de ‘liberais’ durante o Estado Novo, acompanhou sempre as minhas memórias da família. Parte da Pátria, no entanto, não compreendeu que não pode voltar atrás – nem a 1800 nem a 1908 – e entretém-se a louvar o regicídio, que agora se assinala como um prelúdio da República.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta altura do ano, a minha sobrinha Maria Luísa transporta-me, no meio do frio, entre a geada e a neblina, a São Miguel de Ceide e à casa do velho bruxo da nossa literatura. Também ela faz parte de uma “geração desiludida”. Educada no respeito por todas as revoluções, foi compreendendo – ao longo dos últimos anos – que elas não devoram apenas os seus filhos, como o tempo. Devoram também a história dos seus heróis, até que as suas páginas revelem as indignidades e a cobiça do costume, além da sombra de maldade que atravessa as melhores ideias. Camilo, nas penumbras de Ceide, ainda ri dos heróis de 1830.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;in Domingo&lt;/em&gt; - Correio da Manhã - 31 Janeiro 2010&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21606493-1867860188015157518?l=antonio-sousa-homem.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1867860188015157518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21606493/posts/default/1867860188015157518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2010/01/o-regicidio-o-heroismo-e-geracao.html' title='O regicídio, o heroísmo e a geração desiludida'/><author><name>António Sousa Homem</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
